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Celebrando os 91 anos de Jean-Luc Godard

“Uma vez que se começa a ver filmes antigos conscientemente, acaba se iniciando um ato de teorizar — visões históricas, ortodoxias…

Cinema Marginal · 2021-12-03 13:13 · 19 claps · 8.0 min read
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Celebrando os 91 anos de Jean-Luc Godard

Uma vez que se começa a ver filmes antigos conscientemente, acaba se iniciando um ato de teorizar — visões históricas, ortodoxias críticas. Não seria o autorismo apenas uma tentativa de trazer alguma ordem ao enorme corpus de filmes?

Esse desenvolvimento, novo no cinema, existe há mais tempo em outras artes. Desde o Renascimento, muitos artistas buscaram modelos — conscientemente — no passado, tal como os realizadores de filmes fazem agora. Nenhum realizador faz mais isso do que Godard.” — Richard Roud em Godard sobre Godard.

A obra de Godard deve ser lembrada, resgatada e recuperada sempre que possível. Para celebrar seus 91 anos da vida, o Cinema Marginal traz nesta publicação dois textos sobre a obra do realizador franco-suíço, um escrito por *Miguel Fernandes, da revista [Imagem e Palavra](https://imagemepalavra.com), e outro escrito por [Daniel Fonseca](https://twitter.com/danielisadoge)*, editor deste mesmo website.

GODARD-CRÍTICO E GODARD-CINEASTA

por Miguel Fernandes

O trabalho de Jean-Luc Godard nos Cahiers du Cinéma começa por volta dos seus 21 anos, em janeiro de 1952. Trazido por Maurice Schérer (Eric Rohmer), Godard escreve para a oitava edição da revista um texto sobre o filme No Sad Songs for Me, de Rudolph Maté. Antes, porém, aos 19 anos, também sob auxílio de Rohmer, foi na segunda edição da Gazette du Cinéma que Godard publicou o seu primeiro texto sobre cinema, uma crítica a House of Strangers, de Joseph Mankiewicz, em que afirmava ser este um dos mais brilhantes diretores americanos e o compara a Alberto Moravia. Já em seu segundo texto publicado, intitulado “Por um cinema político”, o autor de Viver a Vida menciona, entre outros, Bertolt Brecht, autor cuja influência seria presente em seu cinema. É possível então, hoje, perceber o que Godard, numa entrevista concedida em 1962, posteriormente afirmaria: que “escrever cinema já era fazer cinema […]”, e que as ideias e referências¹ manifestadas em seus textos se cristalizariam em seus filmes.

No entanto, tão breve quanto a existência da Gazette (a revista durou poucas edições, nas quais J.-L. G. publicou cerca de seis textos), a passagem de Godard pelos Cahiers no início dos anos 50 foi interrompida ainda em ’52, sendo retomada apenas em ’56. O crítico havia se mudado a trabalho (onde conseguiria recursos para os seus primeiros curtas), e também por conta de algumas intrigas envolvendo pequenos furtos nos Cahiers². Mas o pouco tempo em ’52 já havia sido suficiente para que Godard, com o seu pseudônimo Hans Lucas³ (versão alemã de Jean-Luc), publicasse dois célebres textos: o seu “Suprématie du sujet”, crítica a Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock, em que Godard se “insurgia” contra a redação chefe⁴; e a sua “Defesa e Ilustração da Decupagem Clássica”, outra insurgência por parte de Godard, desta vez propondo uma montagem diferente da que defendia André Bazin, um dos “pais fundadores” da revista. Naquele momento, não era o plano-sequência em alta profundidade de campo que encantava Godard, mas o campo/contra-campo. Percebe-se aqui, em Defesa…, o seu gosto por certos diretores americanos ou atuantes em Hollywood: Howard Hawks (“o maior dos artistas americano”, diz Godard no texto), Otto Preminger e Alfred Hitchcock ilustrariam seus exemplos. Temos aqui, talvez, um pequeno indício do que seria os “hitchcock-hawksianos” dos Cahiers, representado por alguns dos “jovens turcos” (dentre eles o próprio Godard, Rohmer, Truffaut, Chabrol, Rivette).

Jean-Luc com Fritz Lang (à esquerda)

Jean-Luc com Fritz Lang (à esquerda)

Embora Godard tenha demonstrado profunda lucidez analítica (“O cinema e o seu duplo”, 1957, sobre O Homem Errado), talvez sejam os seus textos mais “delirantes” e “apaixonados” que se sobressaem hoje. Por quê? Porque Godard — penso eu –, como nenhum outro crítico, dispunha de aforismos⁵ para validar suas ideias. É então que lembramos como, com poucas palavras, ele diz que “o cinema é Nicholas Ray” e que ele [Ray] seria capaz de reinventar o cinema se este deixasse de existir. Sim, declarações inusitadas, referências, homenagens e alusões a poetas (Aragon), romancistas (Moravia), dramaturgos (Shakespeare), pintores (Vélazquez): tudo isso, presente nos textos de Godard, fez com que nomes como Nicholas Ray fossem inscritos no panteão dos grandes autores de cinema; e tudo isso, presente nos filmes de Godard, fez com que também ele fosse inscrito no panteão dos grandes artistas do século XX.

Nós todos na Cahiers nos considerávamos futuros diretores. Frequentar os cineclubes e a cinemateca já era pensar cinema e pensar no cinema. Escrever já era fazer cinema, pois, entre escrever e filmar, há uma diferença quantitativa, não qualitativa. O único inteiramente crítico era Bazin. Os outros, Sadoul, Balazs ou Pasinetti, eles eram historiadores ou sociólogos, não críticos.” — Jean-Luc Godard (Cahiers N°138)

Não há, então, distinção entre o Godard-crítico e o Godard-cineasta: pois que Godard fazia filmes enquanto escrevia críticas e filmava críticas enquanto fazia filmes.

Sugestões de textos escritos por Jean-Luc Godard:

Os “delirantes”:

*Para Além das Estrelas” (Cahiers du Cinéma N°79), texto sobre Amargo Triunfo*, de Nicholas Ray;

*Lágrimas e Velocidade” (Cahiers du Cinéma N°94), texto sobre A Time to Love and a Time to Die*, de Douglas Sirk;

Os “lúcidos”:

*Montagem, meu belo anseio” (Cahiers du Cinéma* N°65), texto sobre montagem no cinema;

*Defesa e Ilustração da Decupagem Clássica” (Cahiers du Cinéma* N°15).

*O cinema e o seu duplo” (Cahiers du Cinéma N°72), texto sobre O Homem Errado*, de Alfred Hitchcock.

¹ Sobre Brecht, falo de um certo distanciamento brechtiano, em que Godard não mascara os mecanismos de seus filmes e fragmenta o fluxo da narrativa (Cf. abertura de Viver a Vida, jump-cuts de Acossado, etc), entre outros. A respeito das influências literárias de Godard, cf. Jean-Luc Godard: História(s) da Literatura, de Maurício Salles Vasconcelos.

² MCCABE, Colin — Godard: A portrait of the artist at seventy.

³ É possível que o “H.L.” tenha sido uma espécie de homenagem a Henri Langlois, gerenciador da Cinemateca Francesa. A presença da cinemateca e dos cineclubes, penso eu, foi fator importantíssimo para a eclosão do que conhecemos como cinema moderno, mas os motivos disso cabem ser abordados em outra investigação mais elaborada.

⁴ O parágrafo final deste texto de Godard continha uma nota do Editor, em que se diz: “o leitor terá notado que todos os pontos deste artigo são direcionados contra o Editor-chefe.”

⁵ No dizer de Alcir Pécora, curtas frases que nos causam uma suspensão dos ânimos: “Se a encenação é um olhar, a montagem é um batimento do coração”; “O cinema é Nicholas Ray”; “É preciso viver em vez de durar”; “[Este filme] é arte ao mesmo tempo que teoria da arte”, etc

Jean-Luc e Brigitte Bardot

Jean-Luc e Brigitte Bardot

MODERNO POR DEFINIÇÃO

por Daniel Fonseca

Moderno por excelência (ou, talvez, por definição), Jean-Luc Godard completa no dia de hoje seus 91 anos de idade. Relembrar, resgatar e celebrar sua obra é algo que faço aqui com o maior orgulho, pois o que este realizador fez diretamente pelo cinema e pela arte e, indiretamente, pelo marxismo, é imensurável.

Cena de A Chinesa (1967)

Cena de A Chinesa (1967)

Gosto sempre de definir Hans Lucas (seu pseudônimo utilizado para assinar seus textos de juventude na Cahiers) como o mais moderno dos cineastas. Moderno por excelência e por definição. Desde o início de seus escritos que valorizava o clássico e, quando as tendências modernas da sétima arte começaram a dar suas caras, J.-L. afirmava que era necessário conhecer o clássico para entender o moderno. Esta característica explicita bastante de sua obra; o tributo aos clássicos, aos seus mestres, sempre foi algo constante em seus filmes e artigos. Utilizou desta sua característica, respaldada pelo seu conhecimento colossal da história, da arte e da filosofia, para elevar o nível da crítica cinematográfica à sua época.

Era necessário que uma nova linguagem artística fosse valorizada tanto quanto outras mais antigas. A capacidade da forma da arte de articular ideias e promover experiências se faz presente no cinema desde que este era exibido como atração, mas a falta de uma teoria que formalizasse o valor das imagens em movimento fez com que o que hoje chamamos de sétima arte, por muito tempo, fosse menosprezada. Talvez tenham sido os cahiers os principais responsáveis pela popularização desta guinada do reconhecimento do cinema como forma artística, e Hans Lucas tem grande mérito nesse acontecimento.

Cena de O Desprezo (1963)

Cena de O Desprezo (1963)

Citando literatura clássica e escrevendo textos que se arranjavam, ao longo de sua leitura, como obras à parte, o jovem Godard já desafiava os demais críticos de arte ao valorizar as produções feitas com filmagem e encenação, colocando-as no mesmo nível dos escritos de autores muitíssimo apreciados, como Homero, Platão, Aristóteles, Dostoiévski, J. W. von Goethe, Honoré de Balzac, etc. Todos estes grandes nomes da história da arte eram comparados com mestres como D. W. Griffith e Serguei M. Eisenstein, Hitchcock e Hawks, etc.. Foi todo o conhecimento do jovem Jean-Luc que o permitiu desafiar a editoria da Cahiers du Cinéma, numa discussão que acabou gerando um dos textos mais brilhantes de André Bazin. Autorista radical, sua obra é marcada exatamente por essas características. Autorismo e desafio.

Não sei como Jean-Luc é visto na decadente Terra da Liberdade, mas que a sua teoria dos autores incomodaria alguns que escreviam, ou que ainda escrevem, nos principais veículos de comunicação da principal potência imperialista do planeta é fato para mim. J.-L. G. é desafio não apenas formalmente, por conta de seu aspecto mais experimental, mas também ideologicamente. O realizador franco-suíço estava totalmente alinhado com a verdadeira ideologia das massas quando, por exemplo, incorporou em sua obra filmada — em determinada fase de sua carreira — o que hoje chamamos de maoismo.

Algo louvável em Jean-Luc é o fato de que o conhecimento não o limita. Este foi, e ainda é, muito a frente do seu — e do nosso — tempo. Pode parecer contraditório, dentro dos dogmas da pós-modernidade em que vivemos, um sujeito que não só aprecia O Nascimento de uma Nação (1915), considerando D. W. Griffith um dos primeiros autores do cinema, como também, em sua “fase maoista” buscou propagandear explicitamente seu anti-imperialismo e sua oposição à camarilha revisionista que tomara conta da União Soviética.

Hans Lucas é um titã. Sua obra deve ser lembrada, resgatada e recuperada em todas as oportunidades possíveis, assim como o que disse sobre Griffith num de seus escritos¹, o nome Jean-Luc Godard deve aparecer sempre que falarmos sobre autorismo, ou sobre tendências clássicas e modernas do cinema, ou até mesmo sobre ideologia. O gênio de J.-L. G. se expande por uma área gigantesca. Nos resta sermos gratos pelo seu trabalho, pois seu tempo já passou².

¹ “*Isso porque acho que Griffith deva ser citado em qualquer artigo sobre Cinema — todos estão de acordo, mas todos o esquecem mesmo assim.”*

² Khan Khanne, sélection naturelle/Letter in Motion to Gilles Jacob and Thierry Fremaux (2014), filme dirigido por Jean-Luc Godard


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