Só (10.151)
Então é isso: aceitei a solidão.
Só (10.151)
Então é isso: aceitei a solidão.
E essa aceitação me trouxe à memória a jornada de Cristo, uma ode à solidão. Começo reproduzindo a obra “Cristo no deserto” que, para mim, retrata com perfeição o sentimento:

“Cristo no Deserto”, pintada em 1872 por Ivan Kramskoi
Logo após ser batizado, Cristo inicia seu jejum de 40 dias cercado pelo vazio do deserto:
“E esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava entre as feras, e os anjos o serviam.” (Marcos 1:13)
Em sua peregrinação, eram constantes os retiros solitários para oração:
“Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi a um lugar deserto e ali orava.” (Marcos 1:35)
A passagem no Getsêmani é contundente:
A palavra “Getsêmani”, do hebraico “Gat Shmanim”, significa “prensa de azeite”. É o nome dado ao jardim que ficava no sopé do Monte da Oliveiras, do outro lado do Cedron, em frente a Jerusalém.
Logo após cear com os discípulos, conhecedor de seu destino, se fez acompanhar daqueles que lhe eram mais próximos: Pedro, Tiago e João.
A eles abre a alma, confessa o medo, pede amparo:
“A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo.” (Mateus 26:38)
O desespero era tanto que suou sangue, fenômeno conhecido como hematidrose, que pode ocorrer sob extremo estresse físico ou emocional, quando, juntando fé e ciência, a da dor da alma se manifesta no corpo:
“Estando em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como gotas de sangue, caindo sobre a terra.” (Lucas 22:44)
Jesus então orou por três vezes, a cada vez voltando ao pequeno grupo que, dormindo, o deixaram só:
“Então, nem uma hora pudestes vigiar comigo?” (Mateus 26:40)

Janela na Igreja da Lágrima, no Monte das Oliveiras — Foto minha
Após a terceira oração, Judas:
“Judas, com um beijo traís o Filho do Homem?” (Lucas 22:48)
Chegado o momento da prisão, todos fogem:
“Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram.” (Mateus 26:56)
Pela via dolorosa, Cristo carrega sua cruz. Solidão suprema cercado por uma multidão que, em sua maioria, dirigia-lhe insultos.
Depois de um noite de tortura, no longo caminho — Calvário — até o Gólgota, Jesus foi flagelado, zombado, coroado com espinhos, obrigado a carregar a própria cruz, até que cedeu … então, não por piedade mas por medo de que Jesus morresse antes da hora, estragando o espetáculo, ordenaram a Simão que o ajudasse:
“Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o forçaram a carregar a cruz.” (Mateus 27:32)
Terminando o suplício na crucificação, com a sensação maior de solidão:
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46)
Por mim, ao aceitar a solidão, creio que tenha entendido um pouco mais sobre a vida. Até ontem tinha a esperança de que seria amparado, seria compreendido, que seriam por mim como, sem qualquer falsa nobreza, fui pelos outros.
Equivoquei-me.
Sem drama, sem peso, sem remorso e sem esperança digo:
Estamos todos sós.
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