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GRÃ-BRETANHA: “FIASCO DO DESARMAMENTO”?

Tiroteios com múltiplas vítimas sempre foram eventos excepcionalmente raros no Reino Unido. Quando ocorrem incidentes com duas ou mais…

Eddy · 2026-01-03 18:48 · 0 claps · 22.4 min read
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GRÃ-BRETANHA: “FIASCO DO DESARMAMENTO”?

Tiroteios com múltiplas vítimas sempre foram eventos excepcionalmente raros no Reino Unido. Quando ocorrem incidentes com duas ou mais mortes, estes costumam estar associados a conflitos ligados ao crime organizado, como disputas entre gangues ou redes de tráfico de drogas, e não a ataques indiscriminados contra civis. Ainda assim, dois episódios romperam esse padrão histórico e provocaram transformações profundas na política britânica de armas de fogo.

Em agosto de 1987, **Michael Robert Ryan matou 16 pessoas, incluindo sua própria mãe, na pequena cidade de Hungerford. A escala do ataque, à época um dos piores da história moderna britânica, chocou o país e expôs fragilidades no regime de posse legal de armas. Ryan utilizou armamentos que havia adquirido licitamente, o que levou o então secretário do Interior, Douglas Hurd**, a determinar uma investigação oficial sobre os critérios de licenciamento e fiscalização.

O resultado foi a **Firearms (Amendment) Act de 1988, aprovada sob um governo conservador liderado por [Margaret Thatcher](https://www.getreading.co.uk/news/berkshire-history/gallery/hungerford-massacre-berkshire-august-19-18795342). A lei proibiu armas semiautomáticas e restringiu a venda de determinados tipos de espingardas. Como esse tipo de armamento já era relativamente incomum no país, o impacto prático inicial foi limitado, mas o marco normativo consolidou o entendimento de que tragédias excepcionais exigem respostas estruturais do Estado**.

Nove anos depois, em 13 de março de 1996, o país foi novamente abalado. **Thomas Hamilton invadiu uma escola primária em Dunblane, assassinando 16 crianças com armas que possuía legalmente. O choque nacional foi ainda maior pelo fato de Hamilton ter um histórico conhecido de comportamento inadequado com menores, que, apesar de reiteradas denúncias, não o impediu de manter acesso a armamentos letais**.

A reação social foi imediata e intensa. A **Campanha Snowdrop, formada por familiares e amigos das vítimas, reuniu cerca de 750 mil assinaturas exigindo a proibição da posse privada de armas curtas no Reino Unido. Sob forte pressão pública, o então primeiro-ministro John Major apresentou a Firearms (Amendment) Act de 1997, que restringiu severamente a posse de armas de alto calibre e instituiu um [programa temporário de recompra](http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/2986179.stm)**.

Após a derrota do Partido Conservador nas eleições, o novo governo trabalhista aprofundou a reforma. Sob a liderança de Tony Blair, foi aprovada a **Firearms (Amendment) Act nº 2 de 1997, que proibiu praticamente todas as armas de fogo privadas, impôs penas severas para o porte ilegal e, como efeito colateral, quase extinguiu o tiro esportivo de precisão no país. Diferentemente de reformas graduais observadas em outros contextos, o Reino Unido optou por uma resposta legislativa abrangente e definitiva**, ancorada na noção de prevenção absoluta.

Décadas depois, os sobreviventes e familiares ainda lidam com os efeitos psicológicos duradouros de Dunblane. Do ponto de vista institucional, contudo, o país consolidou um consenso político e social raro: a redução extrema da circulação de armas privadas como pilar central da segurança pública. Desde então, o Reino Unido mantém uma das menores taxas de mortes por armas de fogo do mundo desenvolvido, reforçando a compreensão de que eventos traumáticos, quando enfrentados com reformas estruturais, podem redefinir de forma permanente o padrão de violência de uma sociedade.

Ainda assim, o Reino Unido vivenciou episódios posteriores relevantes, como Cumbria (2010) e Plymouth (2021), que reacenderam o debate sobre lacunas na aplicação e no monitoramento do sistema existente.

Em Cumbria, o taxista Derrick Bird, de 52 anos, com porte legal, matou 12 pessoas e feriu 11, antes de se suicidar, apesar de apresentar histórico prévio de comportamentos preocupantes.

Em Plymouth, o caso foi ainda mais problemático, **Jake Davison, de 22 anos, matou cinco pessoas, incluindo sua mãe e uma criança, utilizando uma espingarda legalmente registrada**. Davison demonstrava sinais claros de deterioração da saúde mental, mantinha vínculos com o movimento incel e havia perdido anteriormente sua licença por agressão, que posteriormente lhe foi restabelecida. Após o ataque, o IOPC emitiu notificações disciplinares a dois membros da Polícia de Devon e Cornwall por seu tratamento do certificado de porte de espingarda de Davison.

O episódio levou o **Ministério do Interior a rever os procedimentos de concessão e restabelecimento de licenças e a anunciar, em 2023, a implementação de um programa nacional obrigatório de formação para autoridades responsáveis pelo licenciamento, medida que influenciou as reformas regulatórias posteriores de 2023 a 2025**, voltadas ao reforço da avaliação contínua de risco.

A **Lei de Armas de Fogo de 2023, voltada ao reforço de controles sobre componentes de munição e à introdução de novas regras para o funcionamento de campos de tiro com rifles em miniatura. Já as [Normas de Armas de Fogo (Emenda) de 2025](https://www.gov.uk/government/publications/circular-0052025-the-firearms-amendment-rules-2025/circular-0052025-the-firearms-amendment-rules-2025)**, com alterações no processo de licenciamento e fiscalização.

Entre os pontos centrais atribuídos a esse ciclo recente, destaca-se a verificação ampliada de comportamento e ambiente social, com autorização expressa para considerar, o histórico digital relevante (incluindo redes sociais, quando pertinente); conflitos domésticos, mesmo sem condenação; e denúncias anteriores arquivadas, desde que fundamentadas. O sistema passa, assim, a atribuir maior peso ao critério de “adequação contínua”, isto é, à avaliação dinâmica de risco, e não apenas à ausência formal de antecedentes criminais no momento do pedido.

LEGISLAÇÃO DE ARMAS E AS LACUNAS

O regime britânico de controle de armas não surgiu como reação recente a epis/ódios de violência, mas possui raízes históricas profundas. Um dos marcos iniciais foi a Lei de Armas de Fogo de 1920, aprovada no contexto do pós-Primeira Guerra Mundial, quando o Estado buscava conter o retorno de grandes quantidades de armas ao território civil e reduzir o risco de instabilidade social. A regulação também teve como objetivo restringir o acesso de grupos insurgentes, em especial os revolucionários irlandeses envolvidos no conflito anglo-irlandês, além de refletir temores mais amplos gerados pela Revolução Russa de 1917 e pela disseminação de movimentos socialistas e comunistas na Europa no imediato pós-guerra.

Embora não impedisse que criminosos obtivessem armas de forma ilegal. Essa lei introduziu, pela primeira vez em escala nacional, o princípio do licenciamento obrigatório, condicionando a posse de armas à autorização estatal e estabelecendo que o cidadão deveria demonstrar “razão legítima” para possuí-las.

A partir desse momento, consolidou-se no Reino Unido a noção de que a posse de armas não constitui um direito, mas um privilégio excepcional (incluindo autodefesa), sujeito à avaliação discricionária das autoridades. Esse entendimento moldou todo o desenvolvimento posterior da legislação.

Décadas depois, reformando profundamente o sistema inaugurado em 1968, pela Lei de Armas de Fogo de 1968, que sistematizou o regime nacional de licenciamento e classificou os artefatos em categorias: armas de fogo, espingardas, armas proibidas, réplicas, armas de ar comprimido e armas desativadas, cada uma submetida a exigências próprias.

A Lei de Armas de Fogo (Emenda) de 1988, proibiu as armas semiautomáticas e limitou as vendas de alguns tipos de espingardas. Essas armas eram raras na Grã-Bretanha, então o impacto foi limitado.

A **Lei de Armas de Fogo de 1997 praticamente impediu cidadãos privados de possuir a maioria dos tipos de armas de fogo, ao mesmo tempo em que tornou mais rigorosa a posse residual de armas legais, como rifles esportivos. A partir dessa reforma, o processo de licenciamento passou a envolver controles muito mais intrusivos, inclusive a consulta rotineira a médicos de novos candidatos para verificar se estão em tratamento por transtornos mentais, como depressão. A lei também consolidou um princípio central do regime britânico: a autodefesa não é reconhecida como justificativa legítima para a posse civil de armas**.

Apesar do endurecimento, a proibição não foi estendida de forma absoluta a réplicas de armas, armas de ar comprimido e armas desativadas, categorias que permaneceram reguladas, mas que posteriormente se mostrariam problemáticas do ponto de vista criminal.

A consciência do papel desempenhado por determinadas categorias de armas na persistência dos níveis de crime violento levou o Parlamento britânico à aprovação, em 2003, do **Anti-Social Behaviour Act. A lei entrou em vigor em 20 de janeiro de 2004** e promoveu ajustes relevantes no controle de armas consideradas de menor letalidade, mas frequentemente utilizadas em delitos.

Entre as principais medidas, a legislação proibiu a marca Brocock, conhecida por armas de ar comprimido passíveis de conversão para disparos com munição real, e elevou a idade mínima para a compra de armas de ar comprimido de 14 para 17 anos. O objetivo foi reduzir o acesso juvenil a esse tipo de armamento e fechar brechas exploradas pelo crime.

O caso da Grã-Bretanha ilustra que, quando algumas categorias de armas são proibidas, mas outras permanecem amplamente disponíveis, parte da criminalidade tende a migrar para esses “vazios regulatórios”.

Por fim, a **Lei de Redução do Crime Violento de 2006 complementou esse arcabouço ao regulamentar de forma mais rigorosa o uso de armas de imitação e de ar, além de introduzir tecnologias avançadas de rastreamento forense e balístico. Essas medidas permitiram que as forças policiais concentrassem esforços nos crimes envolvendo armas reais, contribuindo para uma queda consistente da criminalidade armada** nos anos subsequentes.

No Reino Unido, os requerentes de licença são obrigados a declarar se já foram tratados por depressão ou outros distúrbios mentais ou nervosos, bem como a autorizar expressamente que a autoridade policial entre em contato com seus médicos. Profissionais de saúde, por sua vez, podem comunicar preocupações à polícia quando acreditarem que um paciente possa representar risco à segurança pública ou a si próprio, mesmo diante do dever geral de confidencialidade médica.

A polícia detém poderes amplos de fiscalização contínua. Pode, a qualquer momento, decidir que um indivíduo não é mais apto a possuir armas e exigir sua devolução. O titular da licença também é obrigado a notificar a polícia sempre que comprar, vender, destruir ou perder uma arma.

Outro critério relevante é a aptidão pessoal. No Reino Unido, o histórico de dependência de álcool ou drogas, bem como, mais recentemente, a análise de comportamento em redes sociais, é levado em consideração na avaliação do candidato. Os requerentes devem declarar essas condições nos formulários de licenciamento, e constitui crime vender armas de fogo a pessoas que estejam embriagadas ou sob efeito de álcool no momento da venda.

O sistema britânico adota o princípio de que cada arma deve estar vinculada a uma licença específica, embora não seja exigida autorização separada apenas para o ato de aquisição. Existem, contudo, licenças distintas conforme o tipo de arma, sobretudo os certificados de arma de fogo e os certificados de espingarda, cada um com requisitos próprios. A legislação também estabelece que a licença deve indicar expressamente a quantidade máxima de munição que o titular está autorizado a manter.

Então, embora o regime seja altamente restritivo quanto às armas de fogo sobretudo armas curtas, ele não proíbe de forma absoluta réplicas, armas de ar comprimido ou armas desativadas, categorias que permanecem sob fiscalização específica.

No período mais recente, o sistema foi novamente ajustado. A Lei de Armas de Fogo de 2023 reforçou o controle sobre componentes de munição e estabeleceu regras adicionais para campos de tiro com rifles em miniatura, enquanto as Regras de Armas de Fogo (Emenda) de 2025 aprofundaram o modelo de monitoramento contínuo, ampliando critérios comportamentais e a integração entre polícia e outros órgãos públicos.

EFEITOS DO CONTROLE DE ARMAS BRITÂNICO: ENTRE MITOS E VERDADES

O Reino Unido apresenta, de forma consistente, uma das menores taxas de homicídio por arma de fogo do mundo. A taxa média de mortes por armas de fogo situa-se entre 0,02 e 0,05 por 100.000 habitantes, o que corresponde, em termos absolutos, a aproximadamente 15 a 38 mortes por ano. Os homicídios cometidos com armas de fogo representaram apenas 2,4% do total de homicídios, evidenciando que a violência letal no país raramente envolve esse tipo de instrumento. O número de mortes por armas per capita nos Estados Unidos é quase 30 vezes maior do que no Reino Unido. Os tiroteios em massa constituem eventos excepcionalmente raros no Reino Unido, tendo ocorrido apenas dois episódios desde a última grande reforma das leis de armas, em 1997.

Apesar disso, opositores do controle de armas costumam sustentar a tese de que o desarmamento teria “fracassado”, atribuindo aumentos pontuais nas estatísticas de homicídio à legislação restritiva. Essa leitura, entretanto, confunde indicadores distintos e ignora fatores estatísticos relevantes.

No plano dos homicídios totais, parte das oscilações observadas nos anos seguintes às reformas decorreu de eventos extraordinários e alheios à política de armas. Na Inglaterra, por exemplo, um **serial killer foi preso alguns anos após a aprovação das Emendas nº 1 e nº 2 da Lei de Armas de Fogo de 1997, tendo seus crimes sido registrados retrospectivamente como ocorridos em um único ano, o que produziu uma elevação artificial da taxa anual de homicídios naquele período específico. De forma semelhante, atentados terroristas** ocorridos no país também impactaram as estatísticas gerais, sem qualquer relação causal com o acesso legal a armas de fogo.

Houve algumas mudanças estatísticas, em 1972, onde os crimes de homicídio doloso, culposo e infanticídio são compilados para se obter uma taxa de homicídios.

Em 1998, o Ministério do Interior alterou a forma como os homicídios eram registrados pela polícia, o que teve um impacto significativo nos resultados obtidos. Enquanto antes de 1998 os homicídios múltiplos eram considerados um único incidente, a partir de então cada morte passou a ser contabilizada separadamente. Em 2002, os números incluíam os 173 homicídios cometidos por Harold Shipman, enquanto que, se estes tivessem ocorrido em 1964, teriam sido contabilizados como um único incidente para efeitos das estatísticas do Ministério do Interior.

Em um plano estatístico distinto, referente às ocorrências registradas como crimes “envolvendo armas”, observou-se que, nos quatro anos subsequentes às proibições de 1997–1998, os números aparentaram crescer de forma significativa parecendo que dobraram durante o período. Esse aumento, contudo, não correspondeu a um crescimento do uso de armas de fogo letais, mas resultou de mudanças simultâneas no contexto criminal e nos critérios de registro policial.

Após a proibição de armas de fogo em 1997, os crimes relacionados a armas na Inglaterra e no País de Gales caíram 13% nos nove meses subsequentes. Esse efeito inicial, contudo, revelou-se limitado, diante dos aumentos observados nos anos seguintes, que se estenderam até 2003. Em contraste, **esse padrão não se repetiu na Escócia**.

Ali, o impacto da mudança legislativa foi mais expressivo, com uma redução de 17% nos crimes envolvendo armas de fogo no ano imediatamente posterior à reforma, além de uma queda substancial nos crimes envolvendo pistolas, aproximando-se de 80% nos cinco anos seguintes. Os delitos envolvendo espingardas na Escócia também apresentaram declínio acentuado após 1993, mantendo-se, desde 1998, em patamar baixo e relativamente estável.

Durante as décadas de 1980 e 1990, o Reino Unido vivenciou a expansão da atividade de gangues juvenis, que passaram a utilizar **réplicas, armas de ar comprimido e armas de imitação como instrumentos de intimidação. À época, autoridades policiais chegaram a descrevê-las como verdadeiros “acessórios de moda”. Paralelamente, verificou-se a entrada de armas convertidas e reativadas provenientes da Europa Oriental, contribuindo para a formação de uma economia peculiar de violência armada, frequentemente caracterizada como uma economia de “armas de lixo”**.

Nesse contexto, a polícia britânica enfrentava uma curva de aprendizado significativa na identificação e no enfrentamento adequado desse tipo de criminalidade. A **Lei de Redução do Crime Violento de 2006 foi decisiva ao restringir a disponibilidade e o uso indevido de armas aéreas e de imitação, além de permitir a adoção de novas tecnologias de rastreamento forense e análise balística. Com isso, as forças de segurança puderam direcionar seus esforços de maneira mais precisa para crimes envolvendo armas de fogo reais**.

Com a consolidação desse arranjo institucional, os crimes com armas de fogo passaram a cair de forma contínua e consistente, reforçando a evidência de que o controle rigoroso de armas, quando combinado com aprimoramentos no policiamento e na capacidade investigativa, contribui de maneira decisiva para a manutenção de níveis extremamente baixos de violência armada no Reino Unido.

— DESMITIFICANDO ALEGAÇÕES —

1) “E QUANTO ÀS TAXAS DE AGRESSÕES NÃO FATAIS?”

A ideia de que o Reino Unido seria o “país mais violento do mundo” foi amplamente difundida por setores armamentistas após matérias sensacionalistas do Daily Mail e do The Telegraph. O argumento costuma seguir o mesmo roteiro: embora o Reino Unido apresente baixa taxa de homicídios, seus crimes violentos não fatais seriam elevados. À primeira vista, a conclusão parece plausível, mas ela se desfaz quando se observa o problema metodológico central: crimes não fatais não são comparáveis de forma simples entre países.

Antes de qualquer comparação séria, é preciso responder a perguntas básicas:

  1. O ato é efetivamente ilegal naquele país?
  2. Se for ilegal, é socialmente visto como algo que vale a pena denunciar?
  3. Qual é a taxa real de notificação?
  4. A polícia possui capacidade institucional e incentivos para registrar esses dados de forma consistente?

No campo dos crimes sexuais, por exemplo, diversos países europeus reconhecem o estupro conjugal há décadas, incorporando-o plenamente às estatísticas criminais. Em contraste, na Indonésia a tipificação dessa conduta ocorreu apenas em 2022, enquanto em países como o Egito inexiste previsão legal equivalente. Assim, condutas que integram os registros criminais de alguns países simplesmente não existem juridicamente em outros, o que inviabiliza comparações diretas de incidência.

O mesmo fenômeno ocorre em relação aos crimes patrimoniais. No Brasil, por exemplo, o chamado furto de uso pode ser considerado penalmente atípico, ao passo que, em países como a Japão e Singapura, a mesma conduta recebe tratamento jurídico distinto. Em consequência, eventos socialmente semelhantes podem ou não ser registrados como crime, a depender do ordenamento jurídico local.

Além das diferenças normativas, existem variações conceituais relevantes nas definições legais. O próprio conceito de “furto” não é uniforme entre os países europeus: algumas jurisdições excluem determinadas condutas, como furtos de bolsas ou arrancos sem violência grave, que, em outros países, são contabilizadas como furto. Essas distinções impactam diretamente os indicadores estatísticos.

A heterogeneidade se agrava no plano administrativo. As forças policiais registram crimes de maneiras distintas. A maioria dos países europeus utiliza estatísticas de entrada, registrando o crime no momento em que ele é comunicado à polícia. Contudo, países como Alemanha e Espanha adotam estatísticas de saída, contabilizando o crime apenas ao final da investigação. Segundo o **Eurostat**, esse método tende sistematicamente a produzir números menores, pois parte dos registros iniciais é descartada, reclassificada ou arquivada ao longo do processo investigativo.

É por isso que taxas de homicídio são o indicador preferencial em comparações internacionais. Há um corpo, e é muito mais difícil, não impossível, mas significativamente mais difícil, discordar sobre a existência de um cadáver do que sobre uma briga, uma ameaça ou um ferimento por arma branca. Também é mais difícil ocultar, deixar de denunciar ou deixar de registrar uma agressão fatal, sobretudo em democracias desenvolvidas.

Há, sim, esforços sérios para coletar dados internacionais sobre violência não letal. O UNODC tenta sistematizar essas informações, mas a própria organização adverte que as séries temporais são fragmentadas, as definições variam e que comparações entre países, e até entre anos dentro do mesmo país, podem ser estatisticamente inválidas.

Quando esses dados são lidos literalmente, surgem conclusões absurdas: a Escócia pareceria trinta vezes mais violenta que Uganda; a Polônia teria reduzido agressões de 76 para 1,4 por 100 mil habitantes em um único ano; a Suécia apresentaria uma taxa de agressão violenta 3,3 vezes superior à dos EUA; e El Salvador, um dos países com maior taxa de homicídios do mundo, apareceria com níveis de agressão não fatal semelhantes aos da Noruega, uns dos países com a menor taxa de homicídios do mundo.

Talvez seja possível inventar uma narrativa para cada caso. Mas a explicação mais parcimoniosa é outra: os números refletem diferenças institucionais, legais e burocráticas, não níveis reais de violência. Por isso, é preciso extrema cautela ao usar estatísticas de agressões não fatais para negar o fato bem documentado de que, entre democracias desenvolvidas, os Estados Unidos permanecem excepcionalmente violentos em termos letais, enquanto países como o Reino Unido apresentam níveis muito inferiores de mortalidade.

2) ARROMBAMENTOS E INVASÕES DE RESIDÊNCIA

Outra falácia amplamente difundida a partir de narrativas alarmistas sobre criminalidade no Reino Unido é a afirmação de que “o Reino Unido apresenta a quarta maior taxa de arrombamentos e invasões de residências de toda a União Europeia”. Tal alegação ignora limitações metodológicas fundamentais e desconsidera completamente a evolução histórica dos dados.

Conforme já exposto, comparações internacionais de crimes patrimoniais são intrinsecamente complexas. Em algumas jurisdições, apenas a entrada não autorizada com rompimento físico de obstáculo (breaking and entering) é classificada como arrombamento ou invasão de domicílio (burglary). Em outras, basta a entrada ilegal em residência, ainda que sem arrombamento, para que o fato seja registrado como invasão domiciliar. Há ainda países que excluem residências temporariamente desocupadas, anexos ou garagens, enquanto outros os incluem nas estatísticas. Assim, condutas materialmente semelhantes podem ou não ser contabilizadas como arrombamento, a depender da definição legal adotada.

Independentemente dessas limitações comparativas, os dados internos do próprio Reino Unido demonstram uma redução profunda, contínua e estrutural dos arrombamentos residenciais nas últimas décadas.

Após o massacre de Dunblane, em 1996, o país aprovou legislação extremamente rigorosa de controle de armas de fogo, consolidada em 1997, que na prática proibiu a posse civil de armas. Desde então, os crimes patrimoniais, especialmente invasões de residências, entraram em forte trajetória de declínio.

De acordo com a **ONS, por meio da Crime Survey for England and Wales, os arrombamentos residenciais (burglary) caíram cerca de 72% entre 1995 e 2017**. No mesmo período, outros crimes patrimoniais, como furtos de veículos, também apresentaram reduções expressivas.

Os dados do **Eurostat corroboram essa tendência. Entre 1998. o primeiro ano com série histórica comparável, e 2016, o número de invasões residenciais com finalidade de subtração de bens caiu aproximadamente 56,5%**, passando de cerca de 473 mil para 205 mil registros anuais.

A maioria dos crimes patrimoniais no Reino Unido diminuiu em torno de 85% à 90% desde o pico histórico.

3) “A ASSUSTADORA TAXA DE ESTUPROS DO REINO UNIDO”

A afirmação de que “o Reino Unido tem 125% mais vítimas de estupro do que os Estados Unidos” foi amplamente difundida por setores armamentistas como forma de deslegitimar políticas de controle de armas. Essa narrativa, contudo, ignora fatores fundamentais, como diferenças na definição legal do crime, taxas de denúncia e o grau de apoio institucional às vítimas.

Conforme destacado pelo **PolitiFact, estupro, agressão sexual e agressão agravada não são crimes diretamente observáveis, pois dependem quase inteiramente da decisão da vítima de denunciar. Isso torna as estatísticas policiais particularmente frágeis para comparações internacionais**, já que variações culturais, institucionais e legais influenciam fortemente a propensão à denúncia.

O Reino Unido adota uma definição legal mais ampla de estupro e crimes sexuais do que muitos estados norte-americanos, especialmente antes da padronização promovida pelo FBI em 2013. Na Inglaterra e no País de Gales, há décadas são reconhecidas como estupro ou agressão sexual condutas como: estupro conjugal; coerção sexual sem necessidade de força física direta; ou incapacidade de consentimento ampliada.

Em contraste, em diversos estados dos Estados Unidos essas condutas historicamente não eram enquadradas como estupro, ou eram registradas em categorias penais distintas. Como consequência, atos materialmente semelhantes podem aparecer como estupro nas estatísticas britânicas e não aparecer como tal nas estatísticas norte-americanas.

Quando se recorre a pesquisas de vitimização, que são metodologicamente mais adequadas para crimes subnotificados, a narrativa se inverte. A International Crime Victims Survey, conduzida pela ONU, indica que a taxa de agressão sexual é cerca de 50% maior nos Estados Unidos do que na Inglaterra e no País de Gales. Esse resultado contradiz diretamente a alegação de que o Reino Unido teria mais vítimas de estupro.

A mesma pesquisa mostra ainda que os EUA apresentam taxas mais elevadas de crimes violentos em geral, incluindo agressões e roubos, reforçando que os números policiais não refletem necessariamente maior ou menor vitimização real.

Dados do Bureau of Justice Statistics (BJS) dos EUA indicam que apenas uma fração dos casos de agressão sexual é relatada à polícia, enquanto o Reino Unido tem feito esforços significativos para aumentar a conscientização sobre crimes sexuais e encorajar as vítimas a denunciarem, o que pode inflar as estatísticas oficiais.

4) A FALÁCIA DA “EPIDEMIA DE FACAS” NO REINO UNIDO

A alegação de que o Reino Unido estaria vivendo uma suposta “epidemia de facas” foi amplamente disseminada durante o primeiro mandato de Donald Trump, que chegou a afirmar que o país estaria “tão ruim quanto um hospital em zona de guerra militar”. Essa retórica, contudo, não encontra respaldo sólido quando analisada à luz dos dados comparativos internacionais.

É correto afirmar que houve um **aumento relativo de crimes envolvendo facas no Reino Unido a partir de meados de 2017. No entanto, esse fenômeno não é exclusivo do Reino Unido, nem representa uma anomalia isolada. [Relatórios da ONU](https://worldpopulationreview.com/country-rankings/stabbing-deaths-by-country#trends-in-knife-related-violence-and-stabbing-deaths) apontam que, desde aproximadamente 2014, diversos países observaram crescimento proporcional no uso de armas brancas em crimes violentos. Um dos principais fatores apontados é a maior disponibilidade de facas, que são significativamente mais baratas, legalmente acessíveis, e muito mais fáceis de obter do que armas de fogo**.

O mesmo relatório destaca um ponto crucial: países com taxas elevadas de homicídio tendem a ser aqueles onde armas de fogo são mais prevalentes. Em contraste, países com taxas gerais de homicídio mais baixas apresentam maior proporção de mortes causadas por objetos cortantes ou outros meios, não porque sejam mais violentos, mas porque o acesso a armas de fogo é limitado.

Nos Estados Unidos, em 2016, houve 34 homicídios por arma de fogo por milhão de habitantes, em comparação com 0,48 homicídios relacionados a disparos de arma de fogo no Reino Unido.

Os homicídios com faca também são mais frequentes nos Estados Unidos, em 2016, houve 4,96 homicídios “devido a facas ou instrumentos cortantes” nos EUA para cada milhão de habitantes. Na Grã-Bretanha, ocorreram 3,26 homicídios envolvendo objetos cortantes por milhão de habitantes no período de abril de 2016 a março de 2017.

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Por que não se fala em “epidemia de facas” nos EUA? A resposta não está nos números, mas na narrativa política e midiática. Reconhecer uma “epidemia de facas” nos Estados Unidos exigiria admitir que o problema central não é a substituição de armas de fogo por facas, mas a violência letal em si.

No caso britânico, a retórica da “epidemia de facas” funciona como um **artifício discursivo para atacar políticas de controle de armas bem-sucedidas. Nos Estados Unidos, aplicar o mesmo rótulo seria desconfortável, pois explicitaria que o país apresenta taxas semelhantes ou superiores de homicídios com faca, além de níveis muito mais altos de homicídios com armas de fogo**.

4) LONDRES MAIS VIOLENTA QUE NOVA YORK?

Quando sites midiáticos passaram a noticiar, de forma sensacionalista, que Londres teria ultrapassado Nova York em número de homicídios, a leitura atenta das reportagens revela dois erros metodológicos básicos.

É verdade que os homicídios aumentaram em Londres após 2014, mas, quando analisados em séries mais longas, os níveis permanecem próximos da média histórica. As razões para esse aumento pontual não são totalmente claras. Há debate sobre a redução do uso de abordagens policiais (stop and search) após 2010, mas essa explicação é insuficiente, pois Nova York também reduziu o uso de poderes semelhantes no mesmo período e, ainda assim, continuou reduzindo seus homicídios.

O primeiro erro foi a utilização de um recorte temporal extremamente curto, limitado aos meses de janeiro a março de 2018. Não houve qualquer análise das tendências históricas anteriores, tampouco verificação se aquele aumento pontual representava uma mudança estrutural ou tendência persistente. Em análises criminais, comparações baseadas em poucos meses são estatisticamente frágeis, pois estão sujeitas a oscilações aleatórias, reclassificações posteriores e eventos excepcionais.

O segundo erro foi ignorar um fator contextual relevante: Nova York possui uma das legislações de controle de armas mais rigorosas dos Estados Unidos, o que torna metodologicamente incorreto utilizar a cidade como contraponto para criticar políticas de segurança do Reino Unido ou sugerir que o controle de armas seria ineficaz.

Há ainda problemas técnicos adicionais na comparação direta entre Londres e Nova York. A Polícia Metropolitana adota uma definição mais ampla de homicídio, que inclui: homicídio doloso, homicídio culposo, e infanticídio. Já o NYPD registra homicídios de forma mais restrita, incluindo homicídio doloso e culposo, mas excluindo infanticídio. Como consequência, as estatísticas londrinas tendem, por definição, a ser ligeiramente mais elevadas, ainda que a violência letal real seja igual ou menor.

Após as reclassificações, fevereiro foi o único mês em que Londres registrou mais homicídios (18) do que Nova York (14), uma diferença mínima, estatisticamente irrelevante e claramente episódica. Em março e nos meses seguintes, Nova York voltou a apresentar números superiores.

Nova York é, sem dúvida, muito mais segura hoje do que em 1990, quando registrou 2.262 homicídios. Ainda assim, não está nem remotamente demonstrado que Londres esteja se tornando mais violenta do que sua contraparte americana.

POLICIA BRITÂNICA

A grande maioria dos policiais no Reino Unido **não porta armas de fogo rotineiramente, característica que os distingue de forças policiais como as dos Estados Unidos e de diversos outros países. O uso de armas é restrito a unidades especializadas, compostas por agentes altamente treinados, acionadas apenas em situações específicas ou operações de maior risco. Os defensores desse modelo sustentam que o policial desarmado simboliza o chamado [policiamento por consentimento](https://www.bbc.com/news/magazine-19641398)**, no qual a autoridade policial deriva da legitimidade social e não do uso ostensivo da força.

Número total de agentes desarmados e agentes armados operacionais, Inglaterra e País de Gales

Número total de agentes desarmados e agentes armados operacionais, Inglaterra e País de Gales

Nesse contexto, o treinamento policial no Reino Unido enfatiza fortemente a desescalada de conflitos e o uso do mínimo necessário de força, priorizando a contenção e a negociação mesmo diante de situações potencialmente perigosas. Tal orientação se reflete também em exigências institucionais mais recentes: na Inglaterra e no País de Gales, passou a ser obrigatório que os oficiais possuam formação acadêmica de nível superior, reforçando o caráter profissional e técnico da atividade policial.

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Os dados empíricos corroboram os efeitos desse modelo. Em todo o ano de 2025, a polícia britânica efetuou apenas quatro disparos de arma de fogo, o que representa 0,02% do total de operações com armas de fogo. Ainda assim, trata-se de uma das forças policiais mais respeitadas do mundo em termos de eficiência e legitimidade institucional.

O número de policiais mortos por armas de fogo também não aumentou em razão do policiamento desarmado; ao contrário, caiu de 21 mortes em 1994 para 7 em 2000/2001, tendo havido nenhuma morte por arma de fogo de policiais em serviço entre 1996 e 2002/2003. Entre 2007 e 2014, apenas **dois policiais** foram mortos por disparos.

A percepção pública acompanha esse modelo. Pesquisas de opinião indicam que 54% dos adultos no Reino Unido se opõem ao armamento rotineiro da polícia, enquanto 58% acreditam que tal medida aumentaria o número de mortes relacionadas a armas de fogo. Em contraste, dados divulgados pelo *The Guardian* apontam que, nos primeiros 24 dias de 2015, a polícia dos Estados Unidos matou a tiros mais pessoas do que a polícia da Inglaterra e do País de Gales juntas nos 24 anos anteriores.

Paralelamente, é disseminado na mídia o argumento de que “a polícia do Reino Unido deixou de investigar quaisquer crimes”, o que não corresponde à realidade. O que se observa é a adoção, pela **Metropolitan Police Service (MPS), de um modelo de triagem investigativa**, voltado à priorização racional de recursos diante de restrições orçamentárias e déficit de efetivo.

Nesse modelo, não é correto afirmar que crimes de valor inferior a £50 deixam automaticamente de ser investigados. A resposta é condicional. A triagem considera critérios como o interesse da vítima na persecução penal, a existência de violência ou grave ameaça, a natureza do delito e a disponibilidade de elementos probatórios. Crimes que envolvem violência ou grave ameaça são priorizados para investigação mesmo quando não há, inicialmente, um suspeito identificado, pois a gravidade do fato, por si só, justifica a atuação investigativa.

A identificação de um suspeito é um fator relevante, mas não constitui requisito absoluto para a investigação. Trata-se de um critério de viabilidade, não de exclusão. Da mesma forma, delitos sem autoria conhecida podem ser registrados e arquivados de forma provisória, com possibilidade de reabertura caso surjam novos elementos, haja reiteração da conduta ou conexão com outros crimes.

Esse modelo não é exclusivo do Reino Unido. Em departamentos locais dos Estados Unidos, como no Texas, furtos de baixo valor, vandalismo ou danos sem suspeito identificado são frequentemente encerrados como “no leads”, enquanto crimes violentos seguem sendo investigados independentemente da autoria imediata. Em áreas rurais como Montana, a priorização é ainda mais evidente devido à limitação de efetivo. Na Polônia e no Brasil, infrações de baixo impacto sem autoria conhecida também podem ser arquivadas provisoriamente, sem prejuízo de futura reabertura.

No mesmo sentido, a Escócia implementou recentemente, em nível nacional, um modelo de “resposta proporcional ao crime”, após projeto-piloto considerado bem-sucedido. Nesse sistema, infrações menores, como o furto de um objeto decorativo de jardim ou danos leves a um para-choque de veículo, quando inexistem testemunhas ou câmeras, podem ser registradas e arquivadas sem investigação adicional, justamente para liberar tempo e efetivo policial para crimes mais graves e complexos.

Portanto, a alegação de que a polícia britânica “não investiga pequenos delitos” confunde triagem administrativa e priorização condicional com abandono do dever estatal de investigar. O que existe é uma reorientação pragmática do policiamento, em que crimes graves continuam sendo investigados mesmo na ausência inicial de suspeitos, enquanto infrações de menor potencial ofensivo são avaliadas segundo critérios de proporcionalidade, viabilidade e interesse público.


메타데이터
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