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Krenak e Akira: Fins de Mundo.

Ailton Krenak nos convida a desconfiar da ideia de que o fim do mundo é um evento futuro, algo que ainda vai acontecer. Para ele — e para…

Marcus Araujo · 2025-11-21 04:17 · 3 claps · 2.6 min read
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Krenak e Akira: Fins de Mundo.

AKIRA — KATSUHIRO OTOMO

AKIRA — KATSUHIRO OTOMO

Ailton Krenak nos convida a desconfiar da ideia de que o fim do mundo é um evento futuro, algo que ainda vai acontecer. Para ele — e para tantos outros que já vivem nas margens desse mundo que insiste em se chamar "civilizado" — o fim já começou.

Não com estrondo, não com sirenes e grandes alertas. Mas aos poucos, em despejos silenciosos, rios que morrem, línguas que se apagam. É um fim que não chega de uma vez, mas que persiste, que se arrasta. E é exatamente isso que sinto enquanto leio Akira: Neo-Tóquio não é uma cidade que explodiu e acabou. É uma cidade que explodiu e continuou, vivendo nas próprias ruínas, como se tivesse esquecido que já morreu.

O que Krenak denuncia — e que o filme/Mangá torna visível de uma forma quase claustrofóbica — é a ideia de que podemos nos desenvolver infinitamente, que podemos crescer sem parar, sem olhar para trás, sem pedir licença ao chão que pisamos. Há uma arrogância nessa lógica, uma crença cega de que o progresso é neutro, inevitável, desejável. Mas em Akira, o progresso é uma cidade que pulsa em neon enquanto apodrece por dentro. As luzes são brilhantes, sim, mas iluminam becos onde jovens se matam, onde o Estado experimenta em crianças, onde ninguém se conhece mais. O laço entre as pessoas se desfaz. O laço com a Terra se perde. E no lugar disso, o que sobra? Velocidade. Violência. Solidão.

Krenak questiona essa fé que depositamos na tecnologia, na ciência, nos aparatos de controle. Como se bastasse ter a ferramenta certa, o método certo, a arma certa — e tudo se resolveria. Quem garantiu que a tecnologia liberta? Em Akira, são justamente os cientistas, os militares, os burocratas de jaleco branco que criam o horror. Eles pegam crianças — Tetsuo, Akira, os outros — e transformam suas vidas em laboratório. Tudo em nome de quê? A tal dita Segurança nacional e o querido do Antropoceno, Avanço científico. Controle do futuro. Mas o que produzem é apenas mais destruição, mais medo, mais corpos quebrados.

E aí chegamos em algo que Krenak não deixa passar: quem paga a conta? Sempre os mesmos. Os corpos que já estavam vulneráveis, os que já eram descartáveis antes mesmo do colapso oficial. Para os povos indígenas, para as populações negras, para quem vive nas periferias do mundo, o fim não é novidade. Eles conhecem essa sensação de estar sempre à beira, sempre ameaçado. Em Akira, são os jovens das gangues, os órfãos, as crianças mutantes trancadas em câmaras frias. São vidas tratadas como material de teste, como combustível para um sistema que já não funciona — mas que insiste e insiste.

Diante disso tudo, o que fazer? Krenak não propõe soluções fáceis, e Akira também não. Mas ambos sugerem algo radical: imaginar outros mundos. Não como escapismo, mas como sobrevivência. Krenak fala de "reencantamento", desse ato de sonhar que é também um ato político. Sonhar não é ingenuidade. É recusa. É a capacidade de olhar para a ruína e dizer: "não precisa ser assim". No final de Akira, quando tudo ** — quando Tetsuo se transforma em algo incompreensível e Kaneda precisa *** — há uma estranha sensação de recomeço. Como se, entre os escombros, algo novo pudesse nascer. Não um retorno ao que era, mas uma abertura para o que ainda não sabemos ser.

Talvez seja isso que Krenak e Akira têm a nos dizer: que o fim do mundo não é o fim da imaginação. Que mesmo nos piores cenários, quando tudo parece perdido, ainda podemos sonhar. E que esse gesto — pequeno, frágil, teimoso — pode ser a única coisa que realmente importa. Entre as ruínas, a gente não encontra respostas prontas. Mas encontra espaço. Espaço para outra coisa. Espaço para tentar mais uma vez.


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