Disband
Reza a lenda — dizem as más-bocas — que os Beatles são, sim, no presente, a maior banda de toda a história. Maiores que o Queen — banda de…
Disband
Reza a lenda — dizem as más-bocas — que os Beatles são, sim, no presente, a maior banda de toda a história. Maiores que Queen — banda de hits — ou que o produto mais bem-acabado da indústria cultural coreana: o BTS.
Li no verão passado — desculpem, verbo errado — devorei, como quem tem sede do mundo, em poucos dias, a versão de Hunter Davies, a única biografia autorizada dos Beatles. Na introdução — talvez eu não me lembre com precisão dos fatos; li o livro quando amargava dores oceânicas. Fascículo de outra biblioteca, portanto hoje inacessível, além dos fragmentos que ainda me inculcam — Davies falava das tantas biografias da banda, do apogeu à queda.
John e Paul passavam longas tardes juntos ensaiando, brincando. Há quem diga — obras de mentes perversas — que a relação deles transcendia a mera amizade, o que considero não mais que fanfic. Todavia, fato é: John Lennon e Paul McCartney se amavam.
Enquanto Davies falava sobre a infância dos meninos e suas tardes, meu eu-professor pensava: seria difícil imaginar a existência dos Beatles sob as urgências das escolas integrais de educação hipotecada, tão assediadoras no contemporâneo. Os Beatles talvez — escrevo aqui o que seria o pesadelo de alguns — , se houvesse um sistema educacional como o que se quer implantar hoje em São Paulo, não teriam sequer saído da garagem.
O duo logo virou trio, com a entrada do lendário George Harrison. A história seguiu. Houve dificuldades, mas a vez era das boy bands; não havia quem ouvisse aqueles meninos e não ficasse encantado. Entra em cena Brian Epstein, e a banda segue seu processo histórico. Turnês, sucesso mundial, aeroportos parados. Acalmem-se: não deixei a percussão de lado. Pete Best e Ringo, logicamente, deram suas contribuições.
Do abandono familiar às drogas, os Beatles são exceção entre aqueles que tentam viver o sonho da música. Quantas bandas morreram para que eles pudessem existir? O quanto tudo falhou — Estado, família, sociedade — para que quatro jovens, juntos, refizessem o rio que canaliza a história. As dificuldades que compõem a trajetória da maior banda de todos os tempos são marcadas por ciclos de violência, brigas, Yokos e amizade. Apesar de seus apesares, os Beatles se comunicavam.
Lembro de, já caminhando para o fim da biografia, Davies falar das reconciliações e de como, já ricos, eles foram atrás dos amigos de infância para empregá-los.
A maior banda da história só existiu porque acabou. Tudo é ciclo: começo, meio e fim. O outono, como canta Sandy & Júnior, é sempre igual — as folhas caem no final.
Famílias
Sempre lidando com muitas famílias, pergunto-me o que afinal é isso. Vejo disfuncionalidades, violências, mas lembro da ideia de que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Penso na minha aldeia — hoje disparatada — cuja disfuncionalidade, ainda assim, teve êxito suficiente para me trazer até aqui.
Começo a mirar na vida o Cabo da Boa Esperança, já descrente da viagem, mas entendendo que navegar é preciso. Pergunto-me, afinal, que graça há em cruzá-lo.
Pesquisei. Fui atrás da teoria para dar base às minhas dúvidas. Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Engels fala dessa criação antropológica que nos manipula. “Existir, a que será que se destina?” Enquanto família, somos produtos uns dos outros para a subsistência; resultado de um processo econômico-histórico, não um dado dado.
Posto isso, volto à família que construo — de amigos e amigas — sem qualquer consanguinidade. Em certa perspectiva histórica, sou levado a pensar que o “natural”, logo o “saudável”, repousa na configuração patriarcal do existir: façam-se filhos, na ausência de escravos (eu sei, a idade assusta — reclamem com Engels).
Sou levado a refletir se o meu querer paternar é um imperativo biológico — como o da consciência coletiva de Pluribus — ou se é a tentativa do meu inconsciente coletivo de dialogar com o inconsciente pessoal. “O que será, que será, do que será, que será?”
Trago tudo isso para dizer-lhes que, após festas e comemorações familiares, esses laços me assombram. Minha família é como uma banda; sinto-a, às vezes, passando pelo disband.
Redescobrir, nos muitos ciclos que nos constituem, o prazer para além da dor de existir — e de estar preso ao sofrer — é dar chance à vida e à possibilidade de ser.
Se este texto está confuso, perdoem-me. Como diz Neruda:
Não vim para resolver nada Vim aqui para cantar E que cantes comigo.
Boa semana.

Música — Henri Matisse
메타데이터
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