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Vertigem e Consumo

por Anne Castro

pensar design in e o design com isso? · 2021-01-12 20:03 · 7 claps · 5.7 min read
#consumerism #design #consumo #e-commerce-business #2020-1
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Wiki topics: DSN · Design · General

Vertigem e Consumo

por Anne Castro

Durante a realidade pandêmica desenrolada desde março de 2020, me encontrei com uma grande quantidade de tempo ocioso e disponível para despender em meios digitais. Isso me levou, após um tempo e diversas compras, a um processo reflexivo sobre padrões de consumo e porque estes nos geram sentimentos de felicidade e satisfação, principalmente em tempos como o que vivemos.

Muito embora o ato de consumir seja um comportamento diário, raramente paramos para refletir sobre o impacto dele em nossas vidas. E apesar de tudo, pode-se considerar complexa a investigação em torno do ato de consumir, que engloba diversas atividades, atores, bens e serviços que não se restringem somente a produtos. Buscarei aqui, à luz de conceitos do design como área de desenvolvimento de produtos, relacionar o texto de Baudrillard sobre a Sociedade do Consumo e a atual influência das redes sociais nesse contexto de geração de necessidade por consumir.

Primeiramente, um recorte do cenário atual que estamos inseridos para contextualizar a investigação. Dezembro de 2019 surpreendeu o mundo com a disseminação rápida do Coronavírus. Até fevereiro de 2020 mais de 100 países já sofriam com os efeitos dessa contaminação veloz. A partir de março deste ano, a OMS decretou pandemia mundial devido a rápida proliferação do vírus ao redor do mundo, levando assim há um período de quarentena, isolamento social e reclusão, buscando conter a proliferação da doença evitando o trânsito de pessoas nas ruas e entre países. Com todas essas medidas impostas, grande parte da população se viu numa realidade diferente, toda a rotina deveria funcionar no ambiente doméstico.

Desde o início desse período de distanciamento, como forma de manter a rotação da economia que se encontrava em possível colapso, viu-se uma explosão de descontos sendo disponibilizados via e-commerce pelos mais diversos sites de compras, editoras de livros, lojas de sapatos e comércio em geral. Com mais tempo e o bombardeio de mensagens, começamos uma corrida por consumir produtos. Particularmente, perdi as contas de quantos livros adquiri nesse período e justifiquei todas as aquisições como sendo parte da minha formação futura — será mesmo que precisava comprar naquele momento? A satisfação por comprar mesmo não tendo certeza de como as coisas iriam se desenrolar era maior.

Figura 1: exemplo de desconto oferecido pela GG Editora

Figura 1: exemplo de desconto oferecido pela GG Editora

Há algum tempo atrás, a influenciadora do consumo era a TV e seus insistentes comerciais. Atualmente as redes sociais e as mídias digitais assumiram o controle dessa função, uma googlada e começamos a receber anúncios da marca ou do site. O trabalho de marketing é incansável em convencer a consumir.

À nossa volta, existe hoje uma espécie de evidência fantástica do consumo e da abundância, criada pela multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais, originando como que uma categoria de mutação fundamental na ecologia da espécie humana. Para falar com propriedade, os homens da opulência não se encontram rodeados, como sempre acontecera, por outros homens, mas mais por objetos. (Baudrillard, 1995)

Figura 2: Mafalda se questiona sobre quem somos, porque agimos sem pensar?

Figura 2: Mafalda se questiona sobre quem somos, porque agimos sem pensar?

Na figura 2 vemos a Mafalda se perguntando “Quem nós somos?”. Cercados de informação ainda somos manipulados por meios alheios à nossa ‘vontade própria’. Baudrillard já dizia que não queremos mais estar cercados de pessoas e sim de coisas, multiplicamos nossos objetos cegamente. Enquanto para civilizações anteriores, os objetos — grandes monumentos, ferramentas, adornos — eram espectadoras da mudança do homem ao longo dos anos, com o surgimento das sociedades de consumo, esse cenário inverte-se e são as pessoas que passam a assistir ao surgimento, vida e declínio dos objetos que, a partir desse momento histórico, são profusamente criados para responder aos desejos de uma nova organização social.

Figura 3: Mafalda e Miguelito: consumir para ser feliz?

Figura 3: Mafalda e Miguelito: consumir para ser feliz?

Na figura 3, o questionamento casual de Mafalda ao amigo Miguelito sobre a programação da televisão, gera uma resposta nada comum, quando o garoto faz uma relação eventual entre consumir produtos e bem viver. Em nossa sociedade contemporânea, a ideia de sucesso é correlacionada a de felicidade atribuída ao ato de consumir. Nesse quadro, para que o indivíduo seja considerado “bem-sucedido” é preciso que possua grande poder aquisitivo para consumir bens e serviços — ou, ao menos, ostente essa capacidade. Um modelo de consumo excessivo é buscado a qualquer custo, causando desvantagens a valores como relações humanas, caráter, integridade, e a preservação do meio ambiente.

Além disso, ainda que a vontade seja preenchida em com a compra de determinado produto, logo outras necessidades de compra serão tão urgentes quanto, ou outros produtos serão colocados no mercado, fazendo com que tais necessidades voltem à tona.

Aqui usarei de exemplo o iPhone, um dos maiores objetos de desejo da contemporaneidade, que esse ano chegou a sua 12ª geração, e nem a pandemia ou desacelerar do mercado foi capaz de aplacar o desejo por um novo modelo recém lançado. Em nossa busca constante pelo sucesso — que depreende a aquisição de mais produtos e mais serviços — , bens fúteis acabam se tornando essenciais. A Apple costuma defender desde de seu primeiro lançamento um estilo de vida, um conceito atrelado ao uso do aparelho. A partir dessa identificação com determinados modelos e imagens que carregamos em constituição cultural e social, também nos tornamos propulsores da sociedade de consumo. Indivíduos buscam preencher o seu vazio interior através de receitas prontas, como se fossem verdadeiras pérolas de investimento.

O primeiro modelo disponibilizado pela Apple ainda em 2007, prometia uma revolução no mercado de telefonia móvel e assim o fez, uniu funcionalidades de diversos aparelhos em um só, levando o mundo ao frenesi de possuir aquela peça inovadora. O usuário, por sua vez, ultrapassa a absoluta necessidade de um objeto em função de seu valor de uso e a autonomia de sua escolha o insere na ordem econômica. Entretanto, essa decisão experimentada como liberdade, não é percebida como exigência decorrente do sistema cultural e econômico na atual sociedade global. A liberdade da sociedade de consumo significa que o cidadão é livre para possuir e projetar seus desejos nos bens de consumo, adotando padrões irracionais e regressivos para adaptar-se a uma ordem social de produção.

Medeiros, em sua referência ao Objetos de Desejo, de Adrian Forty, diz que:

Ao tornarem tangíveis e claras as ideias e intenções de empreendedores, o designer materializa nos objetos a sua natureza simbólico-material que atua duravelmente ao encarnar em diversos ambientes, desde a fábrica até o lar, permanentes indicativos de comportamentos de consumo. Se por um lado os empreendedores capitalistas têm o marketing e a publicidade, e outros recursos para fazerem surtir os efeitos educativos de consumo, por outro, tais efeitos não seriam possíveis sem a materialização das intenções simbólicas que fazem de um simples objeto um “objeto de desejo”.

Observamos, nesse sentido, como a valorização das aparências e o consumo estão intimamente conectados, visto que a manutenção dessas aparências possibilita a busca do status de vencedor. Os incentivos que prometem a felicidade instantânea ao consumidor não deixam expressos os perigos enfrentados para que essa felicidade seja alcançada. O endividamento é um dos inimigos dos consumidores e a cada dia ele também aumenta, criando um problema social grave, em que indivíduos podem se sentir impedidos de alcançarem a felicidade.

Assim, aqui vou eu consumidora seguir a vertiginosa busca pela felicidade em compras, seja pelo mero status ou pelo simples prazer de efetuar a compra em si, proporcionando a perpetuação da sociedade de consumo.

Figura 4: Eu e dona Maria Joana Cascudo, temos muito em comum.

Figura 4: Eu e dona Maria Joana Cascudo, temos muito em comum.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade do consumo. Portugal: Edições 70, 1995.

MEDEIROS, Wilton de Araújo. O lugar do design e a aparência dos objetos. Disponível aqui. Acesso em 13/12/2020.

PINTO, Marcelo de Rezende, BATINGA, Georgiana Luna. O consumo Consciente no Contexto do Consumismo Moderno: Algumas Reflexões. Disponível aqui. Acesso em: 12/12/2020.

VASCONCELOS, Juliana Kathleen Barbosa de, COVALESKI, Rogério Luiz. Sociedade em Queda Livre: O Consumo como Instrumento Mestre na Construção da Felicidade. [Disponível aqui.](http://www.revistas.usp.br/signosdoconsumo/article /view/164399) Acesso em: 11/12/2020.

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