Sd. John
09
Sd. John
09

Dizem que geralmente se sabe quando a data de sua morte se aproxima; dizem que você sente, dizem que você simplesmente sabe o que está por vir… Bem, eu sabia disso desde o início, que estamos marcados para morrer, mas nunca me senti tão perto da morte como agora, rodeado de amigos, pessoas que estarão para sempre ao meu lado. A missão era apenas proteger e, bem, numa missão dessas você não sabe exatamente o que está por vir.
Éramos jovens e achávamos que tínhamos uma vida inteira pela frente, repleta de festas, mulheres e bebedices. Eu sequer tinha feito todo o planejamento que tinha montado para coisas que queria conquistar antes de morrer, até porque você nunca sabe… até que aconteça com você!
Acordei e o dia já parecia me dizer algo. Eu pude ver o brilho do sol nascendo; eu sempre gostei do sol, sempre me senti anestesiado por ele, era como se eu pudesse absorver aquela energia em mim. Mas, bem, apenas admirei o dia. Algo me dizia que eu deveria aproveitar cada segundo. Meus companheiros de combate haviam se despedido de suas esposas, assim como eu de manhã, tendo a certeza de que voltaríamos assim que a missão acabasse. E a missão era apenas mais um dia de trabalho salvando vidas — esse era o nosso lema — e eu cantei várias vezes que morreria pela corporação, mas nunca imaginei que o fim estivesse tão próximo.
Por um tempo, um grande filme passou na minha cabeça; creio que na de meus colegas também. A primeira vida salva, o recrutamento odioso que tivéramos, lembrei-me também da minha professora do ensino fundamental que me ajudou a descobrir dons que eu nem sequer sabia que tinha; da primeira namorada; de como eu ficava envergonhado quando recebia um elogio; de como foi horrível a minha primeira vez; de quando ganhei a aposta de que levaria a mais gostosa da turma pra cama e falhei bem na hora em que mais precisei de mim mesmo; lembrei de como contei pros meus amigos que fiz isso e aquilo que só ficou na minha mente; lembrei de quando meu pai me levou para jogar bola pela primeira vez — éramos somente eu e ele. Eu era pequeno, mas já tinha habilidades. Ele ria e me ajudava sempre, e sempre me fazia sentir campeão, embora muitas vezes quem ganhasse fosse ele. Lembro de como era divertido olhar para mim mesmo no espelho, ensaiando como eu iria apresentar um trabalho, e depois achei engraçado como a mente viaja e volta no tempo para depois avançar, tudo de uma só vez.
Nunca fui do tipo religioso, mas sempre acreditei em Deus. Sempre fui um cara na minha e nunca gostei de chamar atenção. Gostava de escrever histórias e me via como um herói. Sempre soube que tudo isso me levaria até aqui: eu seria o cara que se sacrifica no fim do filme.
Meus companheiros me olham com aquela cara de “o que faremos?”, mas até eles mesmos sabem que não há nada que se possa fazer na altura em que estamos, presos nessa ilha que, em tão breve espaço de tempo, virá a explodir e nos levar juntos rumo ao desconhecido. Vejo alguns segurando as lágrimas e outros jurando que irão voltar para casa, mas sabemos todos nós que não há mais volta. Essa é a hora de avançar; a hora de virar a chave; a hora de vencer tudo isso.
Eu olho para as minhas mãos e me lembro de minha mãe, que sempre tivera mãos boas para fazer qualquer tipo de comida. Ela realmente era a mulher mais encantadora que eu conhecera e todos gostavam dela. Ela era basicamente a minha inspiração de como ser forte sem perder a suavidade. Lembrei dela na cozinha fazendo aquele bolo de fubá que só ela sabia fazer e me chamando para tomar café. Desde menino eu sempre gostei de tudo que ela cozinhava. Lembrei-me de como meu pai sentava em sua cadeira de balanço, sem camisa e lendo seu jornal. Ninguém podia atrapalhar, passar na frente ou sequer falar com ele naquele momento. Mas eu sabia que, dentro de mim, eu era igualzinho a ele. Lembro que também sento da mesma forma em uma cadeira de balanço.
Talvez, se meus pais me vissem agora, sentiriam orgulho de quem sou, do rapaz que me tornei, do homem que sou… Infelizmente a fragilidade da velhice os levou e me deixou só. Eu queria ter tido um filho. Queria ter passado para ele todas as coisas que só eu sabia; todas as coisas que meu pai falava comigo em secreto; sentar em algum lugar e beber junto; ensinar a como ser um homem. Eu queria ter tido essa oportunidade, mas sempre achei que amanhã seria o melhor dia. Eu sempre achei que haveria um amanhã — afinal de contas, eu sou jovem e, como jovem, nunca fui de pensar tanto no futuro.
Escolhi salvar vidas porque isso fazia de mim um herói. Me lembro de ter visto o Superman nos cinemas, e isso sempre ficou na minha mente: eu queria ser o cara que salva o dia. E, de fato, sou, de certa forma. Eu serei lembrado, porque isso jamais será esquecido: o evento mais marcante do nosso estado até aqui. Talvez eu apareça em um livro de história ou outro por aí, sendo condecorado como mártir. Porém, o que me importa agora é relatar meus últimos segundos de vida…
A hora está chegando e eu sei que ela não tardará. Abraço meus amigos de farda e choro com eles — um choro de vitória, um choro só nosso — enquanto nos preparamos para doar nossas vidas nessa missão tão esperada. Faz uma hora, mais ou menos, que percebemos que não há outro jeito e que iremos morrer em breve. E então todos os pensamentos começam a rodar e rodar na mente: pensamentos de tristeza, felicidade, ruína e muita condolência. Será que, além de minha irmã e meu irmão, alguém vai sentir falta de mim? Alguém vai falar de mim um dia? O que me dava certeza agora é só uma hipótese… Eu não sei mais o que fazer. Então nos posicionamos e nos preparamos para o fim…
Dizem que você sente dor; meu maior medo era sentir dor, então eu simplesmente escolhi não sentir mais nada.
A explosão começa e, em alguns segundos, uma luz brilhosa paira na minha frente e, nela, um novo filme passa diante de mim. E, de uma hora para outra, me lembrei de tudo!
Meus companheiros caem um a um, se escondendo do dano inevitável, e eu escolho apenas me render, dessa vez, ao maior espetáculo da vida. Então fecho meus olhos e me permito ir, porque não há mais nada a fazer.
No chão sou eu e meus companheiros, amigos para todo o sempre, guerreiros que levei comigo para toda a vida; homens leais que deram suas vidas como eu dei a minha; pais que nunca mais verão seus filhos; maridos que nunca mais beijarão suas esposas — mas heróis reais, vivos para todo o sempre…
메타데이터
- post_id
- 5c8a85521a83
- slug
- sd-john-5c8a85521a83
- url
- https://medium.com/@suasverdades/sd-john-5c8a85521a83
- canonical_url
- https://medium.com/@suasverdades/sd-john-5c8a85521a83
- author_url
- https://medium.com/@suasverdades
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-19 20:47:15