O Maraca é nosso?
Os recentes protestos da torcida do Flamengo contra o preço dos ingressos revelam o processo de exclusão popular no Maracanã.
O Maraca é nosso?
Os recentes protestos da torcida do Flamengo contra o preço dos ingressos revelam o processo de exclusão popular no Maracanã.
Por Caio Blaudt
Torcida do Flamengo protesta, nas arquibancadas do Maracanã, contra preço dos ingressos carregando faixa com o escrito: “Ingresso Caro, Arquibancada Vazia” — Foto: Rodrigo Cerqueira/ge
“Ingresso caro, arquibancada vazia”. Foi assim que torcedores presentes no jogo entre Flamengo e Juventude, realizado no Maracanã, em abril de 2025, protestaram contra o preço dos ingressos, que dobraram naquela partida. Xingamentos ao presidente Bap e cantos de “Ô, baixa o ingresso” representaram o movimento da torcida contra o posicionamento da nova gestão do clube em relação à política de preços dos bilhetes. Neste ano, pelo mesmo motivo, as principais torcidas organizadas “boicotaram” a partida contra o Maricá, válida pela Taça Guanabara.
“Eu estava no jogo contra o Juventude, a torcida protestou mesmo. Levamos faixas e cantamos. Ingresso caro afasta muito os torcedores dos estádios”, relata Giovanna Alves, influenciadora digital e criadora de conteúdo para a torcida do Flamengo.
A partida contra a equipe do Juventude era válida pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro, foi realizada em uma quarta-feira, às 21h30, e levou ao Maracanã 31.445 torcedores, 15 mil abaixo da média da equipe como mandante na competição. Mesmo com horário pouco funcional, para grande parte dos torcedores, e contra um adversário de menor expressão, os ingressos variaram entre 80 e 500 reais. No início deste ano, quando questionado sobre o valor dos ingressos, o presidente rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, disse que para manter os custos do time atual é necessário manter os preços elevados. Fora a justificativa do presidente, a precificação atual dos ingressos remonta às reformas que transformaram o Maraca e a forma de torcer, além da exclusão da Nação Rubro-Negra das decisões do clube.
Assim nascem os gigantes
Em 1948, o maior estádio de futebol do planeta vivia o início de seu período embrionário. Nascido, em 1950, como Estádio Mendes de Moraes, logo foi apelidado como Maracanã — devido às aves que ali viviam, chamadas de Maracanã-guaçu — e ao Rio Maracanã, que cruza a Tijuca. Rebatizado e eternizado, em 1996, como Estádio Jornalista Mário Filho, o Templo do Futebol recebeu duas Finais de Copas do Mundo, Cerimônias de Jogos Olímpicos, foi abençoado pelo Papa João Paulo II e palco de shows de Frank Sinatra, Tina Turner, Kiss e até do Rock in Rio. O Brasil já havia lançado sua candidatura para receber a Copa Do Mundo de 1942, porém com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e seus terríveis desdobramentos, apenas em 1950 o País do Futebol recebeu a maior competição do esporte. Os dirigentes brasileiros prometeram, entre reformas e construção de estádios menores, o maior estádio do mundo para receber a finalíssima. Por outro lado, diferente do que foi construído como senso comum, o Maracanã não é apenas uma dádiva da Copa.
O esqueleto do Maracanã na época de sua construção. Reprodução: Estádio Maracanã
O esporte bretão já apresentava relevante crescimento de popularidade em terras brasileiras nas décadas de 1910, 1920 e 1930. Então, era necessário que houvesse um local a altura do crescimento de interesse pelo esporte. Anterior à Copa, a necessidade de um estádio de maior proporção já era uma demanda dos clubes do Rio de Janeiro. Após uma arquibancada de madeira do estádio do São Cristóvão ceder, deixando mais de 200 feridos, na final do Campeonato Carioca de 1943, vencida pelo Flamengo,ficou proíbida a realização de partidas em estádios com a mesma estrutura. Diversos estádios foram interditados e o São Januário ficou sobrecarregado. Em São Paulo, três anos antes (1940), havia sido inaugurado o Estádio do Pacaembu, com capacidade para 70 mil pessoas, o maior da América Latina naquele momento. Dentro desse cenário e com a pressão da imprensa, dos dirigentes e dos torcedores de futebol do Rio, o projeto do Maracanã foi idealizado.
“O Maracanã teve uma grande contribuição para o futebol carioca e foi resultado de uma pressão social pela construção de um estádio capaz de receber a multidão que se interessava por futebol”, diz Renato Coutinho, professor de História do Brasil Republicano da UFF e autor do livro Um Flamengo grande, um Brasil maior.
Um lar para a Nação
O estádio, de propriedade do Governo do Estado, servia a todos os clubes da capital, a seleção brasileira e, nos anos 60, até ao Santos de Pelé. Entre os quatro grandes do Rio, Flamengo, Fluminense e Botafogo foram os maiores agraciados com o palco monumental. Naquele momento, o São Januário já era a Casa do Vasco da Gama. O estádio do Flamengo, na Gávea, foi construído em 1938, para ser um grande estádio, porém não era suficiente para o momento em que o clube passava por intensa popularização. A falta de modernização e ampliação da arquibancada levou a Nação Rubro-Negra para um lar compatível com seu tamanho, o Maior do Mundo.
“Isso dificultou muito que a Gávea fosse o lugar capaz de receber torcedores do Flamengo. O Maracanã acabou cumprindo essa função. Sem dúvida nenhuma, ele está associado à consolidação da popularização do futebol na cidade do Rio de Janeiro”, ressalta o professor.
Torcedores do Flamengo levando a paixão ao limite, assistindo aos jogos da marquise do Maracanã. (Foto: Paulo Moreira/Agência O Globo)
Até os anos 1990, o Flamengo ainda mandava jogos menores na Gávea, de lá pra cá raros amistosos ocuparam o terreno da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Órfãos da Geral
Nos seus primeiros 55 anos de vida, o Maracanã teve um símbolo democrático: a geral. Separados do campo por um fosso estreito e no nível do gramado, gerações de torcedores presenciaram grandes espetáculos naquela área, sem separação de torcidas rivais e por um preço bem menor. Em 2005, os Geraldinos — nome que Nelson Rodrigues cunhou para torcedores que ocupavam aquele setor — foram expulsos de sua casa. Os grandes eventos esportivos do século XXI davam o pontapé inicial nas mudanças do Templo do Futebol. As reformas para o Pan-Americano de 2007 acabaram com o setor mais popular do estádio, já visando também se aproximar dos padrões da FIFA para a Copa do Mundo de 2014.
Geraldinos assistindo a vitória do Flamengo sobre o Vasco por 4 a 2 na decisão da Taça Guanabara de 1979. Reprodução: Custódio Coimbra, O GLOBO
As adequações para os dois eventos deram início a um processo de “arenização” do estádio, intensificado pela Olimpíada de 2016, que transformou os grandes palcos tradicionais em espaços multiuso, inspirados em arenas europeias. O objetivo era ofertar uma “experiência premium” para os visitantes e aumentar a receita. O Maracanã morria para seus filhos da geral, mas nascia para a modernidade. Bandeiras, apoio e relacionamento entre torcida e jogadores deram lugar ao celular, aos vídeos e à falta de atenção ao espetáculo.
Para Caio Belandi, roteirista, diretor e apresentador do podcast Lado B do Rio, as mudanças no estádio são reflexos de um novo tempo.“O estádio está diferente porque o mundo está diferente: a hiperconectividade, o celular, os passos acelerados, a ultraliberalização e o caráter consumista, a oferta quase infinita de entretenimentos, a violência cada vez mais normalizada. Tudo isso contribui, de alguma forma, para que se mude não só o jeito de torcer, mas a forma como vamos à praia, como almoçamos em um restaurante, como nos reunimos com nossos amigos no bar.”
Há, em meio ao imaginário dos torcedores, um crescente sentimento nostálgico com o antigo Maraca. Os grandes clássicos cariocas dos anos 1960, 70 e 80 e as apresentações da seleção brasileira que ainda detém recordes de público na história do futebol reforçam a ideia de grandeza, unicidade e pluralidade que não existe mais. As exigências da modernidade parecem ter acabado com o Templo do Futebol, mas permitem que outros grupos frequentem o local.
O Maracanã de hoje é mais seguro e confortável para as mulheres, como observa Giovanna Alves, que representa, com mais de 100 mil seguidores em suas redes sociais, a nova geração de torcedoras do Mengão.“Eu me sinto muito feliz de ter minha voz ouvida agora que estou me tornando conhecida pela torcida. Tenho mais de 10 anos de arquibancada. Quero crescer ainda mais para as pessoas verem o meu amor pelo Flamengo e para que eu possa ajudar o clube de alguma forma”, conclui a torcedora.
Dona Zica, torcedora ilustre do Flamengo. Presença certa no Maracanã desde os tempos de Geral. Reprodução: Fábio Caffé/ Favela em Foco
Onde estiver, estarei
O Maracanã diminuiu, modernizou e encareceu, mas não esvaziou, ao contrário, as médias de público melhoraram. É verdade os grandes jogos não levam mais 150 mil pessoas ao estádio, mas nos jogos menores o público se mantém. O que não se manteve foi a forte presença das massas, do povo, da Nação Rubro-Negra no entorno dos jogadores. A falta de representantes dos interesses dos torcedores do “povão”, que reflete o caráter popular e plural da maior torcida do mundo, nas cadeiras mais importantes do clube não é algo recente.
“O Flamengo é um clube gerido pela elite carioca desde sempre. A configuração política do clube sempre foi estritamente fechada, sem ferramentas de participação democrática. Desta forma, dá pra dizer que o clube institucionalmente opta pela exclusão das camadas populares nos ambientes de decisão desde sempre”, salienta o jornalista Caio Belandi.
Embora pareça impensável na atual configuração do Estádio, assim como se inspirou na “arenização” europeia, o Maracanã pode se utilizar de bons exemplos do velho continente, que transformaram áreas de estádios em setores populares. Locais sem assento permitem cobrar preços mais acessíveis e ainda recuperar o velho jeito de torcer. No Brasil, também há bons modelos: o Internacional de Porto Alegre separa parte da carga a preços simbólicos para pessoas que estejam em situação de vulnerabilidade econômica, utilizando bancos de dados dos beneficiários de programas sociais.
A reunião dos braços da Nação Rubro-Negra na partida contra o Barcelona de Guayaquil, no Maracanã, pela Libertadores 2020, no dia 11 de março, último jogo com a presença de público antes da Pandemia de COVID-19. Foto: Paula Reis / Flamengo
Caio Belandi, além de jornalista, é rubro-negro e defende que manter o Flamengo popular é um objetivo a ser conquistado coletivamente: “O torcedor precisa se organizar e lutar, por fora do sistema, para manter o Flamengo ainda um clube de massa, popular e plural. Essa conquista, assim como nenhuma outra conquista da classe trabalhadora, está dada definitivamente. Precisa ser cultivada dia a dia porque pode, sim, se perder”, reitera.
메타데이터
- post_id
- 554fbd6b42e3
- slug
- o-maraca-é-nosso-554fbd6b42e3
- url
- https://medium.com/@caioblaudt1412/o-maraca-%C3%A9-nosso-554fbd6b42e3
- canonical_url
- https://medium.com/@caioblaudt1412/o-maraca-%C3%A9-nosso-554fbd6b42e3
- author_url
- https://medium.com/@caioblaudt1412
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-31 03:35:43