Das calandivas a Jano…
Entre livros, as ‘calandivas’ brancas e amarelas — também conhecidas como “flor-da-fortuna” — , esperam pelo novo ano que se avizinha…
Das calandivas a Jano…
“Calandivas à espera do ano novo”, de Maria Luiza Rosa Barbosa (23 dez. 2020, às 13h51min)
Entre livros, as ‘calandivas’ brancas e amarelas — também conhecidas como “flor-da-fortuna” — , esperam pelo novo ano que se avizinha, eternizadas para além dele em uma fotografia, fragmento de memória… Talvez indagues, caro(a) leitor(a): “por que brancas e amarelas?”… Placidamente, eu te respondo: “significados espirituais; brancas, por expressarem pureza, limpeza, saúde, renovação de energias e paz. Amarelas, por sua vez, relacionam-se à boa sorte, força, alegria ou vivacidade de espírito”. Não foi, por certo, um ano fácil — aliás, 2019 também foi pontuado por dificuldades e momentos dolorosos — , mas é preciso agradecer os momentos de luz e de pequenas alegrias que se presentificaram nesses dois últimos anos.
Justamente por isso, as flores são um tributo à esperança no porvir; o desejo de que ele venha mais pleno de alegrias, cura e bonanças… Quiçá, uma espécie de oferenda pós-moderna a Jano, tal como faziam os antigos romanos na celebração da chegada do ano novo. Dotado de duas cabeças: uma voltada para o passado; a outra, para o futuro, esse deus guarda os portões do céu, simbolizando fins e começos, ou como afirmou Santo Agostinho em A Cidade de Deus (1996 [1483], p. 400; 612): “Jano no começo das coisas […] Jano tem poder sobre todos os começos […]”. Consagrado a Jano, janeiro — do latim januarìus,ìi (sc. januarìus mensis*) — foi instituído no calendário romano por Júlio César, em 46 a.C., como o primeiro mês do ano.
E, novamente, um ciclo se fecha e outro se avizinha; em breve, as portas de 2020 se cerram e as de 2021 se abrem de novo. Ou seria uma continuidade revestida de novos tons? Mistérios… Quem sabe Fernando Pessoa**, em seu poema sobre o ano novo, escrito em 01 de janeiro de 1923, tenha a chave: “Ficção de que começa alguma coisa! /Nada começa: tudo continua. / Na fluida e incerta essência misteriosa / Da vida, flui em sombra a água nua. / Curvas do rio escondem só o movimento. / O mesmo rio flui onde se vê. / Começar só começa em pensamento”. Enfim, resta-nos esperar que, tocado pela beleza das calandivas que lhe serão ofertadas, Jano nos permita “navegar em mar de contentamentos”, como diria Camões, na maior parte dos meses vindouros do novo ano que se aproxima… Esperançar sempre é preciso…
(Texto autoral de Maria Luiza Rosa Barbosa, produzido na Ilha da Magia [Florianópolis], em 28 de dezembro de 2020)
Referência dos textos citados
PESSOA, Fernando. Obra poética**. 1. ed. São Paulo: Nova Fronteira, 2020. 2v.
*SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições de J. Dias Pereira. 2. Ed. Lisboa (PT): Fundação Calouste Gulbenkian, 1996 [1483]. v.1, p. 400–612.

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