Flores solidárias
Eu tenho por elas uma admiração discreta, distante, sem chamegos. Do tipo que não busca intimidades… uma apreciação que se satisfaz com…
Flores solidárias

Eu tenho por elas uma admiração discreta, distante, sem chamegos. Do tipo que não busca intimidades… uma apreciação que se satisfaz com encontros casuais. Ontem era pra ser assim, mas não foi. Elas não estavam num jardim, não estavam na janela de uma casa, nem adornavam uma mesa para um momento especial. Ontem elas estavam num recipiente parecido com uma jarra, feio, sem graça, sem atrativo. Eram muitas, aglomeradas dentro daquela coisa, no entorno da urna onde jazia o corpo sem vida do meu amigo. Estou falando das flores.
Eram de muitas cores, mas todas em tons pastéis, suaves, como se prestassem reverência a alguém. Noutra circunstância eu talvez fechasse os olhos para inalar seu aroma delicado. Talvez eu procurasse me inteirar sobre elas, quisesse saber seus nomes. Talvez, até, me inspirassem a escrever sobre os encantos da natureza, sobre amizade, sobre delicadezas, sobre poesia… Mas ontem, não. O perfume que exalava pelo interior da igreja era marcante e pesado. Falava de despedida, de saudade, de vazio, de separação. E com essa mensagem se impregnou em mim, foi comigo pra casa, andou comigo pelas ruas…
Eu “não fui com a cara delas”. Detestei imaginar que sempre vou associá-las a este dia tão indesejável. Depois me ocorreu o pensamento de que elas não estavam ali para embelezar, para festejar, tampouco para fazer pouco caso da nossa dor. Assim como todos que lá estávamos, elas queriam honrar a memória do meu amigo; dar apoio e leveza àquele ambiente marcado pela tristeza; demonstrar empatia, levar solidariedade e conforto à família e aos amigos do meu amigo.
Ainda sinto nitidamente o cheiro doce e suave daquelas flores. Ainda as enxergo na composição daquele cenário. E não sei se gosto disso ou não. Também não sei que memórias esse cheiro impregnado na minha cabeça poderá evocar em mim daqui a uns tempos. Tudo que sei é que ontem foi um dia extremamente difícil de ser vivido. E que nem as flores com seu delicado aspecto e aroma conseguiram suavizar a dor e o aperto que sinto dentro de mim. Mas, como se diz por aí: a morte é o outro lado da vida. Sigamos.
M. C.— 27.03.2024
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