Bruegel no avião
No início de abril, embarquei em um voo de João Pessoa para Guarulhos, sentei ao lado da janela para apreciar a vista que expõe a nossa…
Bruegel no avião

Pieter Bruegel, o Velho. Ceifeiros, 1565, óleo sobre painel. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.
No início de abril, embarquei em um voo de João Pessoa para Guarulhos, sentei ao lado da janela para apreciar a vista que expõe a nossa insignificância e brevemente desmonta a ilusão humana de um suposto sentimento de grandeza. Sentada ao meu lado estava uma dupla modesta, um senhor e uma senhora que aparentavam estar nos seus 70 anos. Seus rostos envelhecidos estampados por manchas de sol e esculpidos em rugas revelaram para mim uma existência dura. A senhora sentou ao meu lado, olhou na minha direção e disse: “É minha primeira vez andando de avião.” Eu sorri, perguntando de onde ela vinha. “Mato Grosso”, respondeu. “Vim de ônibus, mas vou voltar de avião.” Eu perguntei se ela preferia a janela aberta ou fechada. “Feche. tenho medo de olhar pro mundo lá em baixo”.
O avião decolou, abri meu tablet, coloquei fones de ouvido e comecei a assistir uma palestra sobre Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525–1569), pintor flamengo conhecido por suas paisagens e por seu interesse em retratar pessoas comuns e a vida cotidiana. Com minha visão periférica percebi o olhar da senhora fixado na minha tela. Antes mesmo de acabar o vídeo ela virou pra mim e sussurrou algo que eu não entendi, tirei o fone e disse: “Oi, pode repetir?” Olhando para o tablet ela disse: “Bonitas essas ilustrações”. A partir dessa demonstração de interesse, fiz uma breve introdução sobre Bruegel, tentando me desfazer de todo o academicismo e jargões fúteis. Fiquei interessada em saber o que tinha chamado a atenção dela e perguntei o que ela tinha gostado nas pinturas. Minha cabeça de historiadora da arte se antecipou e pensei que a resposta estaria nos cenários, nas cores e no realismo. E eu não poderia estar mais enganada. Com um ar de orgulho, a senhora disse: “Eu faço o mesmo trabalho que eles [camponeses] na roça”. Virou para o marido e falou com um tom de entusiasmo: “Olha, igualzinho à gente”.
Fui pega de surpresa, ao mesmo tempo que compreendia que a potência da arte reside nesses cenários improváveis, relações impensáveis, onde os camponeses do século 16 de Bruegel vão ao encontro de um humilde casal de agricultores em um avião no ano de 2023.

Pieter Bruegel, o Velho. A primavera, 1565, desenho. Albertina, Viena.

Pieter Bruegel, O Velho. O casamento camponês, 1567, óleo sobre tela. Kunsthistorisches Museum, Vienna.
메타데이터
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