← Back to list

Um

Se o zero é esse círculo perfeito da loucura, fiquei pensando nas propriedades do zero. A indivisibilidade… é como se fosse um tudo e nada…

Marcely Costa · 2025-05-05 15:03 · 1 claps · 2.2 min read
#individualidade
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🔓 · Open Source

Um

Photo by Rishabh Pandoh on Unsplash

Photo by Rishabh Pandoh on Unsplash

Se o zero é esse círculo perfeito da loucura, fiquei pensando nas propriedades do zero. A indivisibilidade… é como se fosse um tudo e nada ao mesmo tempo, como as barrigas redondas que criam vidas. Do zero. E a indivisibilidade me faz pensar nesse desejo harmônico de um todo sem dissonância, quem dera. Tudo nada, todos eu, eu todos, tudo nós, nós nada. Desse desejo precede muito mal, com certeza os totalitários anulantes… não quero ser um deles.

Talvez eu queira exatamente o contrário, mas é assim, de fato com essas coisas paradoxais. Às vezes zero, às vezes um. Minha psiquiatra dizia “tudo ou nada”… Não sei por que dizem também 8 ou 80, de onde saiu o número oito. É por causa do símbolo do infinito? De qualquer forma, enquanto olhava minhas mãos, como todo mundo olha as próprias mãos, enquanto pensava na nulidade, notei minhas digitais, e fui do zero ao um. Às vezes as pessoas falam demais nesse enredamento de ideias que criamos. É sempre: nós, todos, as pessoas, deveriam… Eles dizem: todo mundo passa por isso. Estamos todos tentando. TODOS. E pedem demais para que ouçamos. Não quero mais ouvir. Quero falar, fincar minhas unhas nessa unanimidade, enterrar minhas digitais, proteger minha caixa craniana de ser tudo. Sabe do que tenho raiva? Dessas frases que Todo Mundo diz. Por exemplo: que somos lagartas nos tornando borboletas, o enaltecimento do horrível, de alguma frase de efeito como uma cobertura de glacê doce, doce, sobre a caixa de papelão. Ah mas vamos fazer o quê? Desistir? Ser feios? Ser horríveis? Ser intragáveis? Chorar? Gritar? Entrar em pânico? Sei lá, eu digo, qualquer coisa menos generalizante, menos açucarada, menos falsa, menos diluente, menos irritante. Deixe a caixa de papelão ser papelão. Deixe a dor ser dor e não lagarta. Essa necessidade de cosmetizar, de filtrar, de embelezar é mais insuportável que a própria dor.

Cansei de melhorar minhas taxas de ferro, tomar antidepressivos, fazer terapia e me exercitar e pensar assim e assado e resolvi simplesmente chorar mesmo, parar, sem ajuda glacê, sem uma opinião filtro, só eu e minha boca, meus olhos, minhas digitais. Quando eu consigo me desenredar e vou pra fora e choro os gatos parecem gostar. Enquanto chorava, o Tom ficou girando de barriga pra cima, esfregando a cabeça. Quando sentei na varanda para olhar as árvores e minhas digitais e pensei: agora quem diz sou eu, o Thanatos veio embaixo da cadeira e miou carinhosamente.

Tem algo que os animais sabem, e alguns de nós tristes sabemos que eles sabem, por isso os buscamos. É algo no silêncio desenredado, um corpo firme desafiante, um tudo e um nada, sem filtro, sem glacê, a lagarta come, a borboleta voa, a onça deita nos galhos de uma árvore, as pintas como digitais, e nada de metamorfosear as dificuldades ou de dizer nós, se há amor — e há –, ele é evidentemente uma coisa toda outra, é o oposto de dizer “todos nós…”, “todo mundo…”, essa coisa, essa massa anulante. Quando um animal aparece o corpo tenro e pesado diz com toda certeza: eu e você somos uma unidade maciça.


메타데이터
post_id
5a4f17d8fa0d
slug
um-5a4f17d8fa0d
url
https://medium.com/@marcelycosta/um-5a4f17d8fa0d
canonical_url
https://medium.com/@marcelycosta/um-5a4f17d8fa0d
author_url
https://medium.com/@marcelycosta
status
ok
fetched_at
2026-06-21 19:25:17