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Só (10.151)

Então é isso: aceitei a solidão.

Dort8899 · 2025-06-30 17:57 · 0 claps · 2.2 min read
#solidão #reflexão #vida-adulta #depressão #tristeza
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Só (10.151)

Então é isso: aceitei a solidão.

E essa aceitação me trouxe à memória a jornada de Cristo, uma ode à solidão. Começo reproduzindo a obra “Cristo no deserto” que, para mim, retrata com perfeição o sentimento:

“Cristo no Deserto”, pintada em 1872 por Ivan Kramskoi

“Cristo no Deserto”, pintada em 1872 por Ivan Kramskoi

Logo após ser batizado, Cristo inicia seu jejum de 40 dias cercado pelo vazio do deserto:

“E esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava entre as feras, e os anjos o serviam.” (Marcos 1:13)

Em sua peregrinação, eram constantes os retiros solitários para oração:

“Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi a um lugar deserto e ali orava.” (Marcos 1:35)

A passagem no Getsêmani é contundente:

A palavra “Getsêmani”, do hebraico “Gat Shmanim”, significa “prensa de azeite”. É o nome dado ao jardim que ficava no sopé do Monte da Oliveiras, do outro lado do Cedron, em frente a Jerusalém.

Logo após cear com os discípulos, conhecedor de seu destino, se fez acompanhar daqueles que lhe eram mais próximos: Pedro, Tiago e João.

A eles abre a alma, confessa o medo, pede amparo:

“A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo.” (Mateus 26:38)

O desespero era tanto que suou sangue, fenômeno conhecido como hematidrose, que pode ocorrer sob extremo estresse físico ou emocional, quando, juntando fé e ciência, a da dor da alma se manifesta no corpo:

“Estando em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como gotas de sangue, caindo sobre a terra.” (Lucas 22:44)

Jesus então orou por três vezes, a cada vez voltando ao pequeno grupo que, dormindo, o deixaram só:

“Então, nem uma hora pudestes vigiar comigo?” (Mateus 26:40)

Janela na Igreja da Lágrima, no Monte das Oliveiras — Foto minha

Janela na Igreja da Lágrima, no Monte das Oliveiras — Foto minha

Após a terceira oração, Judas:

“Judas, com um beijo traís o Filho do Homem?” (Lucas 22:48)

Chegado o momento da prisão, todos fogem:

“Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram.” (Mateus 26:56)

Pela via dolorosa, Cristo carrega sua cruz. Solidão suprema cercado por uma multidão que, em sua maioria, dirigia-lhe insultos.

Depois de um noite de tortura, no longo caminho — Calvário — até o Gólgota, Jesus foi flagelado, zombado, coroado com espinhos, obrigado a carregar a própria cruz, até que cedeu … então, não por piedade mas por medo de que Jesus morresse antes da hora, estragando o espetáculo, ordenaram a Simão que o ajudasse:

“Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o forçaram a carregar a cruz.” (Mateus 27:32)

Terminando o suplício na crucificação, com a sensação maior de solidão:

“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46)

Por mim, ao aceitar a solidão, creio que tenha entendido um pouco mais sobre a vida. Até ontem tinha a esperança de que seria amparado, seria compreendido, que seriam por mim como, sem qualquer falsa nobreza, fui pelos outros.

Equivoquei-me.

Sem drama, sem peso, sem remorso e sem esperança digo:

Estamos todos sós.


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