6 ARGUMENTOS QUE JUSTIFICAM O ATEÍSMO COMO A MELHOR POSIÇÃO
Por Guilherme Natividade
6 ARGUMENTOS QUE JUSTIFICAM O ATEÍSMO COMO A MELHOR POSIÇÃO
Por Guilherme Natividade

O ateísmo é a posição ideológico-filosófica mais lógica e racional. Mais do que isso, é uma conclusão do óbvio — que sempre precisa ser dito e reafirmado. E, neste texto, apresento os seis melhores e principais argumentos que justificam, embasam, sustentam e fundamentam o ateísmo enquanto concepção de mundo.
- O PROBLEMA DO MAL
Esse argumento desconstrói a ideia de uma divindade simultaneamente caracterizada como onipotente, onipresente, onisciente e onibenevolente, mediante o paradoxo desenvolvido como um dilema lógico pelo filósofo grego Epicuro de Samos.
Fato é que o mal existe. Ainda que bem e mal sejam conceitos bastante relativos, podemos definir o segundo como toda e qualquer ação ou reação que cause prejuízos e danos a algo ou alguém. Porém, mais do que isso, males desnecessários existem, isto é, malefícios sem causalidade direta e evidente e sem propósitos aparentes e consistentes. Exemplos desses males são bebês puros e inocentes que nascem com uma deformação física ou com alguma doença degenerativa grave e sem cura, ou mesmo catástrofes naturais que não foram motivadas por ações humanas.
Nesse sentido, se o mal existe em um mundo supostamente criado por um hipotético deus onipotente, onipresente e onisciente, significa que essa divindade possui pleno conhecimento da maldade, presencia suas ações no planeta e, mesmo detendo poderes ilimitados capazes de acabar com todo o mal, não toma nenhuma ação no sentido de impedir ou evitar que esses males ocorram. Desse modo, conclui-se que esse deus permite o mal, é conivente com sua existência e não empenha esforços para pôr fim a ele. Logo, não é um ser maximamente bondoso, amoroso, justo e misericordioso.
Por outro lado, se o mal existe em um mundo supostamente criado por um hipotético deus onibenevolente, onipotente e onisciente, significa que essa divindade maximamente bondosa possui pleno conhecimento da existência da maldade e capacidade absoluta para acabar com ela, mas não presencia o mal ocorrendo, visto que ele só ocorreria na ausência do bem — que é representado pelo próprio deus. Desse modo, conclui-se que, se o mal ocorre onde deus está ausente, essa divindade não é onipresente, não estando em todos os lugares ao mesmo tempo.
No entanto, se o mal existe em um mundo supostamente criado por um hipotético deus onibenevolente, onipotente e onipresente, significa que essa divindade maximamente bondosa possuiria capacidade absoluta para acabar com o mal, porém não teria pleno conhecimento de sua existência. Desse modo, conclui-se que esse deus não é onisciente, não sabendo exatamente tudo o que ocorre em todos os cantos do planeta. E, para que não seja onisciente, esse ser também não poderia ser onipresente.
Porém, se o mal existe em um mundo supostamente criado por um hipotético deus onibenevolente, onipresente e onisciente, significa que essa divindade maximamente bondosa possui pleno conhecimento da existência da maldade e a presencia a todo momento, mas não tem capacidade de acabar com o mal, apesar de desejar muito isso. Desse modo, conclui-se que esse deus possui necessidades e limitações, não sendo um ser todo-poderoso. E é aí que reside o grande ponto desta argumentação filosófica.
Imagine que deus criasse uma matéria tão pesada que ele não pudesse erguer, ou inventasse um inimigo que não fosse capaz de derrotar. Pois bem, sendo ou não capaz de realizar tais ações, incorreríamos em um paradoxo dessa onipotência. Deus não poderia criar algo que incapacitasse seus poderes, bem como não poderia ter seus poderes incapacitados. E a mesma lógica vale para o mal e o tal "diabo", diante dos quais esse deus ou não pode ou não quer derrotá-los.
Para existir um ser capaz de criar o Universo, o espaço-tempo, a natureza e os seres vivos que nele habitam, ele deve necessariamente ser uma entidade omni, isto é, de máxima e absoluta grandeza. E, se deus não pode ter pleno conhecimento sobre o mal existente em sua própria criação, presenciar a prática do mal ou mesmo acabar com esse mal, essa divindade não é onipotente. Não sendo onipotente, deus não seria um ser de máxima e absoluta grandeza capaz de criar algo tão gigantesco e complexo como toda a existência cósmica. Pois, se essa divindade não é capaz de eliminar algo contingente ao cosmos, como poderia projetar a complexidade desse próprio sistema?
Poderíamos ainda adentrar no âmbito moral e apontar que, de acordo com a própria Bíblia, foi deus quem criou o mal e as trevas (Isaías 45:7), assim como tudo o que existe. Mas isso apenas descartaria a onibenevolência divina e injustificaria uma adoração e devoção a um suposto criador imperfeito, maldoso ou conivente com a maldade. Pois, se o mal é um resultado do "pecado" que adentrou no mundo e das falhas dos próprios humanos, significa que deus permitiu a entrada do pecado em seu universo e projetou criaturas falhas, pecaminosas e imperfeitas. Ou seja, o plano inicial de deus era a queda da humanidade, ou sua própria criação alterou seus verdadeiros planos.
O mais lógico e racional é, portanto, aceitar a inexistência divina mediante as contradições, incoerências e inconsistências dessa ontologia paradoxal.
2. O OCULTAMENTO DIVINO
Se a existência de deus fosse um fato absoluto e irrefutável, essa divindade deveria ser evidente e aparente, dispensando a necessidade de crenças. Mas, pelo contrário, o objeto central da hipótese teísta, que se sustenta apenas pela fé, é oculto, abstrato, invisível e intangível e, portanto, não pode ser observado, medido, verificado ou mesmo submetido a testes. E, sendo inobservável, imensurável, inverificável e intestável, essa hipótese é invalidada e descartada.
Repare que existem (e já existiram) milhões de religiões em todo o planeta, cada uma idealizando divindades distintas, entre monoteístas e politeístas. Só o cristianismo possui cerca de 47.300 denominações, havendo conflitos e divergências entre essas vertentes. Se deus fosse um dado realístico, não faria o menor sentido meramente crer, ter necessidade de "fé" em sua existência e presença. Uma divindade verdadeiramente real resultaria em uma gnose (conhecimento) unânime por parte de suas criaturas, não havendo a menor possibilidade de essa deidade não existir. Sendo assim, os próprios conceitos de teísmo e ateísmo não fariam sentido, visto que uma realidade factual dispensaria as concepções de crença e descrença na hipótese.
Um deus evidente teria e manteria contato direto, concreto, literal e objetivo com sua criação. A revelação divina seria uma evidência, e essa deidade seria acessível a todos que a seguissem. Não haveria margem para dúvidas, negações ou suposições sobre a ontologia desse deus e de suas características. Poderia ser que muitas pessoas não tivessem devoção e adoração a essa divindade, mas sua existência seria tão evidente e clara que não seria possível questioná-la ou não reconhecê-la. Porém, mediante o ocultamento, a hipótese da existência de deuses ainda requer evidências concretas que a corroborem.
3. O ÔNUS DA PROVA
O astrofísico e astrônomo Carl Sagan dizia que "alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias". Logo, aqueles que inicialmente fizeram tais afirmações são os que detêm o ônus de apresentar evidências que as confirmem.
Os teístas costumam inverter o ônus da prova, passando aos ateístas a responsabilidade de comprovar a inexistência de deuses. Mas o ônus da prova é e sempre será de responsabilidade teísta, visto que foi o teísmo que, primordialmente, impôs a ideia de deuses. O ateísmo nada mais é do que uma rejeição a essa ideia, isto é, um contraponto, uma objeção ao teísmo. Não cabe provar que algo não existe, ainda mais se a hipótese central não partiu de quem a rejeita. Além disso, a falta de evidências, ou de mínimos indícios, da existência indica a inexistência.
Se um indivíduo X afirmar a um indivíduo Y que mantém um dragão de três cabeças como animal de estimação no quintal de sua casa, não caberá ao indivíduo Y, que duvidou e rejeitou essa alegação extraordinária, provar que o dragão não existe. A responsabilidade de evidenciar que o suposto dragão é de fato real cabe exclusivamente ao indivíduo X, que inicialmente fez a afirmação. Caso ele não possa comprovar sua "verdade" com evidências concretas, ou mesmo fornecer mínimos indícios que indiquem a veracidade de sua tese, a rejeição do indivíduo Y possuirá maior peso lógico e racional, visto que a alegação do indivíduo X carece de fontes e é bastante improvável. Do mesmo modo, ninguém possui provas da inexistência de outros seres da mesma natureza dos deuses, como fadas, duendes, gnomos, vampiros, unicórnios e lobisomens.
Portanto, o ônus da prova é de propriedade exclusivamente teísta. O ateísmo só existe por ser uma antítese à hipótese teísta, que jamais foi fundamentada empiricamente. Não cabe aos ateístas evidenciar como falso o que o teísmo anteriormente impôs como verdadeiro. Ainda mais considerando que a hipótese teísta parte de um objeto que, por ser inobservável, imensurável, inverificável e intestável, não pode ser cientificamente corroborado ou refutado.
4. O ERRO NA APOSTA DE PASCAL
Segundo a Aposta de Pascal (tradicional argumento teísta), se deus não existir, teístas e ateístas não terão nada a ganhar nem a perder. Porém, se deus existir, somente teístas terão a ganhar, e ateístas, tudo a perder. Trata-se de um argumento apelativo que objetiva sustentar uma crença visando uma hipotética recompensa futura e temendo igualmente uma hipotética punição eterna.
O erro dessa aposta já está em sua premissa: deus. Como há a concepção de milhões de divindades em todo o mundo, caso exista um deus que não seja o judaico-cristão (Yahweh), todos os cristãos têm muito a perder por não terem seguido os mandamentos e adorado a divindade verdadeira. E o mesmo vale para teístas de outras denominações religiosas que não tenham aceitado a deidade correta.
Por outro lado, caso não exista nenhum deus, todos os teístas terão perdido. Primeiramente, terão perdido o debate milenar para o ateísmo, evidenciando que essa sempre foi a melhor e verdadeira posição. E, segundamente, terão perdido o tempo de suas vidas seguindo e praticando doutrinas de religiões falsárias, em prol de mitos inexistentes e imaginários.
Portanto, a Aposta de Pascal é uma mera aposta no escuro. A chance de os cristãos de uma vertente específica, em particular, ganharem algo é praticamente a mesma de os ateus perderem tudo.
5. O DILEMA MORAL
Os religiosos concebem que a religião determina caráter e é a base moral de uma sociedade civilizada. Mas esse argumento, principalmente aplicado às religiões hegemônicas do planeta (cristianismo, judaísmo e islamismo), não se sustenta racionalmente.
Ora, o cristianismo foi a ideologia que mais matou e promoveu atrocidades na história da humanidade, considerando desde o período de colonização e escravidão transatlântica, passando pelas santas inquisições católicas e chegando até a Idade Contemporânea. O judaísmo, por sua vez, atualmente promove um genocidio a céu aberto contra palestinos na Faixa de Gaza, a partir do Estado judeu, sionista e invasor de Israel. Já o islamismo é uma mitologia terrorista que possui uma série de grupos radicais, extremistas e fundamentalistas que praticam atentados em vários cantos do planeta.
Religião não define caráter — muito pelo contrário. Ao longo da história, religiosos perseguiram, torturaram e mataram uns aos outros, além de seus inimigos, em nome de seu deus e de sua fé, promovendo guerras santas, conflitos bélicos e ditaduras sanguinárias e totalitárias no mundo inteiro. Em contrapartida, não se tem registros significativos de atrocidades cometidas por ateus — principalmente militantes — especificamente em nome do ateísmo. O que vemos, na realidade, são presídios superlotados de pessoas crentes e tementes a deus — boa parte delas líderes religiosos — , não havendo quase nenhum ateísta condenado e preso pelo cometimento de crimes hediondos.
Atualmente, os países mais desenvolvidos, mais pacíficos, mais livres, com melhor qualidade e expectativa de vida e maior IDH são os mais laicos e que possuem populações de maioria não religiosa e grande parcela de ateus. Em contrapartida, as nações menos desenvolvidas, mais violentas, com pior qualidade e expectativa de vida e menor IDH são, de modo geral, teocracias e Estados confessionais que possuem maioria religiosa e forte influência da religião na vida pública. Portanto, onde estão esses supostos "benefícios" da fé para a sociedade?
Crença ou descrença em divindades, assim como religiosidade ou irreligiosidade, não são fatores determinantes de caráter e moralidade. A fé em deuses e a devoção religiosa não impedem que muitas pessoas pratiquem atos contra a humanidade, principalmente com base em suas cosmovisões teístas. E os ateístas não necessitam de doutrinas místicas para serem boas pessoas e praticarem o bem sem esperar por uma suposta salvação ou temer um suposto castigo divino num hipotético cenário pós-morte.
6. A NECESSIDADE DIVINA
Para um deus existir, ele deve ser uma entidade necessária. Em suma, a necessidade da existência de um ser criador é efetuar a criação. Contudo, se um suposto deus criou toda a existência, incluindo o espaço-tempo, onde estava (espaço) essa divindade no exato momento (tempo) em que ele teria efetuado essa ação? Quem o criou? E qual é seu estado atual? Perceba como é impossível conceber uma realidade espacial sem espacialidade e temporal sem temporalidade. Logo, deus não poderia ser aespacial e atemporal, sendo, no entanto, um ser contingente de uma determinada realidade, não necessário.
Não obstante, se a Bíblia é a palavra objetiva de uma divindade eterna e imutável, ela não pode ser passível de contextualizações, traduções e interpretações, muito menos apontada de forma anacrônica. Uma leitura relativa, interpretativa e atualizada dos textos bíblicos implica em mutabilidade e anacronismo da palavra de um ser de máxima e absoluta grandeza. Ou seja, tudo o que está escrito na Bíblia é literal e aplicado a todos os tempos, ou essas escrituras são um retrato de um período específico, não sendo cabíveis aos dias atuais.
Por fim, se é possível conceber um cenário de mundo onde deuses não existem, isso faz com que não haja necessidade de uma divindade existir. Ora, o Universo está aí, de forma evidente (não oculta), para quem quiser e puder observá-lo. Logo, deus necessariamente não existe.
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