“Loucure-se”
Entre aquilo que chamamos de loucura e aquilo que talvez seja apenas uma outra forma de existir.
“Loucure-se”
Entre aquilo que chamamos de loucura e aquilo que talvez seja apenas uma outra forma de existir.
A vida é chata. O mundo é chato. Na verdade, quase tudo é chato quando tentamos viver apenas para funcionar. Curar-se de quê? Se nem sempre estamos doentes.
Tem uma frase atribuída a Nise da Silveira que sempre me provoca: “Gente muito curada é gente chata”. Talvez porque exista uma diferença enorme entre ser saudável e ser domesticado.
Estar saudável não é concordar com tudo. Não é acordar todos os dias com um sorriso impecável e uma agenda perfeitamente organizada. Não é nunca sentir medo, dúvida ou vontade de fugir. Às vezes, chamamos de equilíbrio o que é apenas conformidade. E chamamos de maturidade o que, no fundo, é apenas cansaço.
E eu fico imaginando a vida das pessoas que dormem pensando no trabalho e trabalham pensando em dormir. Vivem esperando a sexta-feira, o feriado, a aposentadoria. Não conversam mais. Não se encontram mais. Não desejam mais, tampouco se apaixonam. E quanto ao sexo? Ninguém mais goza. Apenas transa. Como em quase tudo na vida, transformamos o encontro em performance. O desejo em obrigação. O prazer em resultado. Até a intimidade passou a obedecer a roteiros. Vivem de protocolos, padrões e repetições que, se interrompidos, parecem ameaçar toda a lógica de suas existências.
Há pessoas tão adaptadas à própria prisão que chamam as grades de equilíbrio. E eu me pergunto: quanto de lógica existe na minha própria vida? Nem durmo direito. As vezes, prefiro permanecer acordado para não perder o silêncio da noite. E sobre o silêncio, pasmem: ele é ensurdecedor.
É exatamente nele que as vozes que abafamos durante o dia finalmente encontram espaço para falar. O silêncio não é ausência de som, mas o espaço onde muitas vezes podemos existir. E poucas coisas assustam mais do que encontrar a si mesmo.
Já se imaginou deitado em uma rede, à beira-mar, em uma ilha qualquer, vivendo apenas do necessário? Sem relógios ditando horários. Sem notificações. Sem a urgência permanente de produzir ou performar. Não, né? Imaginei isso.
Eu quero correr dez quilômetros hoje. Amanhã mais dez. Depois outros dez. Quero sentir o corpo reclamar, os músculos arderem, o fôlego faltar. Quero chegar naquele ponto em que a mente pede para parar e o corpo responde que ainda consegue dar mais um passo. Porque existe uma pergunta que só aparece na exaustão: Valeu a pena? A resposta é sim. Porque viver não é conservar energia. É gastá-la em algo que faça sentido.
Se fosse apenas para parecer são, eu colocaria minha melhor gravata e meu paletó, um sorriso esplêndido, entraria no consultório e desempenharia perfeitamente o papel esperado de mim.
Mas que diferença isso faria? Todos os dias escuto histórias de pessoas que aprenderam a sobreviver tão bem que desaprenderam a viver. Cumpriram expectativas, seguiram roteiros, alcançaram objetivos. Ainda assim, carregam uma estranha sensação de vazio. Como se algo importante tivesse ficado para trás no caminho. E sabe o mais curioso? Quase sempre ficou. Quase sempre esse algo tem relação com aquilo que um dia desejaram ser antes de aprenderem quem deveriam ser.
Eu atenderia pessoas que chegaram acreditando que precisam se tornar normais, quando, na verdade, muitas delas estão tentando reencontrar justamente aquilo que perderam: sua singularidade, sua estranheza, sua própria medida de loucura.
Muitos querem mais da vida. Mas poucos estão dispostos a pagar o preço da liberdade. E o preço não é o sofrimento. É o autojulgamento. É enfrentar a voz que insiste em dizer quem deveríamos ser, como deveríamos amar, trabalhar, desejar e existir.
Foi exatamente isso que Dostoiévski percebeu ao criar o Grande Inquisidor. Diante da liberdade oferecida por Deus, ele responde que os homens preferem a segurança. Preferem que alguém lhes diga o que fazer, o que pensar e para onde ir. Porque a liberdade tem um custo que raramente mencionamos. Quando somos livres, já não podemos culpar ninguém pelas escolhas que fazemos. A liberdade devolve ao sujeito a autoria da própria vida. E isso, muitas vezes, pesa mais do que as correntes. A liberdade assusta. A loucura também assusta. Ambas têm algo em comum: exigem responsabilidade. E o mais engraçado é que passamos a vida inteira tentando escolher entre sermos loucos ou sermos curados, quando a questão nunca foi essa.
Um dia ouvi de uma mulher tão corajosa quanto especial uma única palavra: “Loucure-se.” Naquele momento, pensei que ela estivesse falando sobre romper limites, desafiar regras, abandonar certezas. Hoje sei que ela falava de outra coisa. Porque, depois de toda loucura que vale a pena ser vivida, sempre sobra alguma forma de cura. E depois de toda cura que vale a pena ser alcançada, sempre sobra alguma forma de loucura. Quem sabe esse seja o equilíbrio. Talvez até o que nos mantém vivos. Não a loucura que destrói. Nem a cura que paralisa. Mas esse espaço estranho entre uma e outra. Esse lugar onde ainda somos capazes de nos surpreender com a vida. Onde ainda podemos mudar de ideia, amar errado, recomeçar tarde, sonhar além da conta e rir das próprias desgraças.
E a pergunta que me atravessa agora é: existe mesmo alguma diferença tão grande entre uma coisa e outra? Não sei responder, mas, por enquanto, eu vou vivendo e tomando uma dose de loucura todos os dias, para curar a caretice de ser normal.
Dr. Ricardo Cerqueira Psicólogo, psicanalista e escritor
Escrevendo sobre o que a clínica revela e a vida insiste em esconder.
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