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“Personagencentrismo”: o que é? Por que é?

Você provavelmente conhece a ideia de “character arc” ou “arco de personagem”, basicamente, a trajetória emocional que um personagem…

Joao Pedro L. A. · 2024-12-15 14:18 · 0 claps · 4.6 min read
#storytelling #contar-historias #personagens #enredo
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Wiki topics: LIT · Literature & Writing

“Personagencentrismo”: o que é? Por que é?

Você provavelmente conhece a ideia de “character arc” ou “arco de personagem”, basicamente, a trajetória emocional que um personagem percorre durante a narrativa.

Eu digo “provavelmente” se você acompanha criadores de conteúdo americanos sobre contar estórias, isso é praticamente tudo sobre o que eles gostam de falar:

“Como criar um personagem” — 2,4 bilhões de resultados

“Como criar um personagem” — 2,4 bilhões de resultados

Compare a imagem acima com a abaixo:

“Como criar um enredo” — 1,3 bilhões de resultados

“Como criar um enredo” — 1,3 bilhões de resultados

E se você é como eu e está sempre consumindo conteúdos sobre escrita e storytelling, você sabe que boa parte desses resultados são algo do tipo: “Como usar o arco de personagens para gerenciar seu enredo” ou algo parecido. De fato a ideia de que estórias são totalmente sobre personagens é tão unipresente que pode ser até um pouco difícil encontrar conteúdo que não seja focado nisso, especialmente no Youtube onde boa parte do conteúdo é focado em personagem.

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 1,2 bilhões

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 1,2 bilhões

Resultados para “youtube enredo storytelling”: 559 milhões

Resultados para “youtube enredo storytelling”: 559 milhões

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 16,2 milhões

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 16,2 milhões

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 501 milhões

Resultados para “youtube personagens storytelling”: 501 milhões

Mas por quê?

Bem, eu acredito que há duas razões principais:

“Americacentrismo”

GrNande porcentagem do conteúdo sobre storytelling, assim como estórias consumidas em massa, são originadas nos EUA. Um fato tão óbvio que mesmo aqui no Brasil, boa parte dos criadores de conteúdo (incluindo eu mesmo) preferem usar termos americanos do que brasileiros: “character arc”, “plot-twist”, “worldbuilding”, “anti-hero” dentre muitos outros. Não digo isso de maneira crítica, pois Hollywood conquistou sua posição pela qualidade de seus escritores, os quais passaram os últimos cem anos aperfeiçoando o ofício do contador de estórias até torná-lo quase uma ciência.

Dito isso, é preciso lembrar que os EUA são uma nação notoriamente individualista. Sendo assim, não é difícil pensar no foco em personagens (isto é, indíviduos) como uma extensão natural de um modo de ver o mundo focado nas conquistas, experiências e aventuras individuais.

A combinação desses dois fatores é uma “ciência” de storytelling enviesada para o foco em personagens.

Mas espera aí…”, diz o leitor mais crítico: “…tudo bem. Talvez a influência americana seja parte do motivo. Mas e todas as estórias não americanas que também são focadas em personagens? Dragon Ball é japonês e é totalmente focado no desenvolvimento dos personagens e suas aventuras!

Se você se fez a pergunta, você está coberto de razão e isso nos leva ao segundo fator…

Franquias

Uma boa estória pode vender um livro, um filme, até mesmo um jogo…

Mas um bom personagem pode vender uma franquia de filmes, jogos, livros, fantasias de Hallowen, bonecos de ação, participação especial no Fortnite, etc…

Em poucas palavras: temas, mundos de fantasia e enredos são como um minério, você extrai, vende e é isso. Personagens são como vacas que você pode ordenhar para sempre e sempre e sempre…

Outros exemplos

Outros exemplos

Em outras palavras: sim, Dragon Ball é sobre Goku e suas aventuras e Goku vai continuar tendo aventuras até o dia que seus bonequinhos de ação comecem a acumular poeira nas lojas de produtos do nerds…

…o que dado a economia mundial… não, vamos focar no que interessa.

Dito tudo isso, sobra apenas uma questão a ser respondida:

E daí?

Sem piada. E daí que a maior parte dos escritores estão se focando em personagens? Na realidade, isso até não é algo bom?

Breaking Bad”, “Game of Thrones”, “Harry Potter” são símbolos do entretenimento moderno, sendo fonte de inspiração, pensamento crítico e puro entretenimento para milhões de pessoas. O que tem de mal?

E a resposta, caro leitor, é simples: nada, pelo menos, não em si.

Não há nada de mal em focar sua estória em personagens, especialmente se é isso de que você deseja falar e é aí que vem a questão: NEM SEMPRE QUEREMOS FALAR SOBRE PERSONAGEM!

Meu livro favorito é e sempre será “20.000 Léguas Submarinas” o qual tem um dos personagens mais icônicos e interessantes de toda a literatura: Capitão Nemo!

Obrigado Pixar! Agora, quando as pesosas pensam em Nemo, elas pensam num peixe idiota

Obrigado Pixar! Agora, quando as pesosas pensam em Nemo, elas pensam num peixe idiota

Agora, deixe eu te fazer uma pergunta: qual é o nome do protagonista do livro? Não, não é Nemo! Na verdade, ao longo de toda a estória, nós descobrimos quase nada sobre ele. Nemo é um personagem estático, ou seja, o tipo de personagem que quase não muda, se sequer muda alguma coisa.

E o Dr. Pierre (o “protagonista” da estória)? O que ele faz ao longo do livro? Como ele muda? Que grandes momentos ele passou? Como ele mudou filosoficamente ao longo da estória? E mais importante: quem liga?

Eu não li 20.000 Léguas Submarinas pelo Dr. Pierre, nem por seus companheiros ou até mesmo pelo próprio Nemo, eu leio pelo mundo submarino que Júlio Verne criou: caçadas a tubarões, um passeio por Atlântida, batalhas contra lulas gigantes, engenharia maluca… e isso é a superfície!

Agora pense nos livros de Agatha Christie: Hercule Poirot é legal, Senhorita Marple é divertida, mas é realmente por eles que você abre um livro de Christie? NÃO! É pelo mistério! Pelos métodos insanos de assassinato! Planos simples em suas complexidades! Conspirações! Traição! Terras exóticas!

Agora pense no mundo fantástico de “Senhor dos Anéis”, nos comentários sociais de Machado de Assis, nos temas de “O Conto de Aia”, as vezes o leitor só quer saber mais sobre um mundo fantástico criativo. Como é o caso de histórias alternativas como “O Homem do Castelo Alto” ou observar o brilhante Sherlock Holmes ligando peças aparentemente desconexas numa rica e fascinante tapeçaria de deduções e conclusões.

Personagens são uma parte vital de todas essas narrativas, mas eles não são tudo! E nem sempre eles precisam ser o astro do show!

Lembre-se disso quando for iniciar seu próximo projeto.

Espero que seja útil, agradeço a atenção e até a próxima leitura!

Nota: quer me ver usando esses princípios na prática? Dá uma olhada no meu livro, *O Segredo na Torre!*


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