OUTRA MARGEM
Tô sozinho aqui.
OUTRA MARGEM
Tô sozinho aqui.
Sozinho, sentado nesta margem deserta do rio; minha casa fica lá do outro lado, onde existem dezenas de famílias, algumas sobrevivendo da pesca.
Da pesca, sim; mas este rio já não é mais o mesmo, eu sei…
Atravessei ele a nado. A travessia não foi fácil, mas tenho força e fôlego.
Igualzinho ao meu pai…
(A noite já vai alta, e o céu tá apinhado de estrelas; parecem felizes com a ausência de lua…)
Meu pai, o maior nadador e pescador que estas águas já viram; e que morreu justamente afogado nelas…
Ainda hoje não consigo entender o que aconteceu. Na época, eu tinha nove anos. Hoje tô com vinte e cinco. E, desde os quinze, faço esta travessia, sempre que me dá na telha.
Ninguém lá em casa sabe que faço isso. Saio no meio da madrugada, e volto antes do amanhecer.
Teve uma vez que mamãe me viu chegar. Tava vindo do banheiro e esbarrou comigo, todo molhado e tremendo.
Assustada, perguntou de onde eu vinha, e eu respondi que tinha ido nadar no rio…
“Com este frio, criatura?”
“Sim, me deu vontade…”
“E se tu adoece, João?”
Depois disso, passei a agir com cautela. E nunca mais fui surpreendido por ninguém; nem por mamãe, nem pela bruxa.
A bruxa é Ivanir, minha irmã. Simplesmente a gente não se suporta, desde pequenos.
E evito até mesmo falar o nome dela…
Qualquer dia desses me mando por aí. Acho que tô me cansando de algumas coisas. Só não fui ainda porque… Não, não saberia explicar.
Talvez seja por causa da mamãe. Talvez seja por causa do rio…
Mas qualquer hora dessas eu vou arribar na calada da noite. Quando amanhecer, vou tá longe, bem longe…
Sinto que meu pai tá aqui comigo, agora. Posso sentir sua presença nestas águas. Eu sempre sinto, só que hoje tá mais forte…
Pai, eu digo.
Pai, digo de novo.
Então ouço sua respiração pesada de cigarro:
Diga, meu filho, tô te ouvindo, tô te ouvindo…
Descontrolado, fecho os olhos e começo a chorar feito uma criança, enquanto o vento acaricia os meus cabelos molhados…
Preciso voltar pra casa; já é quase de manhã…
Será que cochilei um pouco…?
Pois cá tô eu de novo, sentado nesta margem oposta do rio. Sozinho…
(Hoje tem lua cheia, e dessa vez ela se vingou, apagou todas as estrelas… Não sobrou umazinha sequer!)
Sopra um vento gelado, e eu me sinto triste, tão triste…
Não, não acho que meu pai morreu afogado. Ele era forte demais para morrer assim…
O que aconteceu foi que um dia, sem ver nem pra quê, ele mandou fazer para si uma canoa de boa madeira e nos disse que a partir daquela data iria morar dentro dela, no rio.
E foi mesmo…
Ninguém entendeu nada. Nem eu, nem mamãe, muito menos a inútil da minha irmã.
Naquela época, nossa casa era a única na beira desse rio.
Chorando, eu falei:
“Papai, por favor, não vá!”
Ele não soltou uma palavra. Entrou na canoa e foi se afastando, se afastando, remando lentamente, sem olhar pra trás…
Nos primeiros dias, eu via ele subindo e descendo o rio. Parecia perdido, sem norte, sem direção…
Mamãe me mandava levar comida pra ele; eu sempre deixava a vasilha sobre alguma pedra, na margem.
Mas meu pai quase nunca vinha pegar…
Até que um dia, do nada, mamãe disse:
“João, tu não vai mais levar a droga da marmita e pronto!”
E ela tava muito séria, brava mesmo.
Poucas vezes na vida vi ela daquele jeito…
E o tempo foi passando, passando… Mas eu não deixava de acreditar que um dia meu pai voltaria pra nossa casa.
Embora agora raramente visse ele, rio acima ou abaixo, lá na sua canoa…
Eu sentia muito a sua falta, todos sentiam; mas ninguém falava nada; ele virou mesmo um assunto proibido lá em casa…
Até que um dia ele, o meu pai, desapareceu de vez…
Agora não tenho certeza sei se ele tá no fundo deste rio, ou se foi embora pra algum lugar…
Mas hoje isso já não tem a mesma importância pra mim…
O importante é que posso sentir sua presença, sempre que tô aqui, nesta margem, sozinho com meus pensamentos…
Às vezes, o vento sopra…
E sinto ele acariciando delicadamente os meus cabelos encharcados de lágrimas…
Sim, das lágrimas deste rio.
메타데이터
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