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Aturdido pelo alheio

O problema não é seguir pessoas inspiradoras. O problema é tentar se tornar todas elas ao mesmo tempo.

José Vicente Neto · 2026-08-09 18:22 · 2 claps · 5.1 min read
#atenção #comparação #suficiência #influencia #limites
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Um cara comum olhando para todas as suas vidas potenciais.

Um cara comum olhando para todas as suas vidas potenciais.

Aturdido pelo alheio

O problema não é seguir pessoas inspiradoras. O problema é tentar se tornar todas elas ao mesmo tempo.

Como um ciclista que segue tranquilamente pela orla da praia, você navega na moderna sociedade das mídias, sem se dar conta de que um ônibus desgovernado vem descendo a ladeira e vai te arrebentar. Você é atingido todos os dias, atordoado, e nem se dá conta do que aconteceu. Você foi aturdido pelo alheio.

Aturdido pelo alheio

Aturdido significa “com a mente ou os sentidos perturbados; atordoado, desnorteado, tonto.

Alheio é “que é de outrem ou lhe diz respeito.

Foi assim que me senti dias atrás, aturdido. Muitas vezes tenho dificuldades para nomear sentimentos e emoções, e tenho percebido ao longo do tempo que não sou só eu, mas dessa vez consegui nomear o sentimento apropriadamente.

Era sábado de manhã, entrei na cozinha para começar a preparar o café com minha esposa, e a cabeça a milhão, com uma coceira atrás da orelha, uma pulga que não saía dali. Então me perguntei: ”por que estou pilhado desse jeito?” E então me deu um estalo: estou sobrecarregado com inputs de todo lado — isso muita gente já sabe, somos constantemente inundados por informações que nossos cérebros não são capazes de processar na mesma velocidade em que a máquina produz.

Mas meus olhos se abriram para outro aspecto: o ideal formado pelo conjunto das opiniões daqueles a quem sigo é muito maior do que eu sou e do que jamais serei.

Vou explicar.

A voz de uma multidão

Como a maioria dos jovens (né?), eu sigo pessoas que falam ou postam sobre os assuntos que me interessam, evito gastar meu tempo com trivialidades, mas gosto de manter minha mente aberta para receber inputs de pessoas que falam sobre o que gosto de falar. O problema é que o volume de pessoas que fala, nestes dias, aumentou, e cada uma vai trazendo aspectos sobre um mesmo assunto, que resulta em minha mente (e talvez na sua também) num ideal inatingível.

A soma de todas essas sugestões constrói em minha mente que:

O homem de sucesso hoje é casado, com filhos, faixa preta de jiu-jitsu e ensina os filhos a se defender, ser disciplinados, respeitar o próximo; também é pai de filhas, pai-de-menina, ensina como uma mulher deve ser amada e que ela é valiosa, para vagabundo nenhum maltratá-la; ele também é homem de negócios, empreendedor, já iniciou empresas e vendeu, agora é investidor anjo, e tem tempo para os filhos no fim do dia; ele também pega onda com as crianças no pôr do sol, todo dia. Seus filhos nunca terão traumas. Contas pagas, vivem abaixo do orçamento familiar, têm reserva de emergência e investimentos diversificados para não ficar com todos os ovos num cesto só; já está com a aposentadoria antecipada engatilhada, ele também joga futebol com os amigos, faz churrasco com a rapaziada, faz trilha nos finais de semana, pedala 80km 2x na semana, corre uma maratona cada mês e todo ano completa um ironman; a esposa é incrível também, mãe de 5 filhos, corpo perfeito, cabelo impecável, pele impressionante, cuida da casa e das crianças, mas também é empresária, influencer e está escrevendo um livro; eles moram no campo mas têm vida ativa na cidade; várias fotos em NY.

Cansei só de escrever.. hahaha.

Quem é que consegue atingir uma descrição dessas? Ninguém!

Mesmo se você reduzir a exposição a um único tema, que seja investimentos, por exemplo, haverá uma enormidade de conselhos e sugestões que estabelecem uma barra altíssima a se atingir, um standard que provavelmente leva uma vida inteira para sequer experimentar.

É evidente que nenhuma pessoa no mundo pode “ser” tantas pessoas ao mesmo tempo, não dá para atingir, nem sequer manter, um padrão como esse, inclusive porque muitas dessas atividades são concorrentes entre si.

Uma realidade desta geração pós-internet

Apesar de vários coaches modernos anunciarem por aí que é factível tornar-se este superman, isso não é possível — mesmo que você acredite muito que sim. E é aqui que está o problema. Esse modelo superinflado fica registrado no nosso subconsciente quando somos expostos a tal variedade e diversidade de padrões.

As gerações passadas não tinham que lidar com essa inundação de vidas potencialmente vivíveis.

É interessante como meu avô, pai do meu pai, passou 31 anos no Exército sem sequer pensar em sair dali, sem cogitar viver outra vida que não fosse a de um militar. Minha avó igual, mãe da minha mãe, trabalhou na educação como professora, coordenadora e diretora por mais de 30 anos; ela nunca pensou em fazer algo diferente, ainda que tenha trabalhado no Estado e em escolas particulares ao longo da carreira.

Nenhum dos dois pensava em aposentadoria antecipada, em estar financeiramente independente e estável aos 40 anos. Eles, de fato, se aposentaram por volta dos 50, mas depois de 30 anos de trabalho suado, não após terem feito investimentos impressionantes na casa dos 20/30 ou empreendido em algo disruptivo.

Numa conversa recente com a vovó, perguntei se ela não teve desejo de voar voos altos durante a carreira, e ela comentou que quando era coordenadora de Ensino Médio numa escola particular em Campo Grande, lhe ofereceram uma posição de diretoria na fundação Bradesco, mas teria que ir para outra cidade, sem os filhos. Financeiramente era muito bom, mas ficar longe dos filhos pesou muito para ela, então preferiu ficar.

Como a maioria das coisas não são, em sua totalidade más ou boas, mas contém positivos e negativos, viver na era da informação democratiza o acesso ao conhecimento, dando oportunidade a gente que em outros tempos jamais teria como mudar de vida pelo estudo, ao mesmo tempo afoga a todos nós com um volume de informações que somos, talvez fisiologicamente, incapazes de processar.

Nós estamos tentando nos tornar vinte pessoas diferentes simultaneamente; o que é impossível.

O que fazer então?

O que vem funcionando para mim, o caminho para a minha sanidade mental, tem estado em reduzir a quantidade de estímulos, silenciar a voz das influências, mesmo das boas, ou seja deixar de consumir tanto e de tantas pessoas diferentes, parar de consumir desesperadamente.

E não falo apenas de redes sociais. Algo que está me ajudando fora do digital é reduzir a quantidade de livros que leio ao mesmo tempo. Eu costumava levar a leitura de algo em torno de 6 livros simultaneamente, e tenho me esforçado para manter apenas três. E por que três em vez de seis? Para manter apenas um livro por área de interesse: um para desenvolvimento profissional, outro de desenvolvimento pessoal, e um terceiro para diversão.

Provavelmente o mais importante:

Viver vida na vida, que não é nada mais que viver relacionamentos reais, não virtuais, é um remédio tão antigo quanto a humanidade, mas muito efetivo.

Outra coisa é lembrar-se constantemente que na mesma época em que os Beatles e os Rolling Stones se tornaram referências mundiais do Rock, havia muitíssimas outras bandas tão competentes, quiçá até mais, que não atingiram sucesso internacional, nacional, ou sequer municipal.

Há uma frase de Leonard Mlodinow no capítulo 11 do livro O Andar do Bêbado que diz: “A linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica”. Nós temos a tendência de supervalorizar quem é rico ou famoso, atribuindo autoridade a essas pessoas como um resultado natural de sua visibilidade.

Tem muita gente boa por aí que nós nunca ouvimos falar! E talvez nem precisemos.

Apenas uma lembrancinha

Há alguns poucos anos li a frase abaixo, e ela reverberou em meu coração. Fez meu coração aquietar-se, foi como água fresca num dia de calor extremo. Quem sabe ela também te alivie um pouco:

A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, com sua mulher comum e seus filhos comuns.

  • G. K. Chesterton

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