Entre abandono e estrutura
Pertencimento, sofrimento e políticas de proteção
Entre abandono e estrutura
Pertencimento, sofrimento e políticas de proteção
Sara Wagner York
Aula inaugural UFRRJ 2026 Educação Especial
Nesta aula, discutiremos como pertencimento, vulnerabilidade e políticas públicas se articulam no campo da Educação Especial. Partiremos de uma reflexão sobre a construção dos vínculos e a importância da mediação nos processos de integração social, para então problematizar a tendência contemporânea de suspeitar da dor e moralizar o sofrimento.

Dialogaremos com contribuições da psicanálise, do feminismo negro, da teoria crítica e da literatura a fim de distinguir função simbólica do sofrimento e desigualdade estrutural. Em seguida, abordaremos o enfrentamento da violência de gênero contra pessoas com deficiência, analisando o capacitismo como estrutura social e o papel da formação docente na construção de redes de proteção.
O objetivo é demonstrar que pertencimento não é automático, que vulnerabilidade não pode ser tratada como encenação e que a garantia de direitos constitui tarefa institucional, não gesto de benevolência.
Capacitismo
Capacitismo é o sistema de crenças, práticas e estruturas sociais que hierarquiza corpos e mentes a partir de um padrão considerado normal, atribuindo menor valor, competência ou autonomia às pessoas com deficiência. Não se restringe ao preconceito individual, mas organiza instituições, políticas públicas, linguagem e relações cotidianas.
O termo deriva do inglês ableism e designa a suposição de que determinados modos de ver, andar, aprender, comunicar e produzir são superiores. A deficiência passa a ser lida como falha ou insuficiência, e não como expressão legítima da diversidade humana. Essa leitura sustenta práticas de exclusão, infantilização, dessexualização e tutela excessiva.
No plano institucional, manifesta-se na ausência de acessibilidade, na precariedade de políticas inclusivas, na invisibilidade em espaços de decisão e na desconfiança sistemática quanto à capacidade intelectual, profissional ou afetiva de pessoas com deficiência. No plano simbólico, aparece em discursos que associam deficiência à dependência permanente ou à improdutividade.
Quando articulado a gênero, raça e classe, o capacitismo produz camadas adicionais de vulnerabilidade. Mulheres com deficiência, por exemplo, enfrentam maior risco de violência e menor credibilidade ao denunciar abusos, evidenciando que a deficiência opera em intersecção com outras hierarquias sociais.
Enfrentar o capacitismo implica deslocar o foco da correção do corpo para a transformação das estruturas. A deficiência deixa de ser problema individual e passa a ser compreendida como resultado de barreiras sociais, arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais. Superá-lo exige reconhecimento da deficiência como dimensão legítima da experiência humana, garantia de acessibilidade plena e participação efetiva nos espaços de decisão. Trata-se de agenda ética orientada pela equidade e pela justiça social.
I. A cena que antecede a teoria
Abrimos com Punch, não como curiosidade zoológica, mas como imagem inaugural.
Um filhote rejeitado. Um objeto transicional. Uma aprendizagem gradual de pertencimento.
O vínculo não é instinto puro. É construção relacional mediada.
Em julho de 2025, no zoológico de Ichikawa, no Japão, nasceu Punch, filhote de Macaca fuscata. Rejeitado pela mãe e isolado pelo grupo, passou os primeiros dias agarrado a um boneco de pelúcia oferecido pelos tratadores. A imagem se difundiu amplamente. Muitos enxergaram apenas ternura.
A cena, contudo, revela algo estruturante. Entre primatas altamente sociais, a presença materna organiza a aprendizagem dos códigos do grupo. Sem essa mediação, não há apenas carência afetiva, mas risco de desintegração social.
A pelúcia funcionou como suporte transicional, permitindo que o filhote se sustentasse tempo suficiente para tentar, repetidas vezes, aproximar-se dos demais. Dias depois, recebeu o primeiro gesto de acolhimento de um adulto da tropa. Não foi milagre, foi processo.
Pertencer exige ambiente responsivo, repetição afetiva e possibilidade de erro sem expulsão definitiva. Se isso é verdadeiro no campo etológico, o que ocorre quando o ambiente humano é estruturado para excluir.
II. Quando o sofrimento vira suspeita
Vivemos um tempo em que a dor é examinada sob lente desconfiada. A expressão pobreza performativa circula como se nomeasse fraude difusa, como se vulnerabilidade fosse cálculo estratégico. Forma-se uma cultura que transforma vítimas em rés.
Retomar Sigmund Freud é necessário. Em Studien über Hysterie e nas Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse, ele distingue ganho primário e ganho secundário da doença. O sintoma pode oferecer alívio psíquico e produzir vantagens externas, como cuidado ou suspensão de exigências.
Freud descreve economia psíquica, não formula teoria moral da pobreza. Reconhecer funções do sintoma não autoriza converter desigualdade material em escolha.
Com Neuza Santos Souza, em Tornar-se Negro, a chave se desloca. O sofrimento não é arranjo vantajoso, mas efeito de sociedade racializada que produz desqualificação sistemática. O silêncio pode ser mecanismo de sobrevivência diante da violência simbólica.
Lélia Gonzalez e bell hooks reforçam essa perspectiva. Sofrimento não é capital desejado. É produto de opressões interseccionais.
Na literatura de Clarice Lispector, sobretudo em A Hora da Estrela, Macabéa encarna pobreza que ultrapassa o econômico. Em A Paixão segundo G.H., o esvaziamento subjetivo desmonta ilusões de identidade. Não há cálculo, há confronto com o desamparo.
Pensar a função simbólica do sofrimento é tarefa legítima. Transformar miséria estrutural em performance é distorção ética.
III. Entre silêncios e direitos
Se pertencimento depende de mediação e sofrimento estrutural não pode ser tratado como encenação, políticas públicas deixam de ser concessão. Tornam-se condição de civilidade.
A internet pode ser descrita como floresta escura. Hiperconectados e desconfiados, transformamos a linguagem em território de cálculo. Escrevemos com códigos, antecipamos punições algorítmicas.
Se falar já é arriscado para sujeitos legitimados, o que ocorre quando essa exposição atravessa o corpo de uma mulher com deficiência, historicamente desacreditada. O silêncio deixa de ser escolha individual e se torna estratégia de sobrevivência.
Segundo o IBGE, o Brasil possui mais de 18 milhões de pessoas com deficiência. A presença nos espaços de decisão permanece reduzida. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Atlas da Violência indicam maior incidência de violência doméstica e sexual contra mulheres com deficiência.
Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Frantz Fanon demonstra que o corpo é previamente significado pela hierarquia social. A mulher com deficiência é frequentemente lida primeiro como deficiência.
Quando denuncia, é desacreditada. Quando reage, é patologizada. Quando silencia, confirma o estereótipo imposto.
A estrutura molda a interpretação da violência.
IV. Retormemos
Retomamos Punch como chave epistemológica. Entre primatas, pertencimento exige ambiente responsivo. Entre humanos, exige política pública.
O objeto transicional encontra seus equivalentes sociais em redes de proteção, formação docente, autonomia econômica e canais acessíveis de denúncia.
Sem mediação, há exclusão. Sem estrutura de proteção, há violência.
V. Educação Especial como política de mediação
Se pertencimento é construção relacional, no plano humano essa construção passa por dispositivos institucionais. Política pública é mediação organizada.
Como afirma bell hooks, a sala de aula permanece espaço de possibilidade. Possibilidade exige formação e compromisso ético.
Formar docentes de Educação Especial implica reconhecer sinais de abuso, estruturar protocolos de escuta, articular escola, assistência e saúde e garantir acessibilidade nos canais de denúncia.
Não basta matrícula. É preciso rede.
Equidade não significa tratar todos da mesma forma, mas reconhecer desigualdades históricas e agir deliberadamente para corrigi-las.
V. Fechamento ético
Após atravessar etologia, psicanálise, feminismo negro, literatura e políticas públicas, a escolha é civilizatória.
Pertencimento não é espontâneo. Sofrimento produzido por desigualdade não é encenação. Proteção não é favor.
Entre silêncios e direitos, não há neutralidade possível. Educação Especial não é território de piedade. É campo de justiça social.
Desacelerar para perceber as singularidades que a educação traduz é reconhecer que pertencimento é construção relacional sustentada por estruturas coletivamente produzidas.
메타데이터
- post_id
- 552f4989a686
- slug
- entre-abandono-e-estrutura-552f4989a686
- url
- https://medium.com/@sarawagneryork/entre-abandono-e-estrutura-552f4989a686
- canonical_url
- https://medium.com/@sarawagneryork/entre-abandono-e-estrutura-552f4989a686
- author_url
- https://medium.com/@sarawagneryork
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-17 08:20:12