Rekhet: por que ele não serve como um conceito de filosofia africana?
Theóphile Obenga, em um importante texto introdutório sobre a filosofia em Kemet (Egito Antigo), defende que havia um termo que expressava…
Rekhet: por que ele não serve como um conceito de filosofia africana?
Theóphile Obenga, em um importante texto introdutório sobre a filosofia em Kemet (Egito Antigo), defende que havia um termo que expressava o pensamento filosófico no vale do rio Nilo. Esta palavra seria “Rekhet”, que significa “tomar conhecimento de”, “aprender”, “estar ciente de”. Obenga vai mais além e defende que este termo equivale a “filosofia” e “ciência”. Esta tese de Obenga tem sido amplamente aceita entre filósofos africanos aqui da diáspora quase como uma tábua de salvação no mar revolto de discussões sobre a filosofia ter origem grega, semítica ou kemética.
Neste ensaio, vou apresentar a tese de Obenga, como ela vem sendo utilizada e qual meu ponto de vista sobre a discussão. Eu concordo com a interpretação de rekhet usada por Obenga. Mas não acredito que ela signifique “filosofia” (mais rigorosamente, philosophía). Rekhet se mostrou um termo mais abrangente do que o significado de philosophía entre os gregos, assim como pouco se parece com a compreensão geral de filosofia empregada pelos europeus de hoje em dia. No fim das contas, essa tentativa de Obenga em apontar que havia algo equivalente à philosophía entre os africanos seria um interesse intelectual e humanista ou isso faz parte de mais uma forma de se integrar ao mundo ocidental e europeu através de algo nosso? Mais ao fim do texto, vou responder essa e outras questões que vão surgir ao longo do ensaio.
1. Rekhet, segundo Théophile Obenga.
Em seu artigo *Egito: História Antiga da Filosofia Africana, T. Obenga sustenta que existia filosofia em Kemet, assim como em outras partes do mundo. A noção de filosofia adotada trata da filosofia no sentido de “pensamento reflexivo sistemático sobre a vida”*, de Yu-Ian. Sendo assim, a filosofia deixaria de ser um conjunto de conceitos e teorias derivadas de um corpo de textos escritos entre os gregos antigos e passaria a ser uma atividade intelectual comum à humanidade.
Este ponto de partida dá a Obenga as condições de reivindicar que a filosofia não seja uma forma de pensamento exclusivo dos gregos, mas um “espírito” que africanos, maias, chineses entre outros desenvolveram. Disso, T. Obenga cria as condições para alargar a compreensão de filosofia e conseguir abranger as experiências de pensamento desenvolvidas em Kemet para atribuí-la uma qualidade filosófica.
A Filosofia é mais importante em sua função essencial do que em sua mera metodologia como uma investigação crítica ou analítica sobre a natureza das coisas. A noção básica de filosofia no antigo Egito referia-se precisamente à síntese de todo aprendizado e também à busca da sabedoria e da perfeição moral e espiritual. A filosofia nos tempos antigos do Egito faraônico era, então, uma espécie de de pedagogia que continha os sábios ensinos (sebayit) dos antigos sábios, que eram estudiosos, padres e oficiais ou estadistas ao mesmo tempo”
Obenga dá ênfase ao compromisso existencial entre o conhecimento adquirido com a sua prática, já em Kemet. O que torna a filosofia algo além de um mero ato reflexivo sistemático sobre a vida. O filósofo tem um compromisso ético com a comunidade e o mundo. Para isso, ela continha uma pedagogia própria que partia dos ensinamentos mais antigos para a sua aplicação na realidade presente do “filósofo egípcio” nas funções sociais dessa pessoa que tinha a obrigação de ser simultaneamente intelectual, sacerdote e governante.

Em seguida, Obenga traz o conceito de Rekh, verbo que significa “saber”, “estar ciente de” e “aprender”. Apesar da forma verbal, todos eles expressam uma condição já passada: estado de passagem da ignorância para o conhecimento de algo específico. O medu netcher (hieroglifo) que grafa o verbo consiste em uma boca sobre uma placenta e um papiro enrolado em um selo. Aqui, trata-se de um medu netcher ideograma, ou seja, que se utiliza de figuras concretas para expressar noções abstratas como “lealdade” e “amor”. Quando acrescentamos a figura de um homem sentado com a mão na boca, este medu netcher funciona sintAticamente como um determinativo, fazendo do que era verbo um substantivo. E qual substantivo? “Homem Sábio”. Disso, Obenga desenvolve:
Assim, o conceito de rekhet (escrito com o hieróglifo para noções abstratas) significa “conhecimento”, “ciência”, no sentido de filosofia, isto é, investigação sobre a natureza das coisas (khet) com base em conhecimento preciso (rekhet) e bom (nefer) julgamento (upi). A palavra upi significa “julgar”, “discernir”, isto é, “dissecar”. A palavra cognata upset significa “especificação”, “julgamento” e upset significa “especificar”, isto é, dar os detalhes de alguma coisa.
Aqui Obenga evolui a noção de filosofia que ele vinha trabalhando até então. Se, antes, ela se tratava de um pensamento sistemático sobre a vida e tinha uma conotação, digamos, mais existencial e ética, agora ela se amplia para um conhecimento da natureza, tendo implicação no conhecimento do ser humano sobre si mesmo. Este tipo de conhecimento da natureza e de nós mesmos é estruturado de de acordo com a precisão dada pelo bom julgamento. Julgamento, aqui, não se trata do valor que as coisas passam a ter, mas da análise de como elas são isoladamente e se relacionam entre si num contexto determinado. O que é reforçado quando ele traz “upset” para a explicação. Isso expressa um sentimento perante esse juízo é manifesto, já que o sufixo “-set” é representado na figura do homem sentado com a mão na boca, em silêncio. Desta forma, a compreensão de sabedoria expressa em Rekhet trata do seu comportamento determinado pela sua sabedoria.
Com isso, Obenga nos apresenta Rekhet como um conceito que expressa o ato de filosofar em Kemet e, mas determinado pelo contexto cultural no qual estava inserido. Se você se lembra bem, um dos critérios que ele apresentou foi a implicação prática na realidade. Ou seja, que o Rekh (sábio, que Obenga reivindica ser melhor lido como filósofo em Kemet) não é só um intelectual, como também educador, sacerdote e governante. Ou seja, um homem que buscou adquirir sabedoria para servir a sua nação. Isso fica explícito quando lemos os atributos de um Rekh:
[Ele é o único] cujo coração é informado sobre essas coisas que seriam de outra forma ignoradas, aquele que é perspicaz quando está profundamente envolvido em um problema, aquele que é moderado em suas ações que penetra escritos antigos, cujo conselho é [procurado] para desvendar complicações, que é realmente sábio, que instruiu seu próprio coração, que fica acordado à noite enquanto procura os caminhos certos, que supera o que ele realizou ontem, que é mais sábio que um sábio, que se trouxe para sabedoria, que pede conselhos e cuida para que lhe peçam conselhos. (Inscrição de Antef, XIIª Dinastia, 1991–1782 a.c.]).
Se a sabedoria de alguém se mede pelo que conhece e pratica, quem, se não alguém que ocupasse simultaneamente as funções de educar, instruir e governar poderia se qualificar como um sábio? E qual sabedoria outra poderia ser, senão o conhecimento aguçado do que há de mais elementar na composição dinâmica da natureza, assim como funcionam as relações humanas e suas instituições sociais?
Sendo alguém dotado dessa sabedoria, o Rekh se torna uma espécie de patrimônio espiritual da sua comunidade. Não apenas pelo que diz, mas principalmente pelo que faz e exemplifica na prática cotidiana. E nisso se firma sua autoridade para ser considerado sábio, para muito além de um mero teórico, cientista, estudioso ou curioso do conhecimento do mundo e da humanidade. O conhecimento é fundamental. Mas se ele só vira sabedoria quando se converte em prática.
Estas qualidades específicas do Rekh se manifestam quando o mesmo medu netcher que confere um caráter mais acabado ao homem sábio também é usado para escrever “prudência” e “sabedoria”. Sendo assim, Sayit pode significar tanto “prudente” quanto “sábio”. Desta forma, ambos são atributos do Rekh à medida que:
Sabedoria e prudência implicam o conhecimento (rekhet) e a consciência dos princípios da conduta moral e do comportamento sociável. O homem sábio (rekh ou sayi) agarra em sua mente com clareza e certeza o que é conhecido distintamente para ele.
A prudência do sábio, portanto, não se resumiria à cautela quanto ao pensamento e ao comportamento. Mas, principalmente, ao uso adequado do que é conhecido. Por isso, inclusive, o sayi também é o educador, sendo seu ensino (sebayit) o ato de “abrir a porta (seba) para a mente da pupila (sebaty), a fim de trazer luz, a partir de uma estrela (seba)” segundo métodos corretos (tep-heseb) em um lugar adequado, *na seba, casa de ensino.*
Com isso, Obenga nos apresenta as correlações conceituais e títulos sociais que a pessoa que se dedicava ao conhecimento profundo da realidade humana e do mundo tinha para a comunidade, de acordo com a cultura kemética. O que implicava, não só um desejo e interesse pelo conhecimento, como um compromisso para a sua aplicação nas questões da comunidade. O Rekh ou Sai eram figuras que acumulavam funções pedagógicas, sacerdotais e políticas em seu meio social e, por fim, precisavam responder a uma série de requisitos éticos, políticos e espirituais junto daqueles com quem ele dispunha a construir nação.
Mas, além disso, o filósofo deve buscar a sabedoria, isto é, o que é verdadeiro, correto e útil para a comunidade. Assim, para o antigo Egito, a filosofia implica a construção crítica do conhecimento, a penetração intelectual e a profundidade, mas também, e talvez acima de tudo, modéstia e moderação, humildade e desejo infinito de melhorar. Porém nada disso se realiza individualmente, sendo condição inegociável desenvolver todos esses atributos nos serviços do sábio à nação que pertence. E estas noções de sabedoria não são mais uma concepção válida para a filosofia, hoje.
2. Outras noções de Rekhet em Kemet Antigo.
Obenga fez contribuições significativas para a uma noção africana de pensamento filosófico quando resgatou o conceito de Rekhet. Mas, será que esta palavra consegue ser uma tradução ou precedente do que, entre os gregos e ocidentais, seria nomeado como philosophia (Φιλοσοφία)? Mais ainda, quando a gente analisa os significados de rekhet entre os keméticos e os compara com philosophía, essa tradução e comparação ainda se sustenta? Na minha opinião, não. E as razões são as seguintes.
Théophile Obenga resgata dois conceitos para demonstrar que havia uma atividade intelectual entre os keméticos equiparável à philosophía, em Kemet. Além de Rekh, ele resgata Sayi. Sendo uma “aprender”, “tomar conhecimento de algo”, “ser capaz de julgar bem sobre as coisas belas” e, a segunda, “saber”, no sentido de sabedoria, mesmo.
Lewis R. Gordon em seu Re-Imaginando Libertações dá eco a essa tese de Théophile Obenga e agrega ainda outras questões relacionadas aos termos Rekh e Sebyt. Tradiocionalmente, a palavra grega “philosophía” (filosofia) é a junção de duas palavras: “philos” e ”sophía”, ou seja, “amizade/amor” e ”sabedoria”. Sendo o seu significado amplamente aceito como “amor à sabedoria”. Gordon acrescenta que a segunda parte do termo, “sophía”, vem do kemético “sebyit”, o que abre uma outra dimensão de relação entre os termos kemético e grego:
Sophía’, geralmente traduzida como ‘sabedoria’, é originária da palavra africana em Mdw Ntr [medu netcher] sbyt [sebyit] (‘ensinamento sábio’). A palavra relacionada Sba [Sebá] (‘ensinar’ ou ‘ser sábio’) foi transformada por meio da tendência do idioma grego em traduzir o b do Mdw Ntr para um ph ou, em inglês, f (muito embora o [‘phi’] tenha uma pronúncia mais áspera). Nós precisamos ter em mente que as mais antigas línguas africanas têm muitas palavras formadas da raíz sa, da qual s(a)byt foi composta.
Quando Gordon acrescenta que sophía tem origem em sebyit, ele abre uma importante nuance nessa tentativa de Obenga em equivaler philosophía por sebyit e rekhet. Pois, enquanto a noção de sabedoria em Kemet diz que a pessoa detém e sabe das coisas pertinentes ao mundo e ao ser humano, a noção grega dissocia quem pensa do que é pensado. Se por cinismo ou humildade, o tal “amante da sabedoria” tem uma relação dissociada com o objeto e não comunga daquilo que tanto realiza enquanto pensa. Sendo assim, enquanto o Sebyit sabe, o philosophós apenas ama o saber.
Algo do tipo acontece em rekhet:
Existem outras palavras com raízes adicionais, como é o caso tanto de rekh (também escrita rx) como de rekhet (às vezes escrita como rxt — arbitrariamente tomado como “consciência”, “intuição”, “conhecimento da natureza das coisas”, “alguém sábio”), da qual temos palavras em inglês hoje em dia, a exemplo de ‘reckon’ [] e também o termo latino rex (que vem do infinitivo regere, “estar correto, guiar, liderar ou governar”).
Vamos com calma porque, nesse trecho, Gordon dá saltos em meio à síntese!
Basicamente, Gordon sinaliza que o termo kemético RX, rekh, que significa aquele que conhece e aquele que sabe, deu origem ao termo e latino rex e regere, respectivamente “rei” e “governar”. O que Gordon quer sugerir aqui é que o outro uso de Rekh na antiguidade kemética permaneceu entre os romanos.
**Rekhet** não era apenas um sábio, mas igualmente um sacerdote e governante. Na mesma pessoa, se concentrava as três funções. Não por concentração de poder no pique dos reis absolutistas e tiranos, como a mentalidade ocidental entende. Mas por compreender que todas elas são facetas da mesma função política e espiritual.
O que Rekhet ensina é que, na perspectiva africana, aquele que sabe, sabe para algum fim. Esse fim deve ser promover a vida da sua comunidade. E isso se manifesta na sua capacidade de zelar pela cultura e chefiar seu grupo a fim de mantê-lo íntegro e próspero. E não é essa a grande tarefa dos governantes? Rekhet entre os Keméticos, assim como o Ganga entre os kikongo e o Cheikh entre os wolof se trata de um chefe que educa, governa e espiritualiza o seu povo. Povo esse que pode ser da dimensão do clã familiar, uma aldeia ou uma grande nação.
Gordon vai além e mostra que o hieroglifo correspondente a Rekhet sugere que a atividade de sabedoria não é associado a uma função feminina.
A busca pelas fontes antigas iluminam uma outra consideração, se tivermos em mente que o povo de Kmt também usava a palavra rekhet no sentido de “conhecimento feminino”. O hieroglifo (mdw nTr) que significa rekh era uma boca, uma placenta e um papiro selado — tudo com um signifcado feminino. Portanto, sua conexão posterior com “Reis” se dá em função dos pressupostos de gênero das tranformações sociais romana a partir da antiguidade kemética. O poder do conhecimento, no final das contas, não era necessariamente masculino.
Medw Netcher (hieroglifos) podem funcionar como símbolos fonológicos ou ideogramas.

Sabe quando a gente vê aquele meme do Mussun respondendo como foi o ano que passou com a imagem do ator ‘Keanu Reeves”? Isso equivale ao uso fonológico dos Mdw nTr. Ou seja, se escreve a palavra através do som das coisas ilustradas. Mas os símbolos também podem servir para falar de coisas mais abstratas como amor e lealdade, daí se usa os símbolos segundo um determinativo para especificar em qual categoria se deve ler aqueles símbolos.
No caso de Rekh, o hieroglifo não se trata de um fonograma, mas de um ideograma. Sendo assim, ele não pretende indicar o significado pelo som dos símbolos, mas o que eles significam quando dispostos em conjunto.
A sacerdotisa é um determinativo para indicar palavra de cunho sagrado e formal. Mas a placenta, esta sim, tem grande relevância. Pois indica que se trata de um símbolo inequivocamente feminino quanto à função desempenhada. Sendo a própria Rekh, uma atividade espiritual e socialmente associada às mulheres.
Mas isso não é por acaso. Além de “quem detém o saber” e “conhecedor”, Rekht era a parteira do Kemet Antigo. Isso mesmo! A arte de trazer um bebê do útero da mãe ao seio da comunidade na hora do parto era desempenhada pela mesma pessoa que era considerada um chefe comunitário!
E o que isso nos revela? Que Rekhet se tratava de uma atividade com implicações práticas no mundo e conferia grande responsabilidade a quem a executasse. Fosse a vida biológica, fosse a vida política, fosse a vida espiritual, Rekh tinha um papel crucial na manutenção da civilização kemética. Pelas suas mãos vinha uma nova vida; pelas suas mãos essa vida era iniciada na cultura; das suas mãos ela seguia para trabalhar na comunidade.
Diante disso, será que Rekhet realmente pode ser designado como o equivalente kemético para o termo grego philosophía?
3. O Conceito de filosofia desde a Grécia Antiga.
Convencionalmente, o primeiro que cunhou o termo philosophía teria sido Pitágoras de Samos. Depois dele, outros pensadores se utilizaram da palavra. Mesmo na Grécia Antiga, o termo philosophía era controverso e não havia grandes consensos relacionados à definição de onde ela começa e quando terminaria.
Mas, em linhas gerais e, como já explicado acima, o termo “philosophia” é resultado da junção das palavras “philos”, que quer dizer amigo ou amante, com “sophía”, que significa “saber” ou “conhecimento”. Sendo a explicação mais difundida que “philosophía” significa alguém que tem amor ao conhecimento sem ser alguém que chame pra si a posse da sabedoria.
O filósofo vive na busca pelo conhecimento sem jamais alcançar e conquistar a sabedoria assim como o navegante que tenta chegar no limite do mundo perseguindo a linha do horizonte no oceano.
Entre os antigos, ainda é preciso destacar a anedota que Sócrates dizia que aprendeu filosofia com sua mãe, que era parteira. Sócrates, o mais emblemático dos filósofos gregos antigos, viajou para Kemet, estudou no Templo de Khemenu (Mênphis) e, de lá, trouxe consigo o que aprendeu entre os africanos. Nada escreveu, muito disse, muito embora seja dele a famosa frase “só sei que nada sei”. Que ele aprendeu quando estudou em Kemet.
Essa frase de Sócrates não manifesta humildade diante da vastidão do conhecimento. E sim seu cinismo. Muitos dos diálogos que retratam o que teria sido sua postura filosófica e relatos do que ele teria feito e dito em vida mostram um homem modesto que vivia de indagar e indagar até enlaçar aqueles que arrogavam um conhecimento.
Não se tratava de modéstia intelectual, mas de cinismo político! Sócrates não concluiu, assim como nenhum grego, os estudos em Kemet. Quando retornou para Athenas, um outro filósofo anterior a ele, Anaxágoras, já tinha sido condenado por introduzir cultura estrangeira (leia-se: kemética) na pólis grega. A melhor maneira dele botar seus conhecimentos na mesa sem se comprometer era buscando vias indiretas para isso. Sem dizer categoricamente como as coisas são, mas se utilizando de ironia e perguntas intermináveis para direcionar o interlocutor para as conclusões que ele considerava corretas, Sócrates conseguiu passar ileso à xenofobia ateniense. Mas não foi assim para sempre. Não tardou, foi condenado por corromper a juventude e introduzir novos deuses na cidade. Era o racismo ateniense impedindo que o conhecimento de kemet se criasse entre os helenos.
Só para não deixar dúvidas, Sócrates não deve ser visto por nós como um mártir, mas como um apropriador do conhecimento africano. Bem ou mal intencionado, ele foi condenado pela africanidade do conhecimento que tinha, e não por ser amiguinho, aliado ou gostar de Kemet. Aristóteles, que falarei daqui a pouco, admirava tanto os keméticos que os plagiou e tomou pra si os títulos pelo conhecimento roubado. Isso é análogo ao branco que vai fazer cultura preta na favela, ou acadêmico que cai fazer africologia no terreiro.
Um dos jovens que Sócrates corrompeu foi Platão. Sendo ele o seu mais propagandista dos seus discípulos. Platão também estudou em Kemet e, de lá, trouxe toda a cosmogonia menfita para fazer valer o conhecimento africano em solo grego. Provavelmente, a tara platônica por fazer do filósofo um governante venha muito mais dele ter aprendido que Rekhet não é só um “pensador profissional”, mas sobretudo um chefe político, cultural e espiritual do seu povo. Daí a gente compreende a importância de diálogos como “A República”, onde sua teoria do que seria um estado justo se baseia na ideia de que o filósofo, e não o político, deveria governar.
Além disso, a noção de philósopho como alguém que contempla, observa, admira sem jamais comungar, possuir ou se integrar à sabedoria tem sua formulação no diálogo “O Banquete”, também de Platão. Nela, entre todas as formas de amor, a que é considerada a mais elevada e exemplar é justamente a que aprecia a beleza do amante sem desejar possuí-lo, assim como o filósofo se relacionaria com a sabedoria. Se, com Sócrates, a philosophía é indagar até as últimas consequências, com Platão ela passa a ser uma descrição da sabedoria que jamais a toca.
Já com Aristóteles temos uma guinada da filosofia para aquilo que é mais amplamente ensinado nas escolas e escrito em qualquer manual. Uma das formas de definir a filosofia é que ela se trata de um conhecimento das causas, por pensamento racional e desvinculado da espiritualidade e que se debruça apenas sobre o que é experimentável em comum pelos que são compreendidos como seres dotados de razão. Digo assim dessa forma pois Aristóteles foi, sem sombra de dúvidas, o que abriu a caixa de pandora para o eurocentrismo que seria erguido séculos depois. Pois tudo o que ele escreveu sobre povos estrangeiros e, depois, sobre os gregos, foi tomando a cultura grega como a exemplar e todas as outras uma degeneradas. Mesmo a Kemética era mal vista por ele, basta olhar o que ele escreveu nos seus supostos livros “História dos Animais” e “Problemas”.
A clássica trinca grega determinou igualmente três características fundamentais da filosofia, mesmo para os dias de hoje. Sócrates trouxe o cinismo em não se comprometer com o que conhece para não responder perante a comunidade pelo que postula. Platão dissociou o pensamento do conhecimento e fez da filosofia uma atividade especulativa sem necessária implicação na realidade para ser considerada plena e legítima. Por fim, Aristóteles a tornou uma máquina de apropriação do conhecimento estrangeiro que, como resultado, gera a fantasia de superioridade racial pelo viés intelectual.

"O Legado Roubado" é um livro fundamental para entender os detalhes desse processo.
Quando a Europa e seus colonizados mundo afora tomam como base a philosophía de origem grega, conservação arábica, sincretismo teológico-cristão, apropriação renascentista e idealização germânica e racionalismo francês, o que estão comprando é um projeto de compreensão do mundo hipócrita, apartado e colonizador sobre o mundo. Não por acaso, os principais momentos de maior florescimento e resgate da “herança” greco-romana foi justamente nos momentos de maior ação colonialista dos europeus.
Quando Aristóteles foi resgatado na idade média, as cruzadas invadiram o oriente médio. Quando Platão foi resgatado no Renascimento, o colonialismo mercantilista invadiu as Américas. No Iluminismo, os principais filósofos que fermentariam as ideias das revoluções burguesas eram todos herdeiros de companhias de tráfico transatlântico, plantations, minas de exploração e ourivesaria de toda a riqueza gerada com o tráfico e a manufatura exploradora nas colônias americanas. Quando o idealismo alemão encampou as praças da Europa, o homem branco encontrou solo fértil para encampar de vez seu imperialismo na África e na Ásia. Não é de se surpreender que, desse processo, tenha saído a eugenia de Gabineau e o nazismo de Hitler. Ou vocês acham que as coisas não estão conectadas?
Não por acaso, Aimé Césaire foi certeiro quando disse:
“Sim, valería a pena estudar clinicamente, no pormenor, os itinerários de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês muito distinto, muito humanista, muito cristão do século XX que traz em si um Hitler que se ignora, que Hitler vive nele, que Hitler é o seu demônio, que se o vitupera é por falta de lógica, que, no fundo, o que não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os «coolies» da índia e os negros de África estavam subordinados.” (Aimé Césaire, "Discurso sobre o Colonialismo)

Aimé Césaire
Até mesmo o existencialismo e a biopolítica que eclode dos escombros das duas grandes guerras e o desmonte dos impérios coloniais no século XX, se a gente observar do nosso ponto de vista, não passam de tutela filosófica do subproduto colonial. Afinal, de Sartre a Foucault, o que mais vemos são brancos buscando tutelar nossa compreensão da opressão deles sobre nós graças à carência dos nossos intelectuais.
No continente, só pegar o exemplo de Achille Mbembe ao forjar o conceito de "necropolítica" como una criança que dá a mão a um branco europeu para pensar a opressão colonial como se faltasse repertório no pensamento e literatura africana pra isso. Mas, antes dele, vimos na diáspora Fanon cair nessa armadilha quando deu a introdução de “Peles Negras” para Sartre escrever.

Mbembe virou febre quando seu ensaio "Necropolítica" foi traduzido no Brasil. Mais por tomar tutela intelectual de Foucault, do que pelo apreço brasileiro à filosofia dos africanos.
Esse rasante na tradição europeia de filosofia, para a maioria dos tais doutores, mestres e bacharéis dos cursos universitários de filosofia vai parecer superficial, enviesado e tendencioso. Acho que, ao menos nisso, a gente vai concordar. Mas, diferentemente do que os que ainda alimentam algum rabo preso ou apreço aos seus certificados e diplomas, eu não tenho o mínimo compromisso em responder à tradição do pensamento ocidental. Não faltam tokens africanos e diaspóricos para isso.
O que quero é, por um lado, contribuir nas escavações do conhecimento africano segundo nossos próprios propósitos civilizatórios e contribuir no reerguimento da nossa autonomia intelectual enquanto povo. Sendo assim, nem mesmo os negros acadêmicos teriam muito espaço para “diálogo”, já que seu vínculo institucional faz deles nada mais que capitães-do-mato do projeto jesuíta da academia. Já, nas horas vagas, são verdadeiros traficantes da nossa cultura para os muros da universidade.
Mas, para o que quero defender nesse ensaio, vale observar como o conceito “philosophía” se modificou ao longo do tempo. Sobretudo a sua apropriação pelos europeus modernos, que forjaram ancestralidade na cultura greco-romana (mesmo sem a ter, genuinamente) para criar uma narrativa alternativa à origem civilizatória em Kush e Kemet.
O que é philosophía e o que se espera de um philósopho na tradição ocidental?
A philosophia passou por diversas compreensões ao longo do tempo. A gente pode dividir a evolução do termo em dois grandes momentos. Em um primeiro sentido que remonta à antiguidade nilótica e atribuía à sabedoria o domínio e aplicação de todas as áreas, disciplinas ou categorias do conhecimento que a cultura era capaz de produzir. Sendo assim, o sábio dominava os conhecimentos de agricultura e administração pública, de construção e artes, de religião e política, enfim, o sábio era versado em todos os saberes e conhecimentos da sua cultura.
Isso tem origem na antiguidade nilótica, mas os europeus modernos traçarão como algo próprio dos gregos adiante. Esse arquétipo de sábio, em geral, também arquitetava um sistema de conhecimento, que também vai ser chamado de sistema filosófico, no qual era capaz de explicar coerente e consistentemente os vários tópicos de metafísica, epistemologia, lógica, psicologia, ética, estética, política, física, astronomia, cosmogonia e etc. Claro que nem todo filósofo tinha um sistema, nem todo sistema conseguia responder essa amplitude de conhecimentos. Mas, onde ele não chegava sozinho, pegava emprestado da corrente na qual estava vinculado. De Kemet e Kush, passando por gregos, romanos, árabes e europeus medievais, esse era o paradigma de philosophia perseguido e, por alguns, bancado.
Onde tudo mudou?
Quando o europeu rodou o mundo atrás de tempero para comprar e carne negra para vender, descobriu que seu cabedal de sistemas, teses e philosophias eram lindérrimos na teoria, mas na prática servia muito pouco. Junte a isso o trauma espiritual que o cristianismo necessariamente o levaria a sentir, culminando no niilismo. Acrescente ainda o desencanto que a dissociação do mundo e da espiritualidade lhe causou arremessando-o no materialismo que só foi inflamado pela revolução industrial e desenvolvimento exponencial do capitalismo. Assim como peças de uma engrenagem que opera uma estrutura monumental que funciona sem um deus ou um fim além dele mesmo, o philósopho não precisa mais ter uma teoria (do grego theoreîn, que literalmente significa ‘visão de deus’). O philósopho se resume a um operador intelectual a forjar conceitos que são brinquedos de construção ou desconstrução de uma parede desse edifício-mundo.
Não por acaso, Deleuze vai definir a philosophía como “a arte de produzir conceitos”. O philósopho nesse novo sentido virou um power ranger que, para fazer frente a outros sistemas de pensamentos, junta o seu conceito com os conceitos de outros, monta um megazord conceitual e salva o dia da Alameda dos Anjos.
Acrescente a isso o fato de o desenvolvimento industrial demandar a seguimentação do conhecimento, gerando cada vez menos sábios e cada vez mais especialistas. Com isso, uma série de conhecimentos que estavam sob o guarda chuva da filosofia foi pouco a pouco se emancipando. É quando surgirá a sociologia, a antropologia, a história, a biologia, a química, a física, a astronomia, a geografia e por aí vai. E, dentro da própria filosofia, os tópicos viraram disciplinas, disciplinas que se converteram em campos de pesquisa.
No final das contas, toda esse esquartejamento da experiência de conhecimento no ocidente gerou uma nova classe de intelectuais que não tem compromisso em levar sua sabedoria como modo de vida. Desde então, filósofos, cientistas, técnicos e artistas não passam de profissionais que usam de sua atividade como meio de vida. Com isso, a sabedoria deixou de ser a conjunção de vida e conhecimento para se tornar erudição gratuita. Não ao acaso a filosofia ocidental patina aí há já algumas décadas e tem buscado cada vez mais alguma sobrevida pelo diálogo com as filosofias de outras culturas ou outros campos de saberes, já que ela está saturada em si mesma.
Ter isto em mente é importante para entender em qual cenário a filosofia africana está tentando emplacar igualdade com a europeia. Pois os filósofos africanos da diáspora e do continente que estão hoje em dia nos departamentos da África, Europa e Américas estão buscando a todo custo demonstrar por A mais B que a filosofia africana — seja lá o que se considere filosofia africana — é tão importante e legítima que a europeia. Por outro lado, apesar da ampla resistência por esse bem civilizatório tão precioso para os europeus, muitos deles já entenderam que é na apropriação da sabedoria desenvolvida em outras culturas que a europeia sairá do atoleiro que se encontra. O resultado? É o casamento da fome com a vontade de comer.
Mas essas são considerações sobre a “política do conhecimento” que está por trás de todas essas iniciativas. Gostaria de voltar a discutir, comparando de maneira mais sistemática, os conceitos de rekhet e philosophía para ver se você não há de concordar comigo que a tentativa de tratá-las como equivalentes não cabe, sendo inclusive um demérito para o termo kemético.
4. Por quê “philosophía” não é um termo que traduz “rekhet” adequadamente?
Só para a gente ter em mente quais as premissas do meu argumento, me deixe lembrar rapidamente alguns pontos que já vimos no ensaio. O primeiro deles, é que em kemético há dois termos relacionados ao conhecimento: rekh e sebat. Rekh significa “tomar conhecimento de”, “aprender algo”, enquanto sebat significaria saber; sendo rekhet e sebaty os respectivos conhecedor e sábio.
De sebat em kemético, veio o termo grego sophós, que também significa sábio. E esse foi o termo raiz usado pelos gregos antigos para designar o que fazim: philosophía, ou seja, amor à sabedoria. E também vimos que esse detalhe faz toda a diferença em como gregos e keméticos entendiam sua relação com a sabedoria. Enquanto os keméticos sabem, os gregos cinicamente fingem jamais saberem.
Já Rekhet terá outro caminho, o latino-romano. Se em Kemet, Rekhet era não apenas o sábio, como também aquele capaz de chefiar sua comunidade, o romano se apropriará disso para dar origem ao seu Rex, o Rei. Sendo assim, a sabedoria das coisas espirituais e naturais, da organização social e do espírito humano que o Rekhet detinha se resumirá ao poder de governo sem necessariamente haver o atributo de sabedoria, junto ao Rex-Rei europeu.
Tendo essas premissas em mente, não fica difícil entender por quê tomar *rekh ou sebat* como os termos equivalentes ao philosophía (sabedoria/pensamento, em grego) e sapere (saber, em latim). Enquanto os termos kemético não se refere apenas a uma atividade meramente especulativa, teórica e intelectual, mas com implicações políticas e, mesmo, espirituais. O emprego greco-latino se apropriará de uma fração da ampla gama de significados africanos para exercê-la apenas parcialmente. No caso grego, apenas o significado intelectual, enquanto no caso latino, o político. Nem em um caso nem em outro, há uma demanda de implicação espiritual mais profunda, conjugando a atividade rekhetica ou sebática, por assim dizer, ao filosofar e reinar.
Isso, naturalmente, é uma generalização que observa como os processos se deram no fim das contas. Houve experiências de philósophos que tentaram ser chefes de suas comunidades, assim como reis que tentaram conjugar a sabedoria da cultura e responsabilidade espiritual, naturalmente. Usar essas excessões para invalidar a regra geral, acaba sendo o mesmo tipo de malcaratismo em jogo quando brancos usam um ou dois pretos em seus espaços para dizer que não são racistas. E, quando olhamos o saldo final da história ocidental, qual é o resultado que observamos?
No final das contas, quando observamos a relação entre esses conceitos, o que a gente verifica? Em primeiro lugar, que a noção kemética de conhecimento e sabedoria é muito mais ampla, com implicações mais profundas e complexas, do que o que seus supostos correlatos europeus viriam a ter. E, fazendo meio que um exercício de pensar em termos de conjuntos, dá pra perceber que philosophía e sapere são meio que uma fração, uma parte, contida em um conjunto mais amplo de significados que sebat e rekhet contém. Vou mais além e digo o seguinte: na medida que os termos ocidentais são uma parte da noção africana, os termos greco-latinos são uma degeneração do conceito kushito-kemético! Diante disso, eu lhe pergunto, porque vamos equiparar algo nosso que é superior a uma forma degenerada do europeu?
Qualquer pessoa que se informe sobre esses conceitos, consegue perceber essas diferenças e nuances. Certamente você deve ser alguém que não passou por uma faculdade de filosofia, nem sabe kemético, grego ou latim para entender como os conceitos e seus derivados se comportam. Nem mesmo precisaria passar por uma universidade para entender algo tão simples, correto?
Eu acho, então, muito curioso ver que nossos supostos doutores em filosofia africana foram incapazes de observar uma diferença tão evidente e tomar a equivalência entre os desiguais como certo. Foi o caso, por exemplo, de Renato Noguera, que toma a tese de Obenga como premissa para defender a origem africana da filosofia ocidental. No seu artigo base para esse tipo de proposta, ao disputar a certidão de nasciento da filosofia, Noguera se apoia em Obenga para reivindicar rekhet como a palavra kemética para a philosophia.
Uma distinção importante é que Mdw nTr, nome da escrita do Kmt (Kemet), significa palavra ou falar de nTr [deus]. Enquanto mdt nfr quer dizer paalvra bem feita e remete à rekhet. O que denominamos de filosofia não se restringe ao nome grego, afinal, entendemos que um nome não esgota uma atividade intelectual ampla como a filosofia. Obenga explica que no Egito antigo existia um termo que circunscrevia a filosofia, sabedoria e ciência: rekhet. No caso da filosofia, o termo remete à ideia de met nfr que podemos traduzir como palavra bem feita ou palavra bonita, fala bem esculpida e cuidadosamente talhada.
Noguera parte da escavação filosófica de Obenga para concluir que rekhet é o termo equivalente em kemet antigo para philosophía. Mesmo que, curiosamente, reconheça que a comprensão do termo kemético é mais ampla do que a grega. É como se reconhecesse que temos algo mais rico e consistente mas, para mostrar o valor dele a todo custo, o diminui para caber na medida do outro.
Na realidade, os europeus que deveriam se esforçar em demonstrar que philosophía equivale a rekhet, já que vieram mais de 2 mil anos depois! Mas, como a intelectualidade é um terreno de disputa política assim como qualquer outro e este campo tem o racismo como jogo, os negros e africanos que buscam se integrar e se assimilar ao mundo branco são capazes de esquartejar nossa cultura para servi-la de suvenir à cultura do branco.
Seguindo e repetindo Noguera, tem a Katiúscia Ribeiro, que avança na leitura do conceito e chama a atenção para a distinção que manifestei acima entre philosophía e rekhet e sua falsa equivalência conceitual.
Com base nisso, poderíamos pensar simplesmente que o conceito de rekhet seria o equivalente ao termo filosofia. Porém, há uma diferença particular — pois, além de ser uma palavra e conceito africano, do antigo Kemet, é carregada de uma profundidade conceitual que ultrapassa como procuramos demonstrar, a concepção que temos de filosofia. Normalmente, somos ensinandos que a filosofia além de ser uma palavra grega é uma prática exclusiva de um povo que se tem como superiores, em sentido civilizacional, por desenvolverem um tipo de pensamento centrado na razão, que, resumidamente, do grego logos, significaria um princípio de inteligiblidade, cuja marca seria a prática de um tipo investigovativo, teórico e crítico, sistemático e organizado.
Mas, ao invés de fazer da falsa equivalência um degrau para livrar a intelectualidade africana e negra de conceitos ocidentais e brancos, ela procura salvar o termo grego argumentando que ele mantém o espírito kemético:
Segundo Obenga, o conceito de filosofia para os gregos ultrapassava o aspecto puramente mental e, ou, investigativo: ‘ Filosofar não era apenas especular sobre a vida e refletir sobre a natureza, mas também estar envolvido com amor, inteso desejo e forte entusasmo na investigação de causas sbjacentes à realidade, a fim de construir um sistema de valores pelos quais a socidade possa viver.’ Portanto, conforme o autor, filosofoar envolvia aspectos emocionais: amor, desejo, entusiasmo, como elementos essenciais à formação e consitutição de valores sociais.
Ao invés de Katiúscia Ribeiro usar essa distinção para derrubar de vez a autoridade que philosophía, politicamente usada como instrumento de poder ocidental sobre as outras culturas, ela prefere salvar o conceito grego empregando a ele uma noção romantizada que sequer os filósofos brancos e europeus sustentam, mais, hoje em dia.
Curiosamente, a filósofa que propagandeou o conceito de epistemicídio para denunciar o racismo contra as formas de saber e conhecimento africano e negro, se utiliza da autoridade de Obenga e destreza com as palavras para enganar o leitor passando pano no conceito grego. Diante da chance de derrubar um dos conceitos mais caros ao ocidente, prefere maquiar o que não pode ser retocado e mostrar que os termos grego e kemético não são equivalentes, porém conciliáveis.
Mas isso não é de se surpreender, vindo de Théophile Obenga, Renato Noguera e Katiúscia Ribeiro, já que estamos falando de intelectuais que se utilizamos do combate ao racismo dentro dos muros da academia ocidental a fim como caminho de integração cultural. E, com isso, chegamos a nosso último ponto, que eu gostaria de discutir neste ensaio.
5. Precisamos de um termo africano equivalente à philosophía para nomear o pensamento negro?

Há uma ampla discussão entre africanos do continente e da diáspora, de um lado, e europeus e seus descendentes, de outro, sobre a existência ou não da filosofia africana. A discussão é extensa, com vários pontos defendendo ou negando, além de considerações que procuram conciliar os dois lados da disputa. O resgate dos conceitos de Rekhet e Sebat como um conceito kemético para philosophía está inserido nesse contexto, onde estão todos tentando provar por A mais B que “existe filosofia africana”, já que ela “tem origem em Kemet”, que “Kemet é africano” e que é possível, inclusive, mencionar os termos que evidenciam isso.
O meu ponto não é tanto se existe ou não existe filosofia africana, mas analisar algumas considerações do que está em jogo nesse debate, como um todo. Pois aqui não é mais um terreno estritamente filosófico ou conceitual. Mas político. E a política é movida por interesses. E são esses interesses que vou dar essa última analisada.

PROFESSOR THÉOPHILLE OBENGA
Theóphile Obenga tem incontáveis contribuições para a contrução do conhecimento sobre a cultura africana. Seu legado é inegável, assim como de outras grandes figuras, como Cheikh Anta Diop e Hampate Bâ. Entretanto, vamos ser sinceros em reconhecer que todos esses intelectuais empreenderam grande parte do seu trabalho para combater os estereótipos e racismos que o colonialismo europeu criou sobre a África.
Combater essas representações racistas e estereótipos sobre a imagem e a humanidade africana é algo louvável. Ninguém precisa de um amplo repertório político ou racial para saber que o racismo dá as condições para os africanos e seus descendentes serem desrespeitados, humilhados e violentados a todo instante dentro e fora do continente africano. Positivar nossa imagem, restaurar nossa dignidade segundo os nossos parâmetros culturais e civilizatórios são condições necessárias para restaurarmos nossa autonomia, prosperidade e vida enquanto povo.
Já do lado de cá na diáspora, seja nas Américas ou até mesmo na Europa, o que vemos são os descendentes de africanos fazerem um trabalho análogo. Após séculos sob o regime da escravatura e, mediante muito sangue e luta, conquistada (ainda que precariamente) o fim do tráfico de escravizados e a abolição da escravatura, nós, descendentes de africanos procuramos restaurar a nossa dignidade humana roubada combatendo as incontáveis formas de racismos ligados ao nosso povo.
Acontece que, apesar de todos partirem do pressuposto de que o racismo é o maior impecilho da nossa felicidade individual e coletiva, enquanto pessoas africanas, nem todas as respostas são efetivas para isso. E, por esse motivo, embora várias iniciativas para combater toda forma de racismo contra nós em alguma medida toque nesse ponto, muitas delas acabam sendo um tiro que sai pela culatra e acaba reforçando esses mesmos estereótipos e racismos, deixando como resultado só o aumento do desdém dos brancos pelos que seriam considerados os mais avançados entre nós.
E daí que eu evoco Malcolm X pra dar a chave do ponto que quero tocar nessa discussão toda, quando ele diz:
Muitos negros da chamada classe superior estão tão convencidos em impressionar os brancos, mostrando que são “diferentes” dos outros, que não percebem que estão ajudando o homem branco a manter sua opinião desdenhosa a respeito de todos os negros.
— Malcolm X
O racismo, de maneira mais ampla, se sustenta basicamente sobre dois pilares: a superioridade do homem branco ocidental e seus colonos mundo afora e a convicção de que essa superioridade lhe dá o direito de dominar todos os outros povos, mediante violência mais ou menos explícita. Quando a gente tenta combater o racismo em seus dois pilares defendendo e demonstrando que tudo aquilo que o homem branco estabeleceu como diferencial da sua cultura para legitimar sua superioridade sobre as outras culturas também são encontradas em todas as outras culturas, o que estamos fazendo é dando o poder de referência cultural ao ocidente. Ou seja, estamos reafirmando a superioridade civlizatória do branco, tentando alargar sua universalidade até chegar em nossos territórios culturais.
No caso da filosofia, ninguém em sã consciência e minimamente livre das ideologias coloniais europeias negará que o pensamento que procura conhecer como é a realidade e especulasse sobre a origem e finalidade das coisas seja exclusividade de uma península pseudo-continental chamada Europa! Por outro lado, se do ponto de vista conceitual já é estranho resumir a complexidade, amplitude e implicações que os conceitos de rekhet e sebat tem para equipará-los às de sapere e philosophía, quem dirá do ponto de vista político. Pois você há de concordar comigo que não é o filho que dá nome ao pai, assim como não é o cidadão que dá nome à nação. A parte não define o todo, nem o produto quem faz o criador.
Pegando ali o papo do Malcolm X, quando tentamos a todo custo pegar todo o pensamento, conhecimento e saber africano e tentamos mostrá-lo como de igual valor aos seus correspondentes brancos, nós não estamos buscando valorizar nossos bens segundo nossos próprios termos, mas segundo os termos do nosso opressor. Valor estrangeiro esse que jamais conseguirá abarcar a dimensão que nossos bens culturais, espirituais e materiais têm para nós mesmos. Nessa de ir com tudo mostrar para os brancos o que temos de precioso, nada mais estamos fazendo do que vender o que temos de valioso para quem só sabe olhar para nós como animais, instrumentos de violência ou trabalho e commodities para seus lucros.
E tudo isso para que? Para tentar “superar o racismo” tentando “mostrar nosso valor” para quem jamais nos verá com nosso valor sem, antes, a gente mesmo se enxergar com ele. Todas essas tentativas de legitimar a “filosofia africana”, o “teatro africano”, a “música africana”, a “religião africana”, a “astronomia africana” e por aí vai, continua colocando os africanos e negros como um apêndice cultural do ocidente branco. E quer ver só, como isso se manifesta na prática?
Eu desafio vocês a observarem quem são os interlocutores desses nossos ilustres “da classe superior” que estão lutando com tanto afinco em vender nossa cultura com a mesma cotação que a eurpeia e branca na bolsa de valores dos universalismos ocidentais! Eu desafio vocês a observarem para quem esse pessoal fala, com quem andam e de quem recebem seu ganha pão! Quando não são diretamente os brancos, procuram os negros mais assimilados para colar e fazer de maquiagem. Quando não espaços brancos, os espaços mais embranquecidos possíveis para montar sua imagem de “negritude” e “africanidade”.
Observem um outro detalhe, também, e agora falo especificamente dos chamados “filósofos negros”, eles trabalham para quais instituições? Quais as organizações que financiam seus estudos e lhe dão mesa para palestrar? Pois, assim como roupas de tecido angolano não faz de alguém automaticamente negro, “teorias” e “conceitos” do continente não torna ninguém africano!
Por fim, queria que vocês prestassem a atenção no seguinte: se a própria noção de rekhet implica no vínculo do pensador a uma comunidade organizada, tendo em vista todo o contexto sócio-político-acadêmico dos nossos filósofos, a quem eles estão servindo e chefiando? Quem lhes consulta? Quem lhes dá cargo de “chefia”? Quem lhes confere autoridade intelectual, política e espiritual? Para atender a quais fins?
Em última análise, o interesse político por trás de toda essa disputa em torno do filosofia, é integrar à África e tudo o que está material e simbolicamente associado a ela ao projeto civilizatório branco e ocidental. Nesse projeto, vem associada o chinelo velho para o pé cansado. Pois todo negro integracionista que vive de entregar nossa cultura vive de encontrar um branco doido para se apropriar dela e dar sobrevida à sua ocidental que, se dependesse dela mesma, já teria ido de vez à ruína. Todo intelectual negro tem como principais parceiros um branco decolonial para chamar de aliado. Mas deveríamos chamar de comparsa, já que tudo o que fazem é formação de quadrilha num grande esquema de tráfico cultural até hoje em dia!
Muito obrigado pela sua leitura até aqui! Eu sei que o texto é enorme, ainda mais para os padrões de hoje em dia. Mas, como já propus, é um ensaio e, como tal, não obedece a dimensões instagramáveis. Eu espero que o tempo e atenção dedicado à leitura tenha lhe enriquecido de conhecimento, alargado sua compreensão da questão e lhe instigado a continuar comigo nessas águas turvas do resgate, reconstrução e edificação de saberes nossos, voltados para o nosso povo!
Por fim, gostaria de lhe convidar a comentar abaixo o que você achou das discussões que trouxe neste ensaio para que a gente possa dar continuidade a esse debate e tudo o que está em torno dele. Aproveita, também, para compartilhar com amigos e contatos (pretos! Faz favor!), assim você contribui para a continuidade do nosso trabalho e também estimula que outras pessoas acessem essas discussões que, apesar de importantes, ficam circunscritas a uma bolha pouco interessada em nosso povo!
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