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Quermesse da Paróquia do Calvário: A engrenagem que move uma das maiores festas juninas de SP

Com 47 anos de história, tradicional comemoração em Pinheiros recebe 5 mil pessoas por noite e converte 100% do lucro em caridade

LabJor in LabJor · 2026-06-22 19:48 · 0 claps · 6.9 min read
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NOS BASTIDORES

Quermesse da Paróquia do Calvário: A engrenagem que move uma das maiores festas juninas de SP

Com 47 anos de história, tradicional comemoração em Pinheiros recebe 5 mil pessoas por noite e converte 100% do lucro em caridade

Luiza Matarozzi

Festa da Igreja do Calvário, em Pinheiros. Foto: Luiza Matarozzi

Festa da Igreja do Calvário, em Pinheiros. Foto: Luiza Matarozzi

O aroma do quentão aquecendo o frio de junho e o som da sanfona são dois dos sinais de que se está entrando numa das manifestações culturais mais guardadas na memória afetiva do brasileiro: a quermesse. Fruto de séculos de uma história que começou com rituais pagãos na Europa e se transformou ao fincar suas estacas no Brasil, essa festa requer meses de planejamento, uma complexa engenharia de logística e muito trabalho comunitário. É uma engrenagem sustentada por uma dedicação rigorosa e pelo amor à tradição, que começa a ganhar vida no último fim de semana de maio e se estende até o primeiro fim de semana de julho.

Para entender como funciona essa máquina de cultura e gastronomia, o LabJor foi até a Paróquia do Calvário, na zona oeste paulistana, para conferir os bastidores de uma das maiores quermesses de São Paulo.

Decoração com bandeirinhas na Paróquia do Calvário. Foto: Luiza Matarozzi

Decoração com bandeirinhas na Paróquia do Calvário. Foto: Luiza Matarozzi

Localizada em um ponto estratégico entre Pinheiros e a Vila Madalena, a Paróquia do Calvário é sinônimo de ritmo intenso em junho. Sua missão é receber milhares de famílias, jovens e turistas que buscam uma das festas juninas mais tradicionais da cidade.

O endereço adquire nesta época uma dupla identidade. Durante a semana, a calmaria litúrgica toma conta das escadarias da igreja fundada pelos padres passionistas. Nos fins de semana, as grandes portas de ferro se abrem e o espaço se transforma em uma verdadeira operação de guerra gastronômica e corporativa, movida pela precisão e pelo coração.

Estoque de alimentos perecíveis e não perecíveis. Foto: Luiza Matarozzi

Estoque de alimentos perecíveis e não perecíveis. Foto: Luiza Matarozzi

Quem circula pelos bastidores antes de os portões abrirem nos fins de semana, às 17h30, depara-se com um almoxarifado rigoroso. O estoque central controla a entrada e saída de insumos semanais perecíveis, como os nhoques e as polentas que descongelam em bacias gigantescas. Em uma sala reservada, computadores guardam dados de receitas, despesas e os resultados financeiros da festa.

“A gente batalha bastante para fazer a quermesse acontecer. É muita dedicação e muito amor mesmo”, explica o engenheiro Renato Tamada, um dos coordenadores gerais da quermesse.

Há 23 anos atuando como voluntário, ele se casou na paróquia e hoje ajuda a gerenciar o exército de mil voluntários. “Ela aconteceu naturalmente, praticamente não temos publicidade. É uma tradição de família que passa de geração em geração”, afirma.

TEMPEROS MÁGICOS E ROTINA DE FÁBRICA

Nos setores de produção, o clima de camaradagem caminha lado a lado com prazos rígidos. Na ala italiana, comandada pela auxiliar de serviços gerais Maria Cristina Vasconcelos dos Santos, de 63 anos, as panelas fervem com o molho artesanal que cobrirá as parmegianas e espaguetes. Na barraca nipo-brasileira, voluntários fatiam legumes em alta velocidade para preparar o yakisoba e processam calabresa e queijo para rechear as tradicionais fogaças — chamadas carinhosamente pelos veteranos de fricaire, em referência à receita típica italiana.

Molho de tomate para os produtos da barraca italiana. Foto: Luiza Matarozzi

Molho de tomate para os produtos da barraca italiana. Foto: Luiza Matarozzi

Mais adiante, o aroma anuncia a barraca do pernil que já é temperado na sexta-feira, embrulhado em papel celofane e colocado no forno às 7 da manhã do sábado, para seis a sete horas de cozimento.

O esforço se justifica: a barraca chega a vender 800 sanduíches por noite, consumindo até dez peças inteiras de pernil. O segredo do sucesso? Um molho especial guardado a sete chaves manipulado na chapa pelo técnico em edificações voluntário João Francisco Labone, o Kiko, de 67 anos. Com vinho, alho, chimichurri e uns temperos que eles não revelam.

Pernil sendo preparado após um dia inteiro marinando (à esq.) e panelas com vinho quente. Foto: Luiza Matarozzi

Pernil sendo preparado após um dia inteiro marinando (à esq.) e panelas com vinho quente. Foto: Luiza Matarozzi

A poucos metros da correria no pátio central, a cozinha parece uma área mais tranquila. É a ala comandada pela aposentada Maria Irene Santos Vieira, de 72 anos, voluntária há 31 na paróquia. Após passar 26 anos na agitação da barraca do quentão, ela assumiu o comando dos caldeirões da sopa de cebola, uma iguaria pouco provada em outras festas juninas, mas que ali faz sucesso.

“Hoje a previsão é de 30 litros de sopa, mas em dias de grande movimento já chegamos a vender 80 litros”, conta Irene. “A receita é a mesma, mas o diferencial é o capricho. O toque que a gente vai adaptando.”

Voluntários preparando a sopa de ceboa/Foto: Luiza Matarozzi

Voluntários preparando a sopa de ceboa/Foto: Luiza Matarozzi

Na central de distribuição de prendas, o volume de trabalho impressiona. Para abastecer os clássicos jogos do boliche, da pesca e da boca do palhaço, é necessária uma movimentação logística intensa para controlar o estoque.

“Nós organizamos as prendas e encaminhamos para as barracas. Vão em torno de 700 brinquedos por barraca por noite”, explica a aposentada Cristina Tavares Lopes, de 64 anos, voluntária há 16 no setor.

O controle minucioso exige que tudo o que sobra retorne no final da noite para a recontagem exata do que foi utilizado. A escolha do que vai para as prateleiras segue as tendências do mercado infantil, baseando-se no que fez mais sucesso nos anos anteriores para garantir a alegria das crianças paulistanas.

Mesmo diante de imprevistos que reduzem o público para cerca de 1.500 pessoas na noite, como o sábado de estreia do Brasil na Copa do Mundo, em 13 de junho, a engrenagem da Paróquia do Calvário não desacelera. Até o descarte é milimetrado: o pátio conta com coleta seletiva na retaguarda, garantindo a reciclagem correta de todo o lixo e o refino do óleo de fritura utilizado nas barracas.

Embora o entretenimento chame a atenção, o motor real da festa é a caridade: 100% do lucro é revertido para obras sociais. Entre os projetos beneficiados estão:

  • CCA São Paulo da Cruz, que oferece atendimento socioeducativo e alimentar para cerca de 120 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade;
  • Fraternidade O Caminho, uma chácara terapêutica em Itu dedicada à recuperação de dependentes químicos;
  • Apoio Comunitário, uma farmácia com distribuição gratuita de remédios e que ajuda na construção de igrejas em comunidades carentes.

NO BRASIL COLÔNIA, SINCRETISMO E FOGUEIRAS PAGÃS

Ao contrário do que muitos pensam, a festa junina não nasceu no Brasil. Suas raízes remontam aos rituais pagãos europeus que celebravam o solstício de verão e a fertilidade da terra no hemisfério norte. Com a consolidação do cristianismo, a Igreja Católica assimilou essas datas para homenagear Santo Antônio (13/06), São João (24/06) e São Pedro (29/06).

Tela ‘A Fogueira’, de Jules Breton. Foto: Reprodução

Tela ‘A Fogueira’, de Jules Breton. Foto: Reprodução

Um detalhe teológico curioso sustenta a tradição da fogueira: como destaca reportagem da Agência Brasil, ela nasceu de um acordo contado na Bíblia entre as primas grávidas Isabel e Maria, mãe de Jesus. Isabel prometeu acender uma fogueira para avisar Maria sobre o nascimento de João Batista, sinal que hoje brilha em cada quermesse como símbolo de luz e purificação.

A tradição cruzou o Atlântico com os portugueses no século 16. No Brasil, a festa ganhou contornos únicos, de acordo com reportagem da revista National Geographic, a partir de diferentes influências:

  • A quadrilha originou-se das danças de salão da aristocracia francesa (contradança), adaptada com trajes caipiras;
  • O milho, alimento sagrado para os indígenas, tornou-se a base da culinária junina (pamonha, canjica, curau) devido à época da colheita;
  • A influência africana trouxe o ritmo do tambor e da zabumba, essenciais para o forró e o baião;
  • Os fogos de artifício vieram da China, enquanto a dança de fitas tem raízes na Península Ibérica.

Enquanto a festa se consolidava como um marco da cultura rural e do interior do país, a capital paulista caminhava para transformá-la em um fenômeno urbano. Diferentemente do formato estritamente caipira do interior, a quermesse de asfalto em São Paulo ganhou uma culinária híbrida e única.

Com a industrialização de São Paulo no século 20, a cidade recebeu massas de imigrantes europeus (italianos, portugueses, espanhóis) e, mais tarde, de migrantes nordestinos. E os pátios das igrejas viraram refúgio para esses imigrantes.

Nascia a quermesse paulistana. Ao lado do milho cozido e do quentão, as colônias introduziram o sanduíche de pernil, o espetinho de churrasco, a fogazza italiana e os doces portugueses. O pátio da paróquia deixou de ser apenas o entorno do templo para virar o coração pulsante da vida comunitária do bairro durante o inverno.

A festividade aconteceu no dia 25 de junho de 1964. Divulgação/Arquivo Público do Distrito Federal

A festividade aconteceu no dia 25 de junho de 1964. Divulgação/Arquivo Público do Distrito Federal

A QUERMESSE DO CALVÁRIO EM NÚMEROS

  • 47 anos de tradição no bairro de Pinheiros;
  • 600 a 800 voluntários trabalhando ativamente a cada fim de semana;
  • 20 barracas com opções gastronômicas de diversas nacionalidades;
  • Cerca de 5 mil pessoas recebidas por noite de evento;
  • 100% do lucro arrecadado revertido para obras sociais e de caridade da Paróquia de São Paulo da Cruz (Igreja do Calvário).
  • R$ 2 milhões em investimentos em insumos e infraestrutura;
  • R$ 500 mil destinados especificamente à logística, incluindo segurança, limpeza, ambulâncias e shows.

SERVIÇO

Quermesse da Paróquia do Calvário Onde? Rua Cardeal Arcoverde, 950, Pinheiros, São Paulo Quando? Até 5 de julho, aos sábados, das 17h30 às 23h30, e aos domingos, das 17h30 às 22h30 Quanto? R$ 40 (ingresso normal), R$ 20 (idosos 60+), R$ 30 + 1kg de alimento não perecível (entrada beneficente para adultos), R$ 15 + 1kg de alimento (entrada beneficente para idosos 60+). Gratuito para idosos 80+ e crianças até 10 anos.

Luiza Matarozzi é aluna de Jornalismo da FAAP


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