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Habitualmente contemplamos no espelho da alma alheia a nossa própria imagem

Obra de Chico Xavier, datada de 1957, denominada VOZES DO GRANDE ALÉM, por espíritos diversos, dentre eles André Luiz, José Xavier, Meimei…

Marcussi · 2025-07-31 10:41 · 0 claps · 28.5 min read
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Habitualmente contemplamos no espelho da alma alheia a nossa própria imagem

Obra de Chico Xavier, datada de 1957, denominada VOZES DO GRANDE ALÉM, por espíritos diversos, dentre eles André Luiz, José Xavier, Meimei, Irmão X, Raimundo Teixeira, Efigênio S. Vitor, F. Labouriau, M. Silva, P. Comanducci, Anália Franco, Caírbar Schutel, Batuíra, Hilda, Luís Alves, Emmanuel, Meimei, Alberto Seabra

F. Labouriau, A. Ferreira, Antônio Sampaio Júnior, F. Cunha, R. S., Maria da Conceição, Sebastiana Pires, Casimiro Cunha, Amadeu Amaral, José Inácio Silveira da Mota, Cerinto e P. Brandão, dentre outros, da qual extraímos os seguintes excertos:

A ideia é um elemento vivo de curta ou longa duração que exteriorizamos de nossa alma e que, exprimindo criação nossa, forma acontecimentos e realizações, atitudes e circunstâncias que nos ajudam ou desajudam, conforme a natureza que lhe venhamos a imprimir. Força atuante — opera em nosso caminho, enquanto lhe asseguramos o movimento. Raio criador — estabelece atos e fatos, em nosso campo de ação, enquanto lhe garantimos o impulso. Expressa flor ou espinho, pão ou pedra, asa ou algema, que arremessamos na mente alheia e que retornarão, inevitavelmente, até nós, trazendo-nos perfume ou chaga, suplício ou alimento, cadeia ou liberdade.

O crime é uma ideia-flagelação que não encontrou resistência.

Na manjedoura, implanta o Mestre a ideia da humildade. Na carpintaria nazarena, traça a ideia do trabalho. Nas bodas de Caná, anuncia a ideia do auxílio desinteressado à felicidade do próximo. No socorro aos doentes, cria a ideia da solidariedade. No sermão das bem-aventuranças, plasma a ideia de exaltação dos valores imperecíveis do espírito sobre a exaltação passageira da carne. No Tabor, revela a ideia da sublimação. No jardim das Oliveiras, insculpe a ideia da suprema lealdade a Deus. Na cruz da renunciação e da morte, irradia a ideia do sacrifício pessoal pelo bem dos outros, como bênção de ressurreição para a imortalidade vitoriosa.

Nos mínimos lances do apostolado de Jesus, vemo-lo associando verbo e ação no lançamento das ideias renovadoras com que veio redimir o mundo. Não nos esqueçamos de que nossos exemplos, nossas maneiras, nossos gestos e o tipo de palavras que cunhamos para uso de nossa boca, geram ideias, que, à maneira de ondas criadoras, levantando-nos para o triunfo, ou impulsionando-nos para a derrota.

Evitemos o calão, a queixa, a irritação, o apontamento insensato, a gíria deprimente e a frase pejorativa, não apenas em nosso santuário de preces, mas em nosso intercâmbio vulgar, porque toda expressão conduz à inspiração e pagaremos alto preço pela autoria indireta do mal. É indispensável viver à procura do Cristo, para que a ideia do Cristo viva em nós. O mundo está repleto de braços que agridem e de vozes que amaldiçoam.

Não nos esqueçamos de que o tempo é um empréstimo sagrado e quem se refere a tempo diz oportunidade de ajudar para ser ajudado, de suportar para ser suportado, de balsamizar as feridas alheias para que as nossas feridas encontrem remédio e sacrificarmo-nos pela vitória do bem, para que o bem nos conduza à definitiva libertação.

As almas que partem podem retratar as que ficam, assim como as almas que ficam podem retratar as que partem. Estamos inevitavelmente ligados a tudo o que nos merece amor. Essa lei é inderrogável em todos os planos do Universo. Habitualmente contemplamos no espelho da alma alheia a nossa própria imagem, e, por esse motivo, recolhemos dos outros o reflexo de nós mesmos ou então aquela parte dos outros que se harmoniza com o nosso modo de ser.

Sentimentos e ideias, palavras e atos são recursos íntimos de transformação e purificação da nossa esfera vibratória, de conformidade com a direção que lhes imprimimos, tanto quanto as dores e as provas, as aflições e os problemas são fatores externos de luta que nos impelem a movimento renovador. Ouvindo os desencarnados em lutas de consciência, permaneceis navegando nas águas da advertência. Tantos náufragos em treva, sem clarão que os reconforte, são apelos da verdade, gritando no mar da morte.

Mães da Terra, educai vossos filhos! Afagai-os no carinho e na retidão, na justiça e no bem. Uma criança no berço é um diamante do Céu para ser burilado. Lembrai-vos de que o próprio Deus, em conduzindo à Terra o seu Filho Divino, Nosso Senhor Jesus-Cristo, fê-lo nascer numa estrebaria, deu-lhe trabalho numa oficina singela, induziu-o a viver em serviço dos semelhantes e permitiu que Ele, o Justo, fosse imerecidamente imolado aos tormentos da cruz.

Não critiques. A lâmina de nossa reprovação volta-se, invariavelmente, contra nós, expondo-nos as próprias deficiências.

Minhas filhas, visitadas por minha presença, não assinalavam, de modo algum, qualquer pensamento meu, porquanto se encontravam profundamente engolfadas na ideia da herança. Não havia outra recordação para o carinho paterno que não fosse à herança… a herança… a herança… Passei a viver, assim, dentro de casa, a maneira de um cão batido por todos, porque, francamente, não dispunha de outro clima que me atraísse.

Bastou um simples ato de amor, embora constrangidamente praticado, para que minha embaraçosa inquietação encontrasse alívio. É por isso que, trazido à vossa reunião de ensinamento e serviço, sou advertido a contar-vos minha experiência dolorosa e simples, para reafirmar-vos o imperativo de sermos espíritas pelo coração e pela alma, pela vida e pelo entendimento, pela teoria e pela prática, porque em verdade, como espíritas, à luz do Espiritismo Cristão, podemos e devemos fazer muito na construção sublime do bem.

Não nos esqueçamos da advertência de nosso Divino Mestre no versículo 41, do capítulo 26, das anotações do apóstolo Mateus: “Orai e vigiai, para não entrardes em tentação.” Desempenhando pacificamente as nossas obrigações, evitaremos as deploráveis ocorrências da autoflagelação, em que quase sempre nos submergimos nas trevas do suicídio indireto, com graves compromissos.

Guardemo-nos, assim, na humildade e na tolerância, cumprindo nossos deveres para com o próximo e para com as nossas próprias almas, porque o julgamento essencial daqueles que nos cercam, em verdade, não nos pertence.

Os gemidos no reino da alma não são diferentes dos gemidos nos domínios da carne. E dói-me o coração reparar as filas imensas de necessitados e de aflitos a se movimentarem depois do sepulcro, entre a perturbação e a enfermidade, exigindo assistência. É por esta razão, hoje reconhecemos, que acima do remédio do corpo temos necessidade de luz no espírito.

Tenho amargado, através de todos os processos imagináveis, as consequências do meu crime. Tenho sido um fantasma, desprezado em toda parte, sorvendo o fel e o fogo do arrependimento tardio. Somente agora, ouvindo as lições do Evangelho, consegui acender em minh’alma leves fagulhas de esperança… E à maneira do mendigo que bate à porta do reconforto e do alívio, encontro presentemente um novo caminho para a reencarnação, que, muito breve, me oferecerá a bênção sagrada do esquecimento.

Entretanto, não sei quando poderei encontrar, de novo, meu pai e minha mãe, meu irmão e minha cunhada, credores em meu destino, para resgatar, diante deles, o débito imenso que contraí. Por enquanto, serei apenas internado na carne para considerar os problemas que eu mesmo criei, em prejuízo de minha alma…

Brevemente, voltarei ao campo dos homens, mas reaparecerei, entre eles, sem a graça da família a fim de valorizar o santuário doméstico, e renascerei mudo para aprender a falar. Que Deus nos abençoe.

A Inquisição é um fantasma no tempo e o mundo começa a acalentar, com segurança, preciosos institutos de benemerência e solidariedade humana, contudo, abstende-vos do crime, porque a culpa é assim como a jaula a encarcerar-nos a consciência, da qual somente nos libertamos pela Bondade Inexaurível do Pai Celestial que, desse ou daquele modo, nos concede o ensejo de saldar nossos débitos, ceitil por ceitil.

Reconheço-me ainda como o pássaro vacilante a arrastar-se fora do ninho, movimentando-me qual convalescente em recuperação depois de moléstia longa. Mesmo assim, venho agradecer-lhes as preces com que me ajudam. Recebam todos o meu reconhecimento por essa dádiva de carinho, porque assim como, para apreciar verdadeiramente um remédio, é preciso haver sofrido uma enfermidade grave, para reconhecer, de fato, o valor de uma oração, é necessário haver deixado o corpo da Terra.

A morte arrebatou-me a vestimenta de carne, assim como a faísca elétrica derruba a árvore distraída. Quanto a dizer-lhes, porém, com franqueza, o que me sucedeu, devo afirmar-lhes que, por enquanto, me sinto tão ignorante do fenômeno da morte, assim como, quando estava junto de vocês, desconhecia totalmente o processo de meu nascimento na esfera física. Acordei num leito muito limpo, acreditando-me em casa. O corpo não se modificara.

Em minha imaginação, retomava a luta cotidiana em manhã vulgar… Mas quando vi minha mãe ao pé de mim, quando seus olhos me falaram sem palavras, ah! meus amigos, o meu deslumbramento deve ter sido igual ao do prisioneiro que se vê, repentinamente, transferido de um cárcere de trevas para a libertação em plena luz. Graças a Deus, entendi tudo!… Abracei mãe Antoninha com as lágrimas felizes de uma criança que retorna ao colo materno… Rebentava em mim, naquela hora, uma saudade penosamente sofrida, com muito choro represado no coração.

Ainda nos braços de minha mãe, compreendi que o Espiritismo no caminho humano é assim como a alfabetização de nossa alma para a vida eterna, pois não precisei de argumento algum para qualquer explicação a mim mesmo.

Muitos companheiros são trazidos ao nosso hospital, em terrível situação. Não se alfabetizaram para o continuísmo da existência e sofrem muito, requisitando o concurso de magnetizadores que lhes extraem as recordações, quais médicos arrancando tumores internos de vísceras doentes. Essas recordações projetam-se fora deles para que compreendam e se aquietem. Mas, por felicidade deste criado de vocês, venho tomando contacto com a memorização, muito vagarosamente.

É imprescindível muita precaução para que nosso Espírito, despojado da matéria densa, não penetre de surpresa nos domínios do passado, habitualmente repleto de reminiscências menos dignas, que podem perturbar muitíssimo os nossos atuais desejos.

Nossas vestes, utilidades e alimentos, no plano de recém-desencarnados em que me encontro, embora mais sutis, são aproximadamente análogos aos da Terra. Desfruto hoje a alegria do paralítico que recobrou os movimentos, do cego que tornou à claridade, da criança embrutecida que alcançou o princípio da própria educação… Sinto-me outro, contudo devo afirmar-lhes que a desencarnação exige grande preparo a fim de que seja uma viagem tranquila.

Apesar de tudo, estou renovado e otimista, esperando continuar estudando o Evangelho, para que eu possa transferir-me, do hospital-educandário em que ainda me vejo, para o trabalho ativo, porquanto, aprendendo a viver em regime de utilidade para os outros, cooperarei em favor de mim mesmo.

“Tudo aqui é como aí, mas aí não é como aqui.”

Renascer e renovar são cursos de elevação. Em razão disso, nós temos a lei da reencarnação. A consciência é a lei que te acompanha e espreita, o espelho do Senhor na harmonia perfeita, a desnudar-te a vida em plena luz da morte.

Trouxeram ao recinto o espírito que se deu a conhecer por F. Cunha, cuja mente eclipsada pelo remorso se mostrava inteiramente encarcerada nas teias do crime por ele cometido. Assim procediam para examinarmos as dolorosas condições da alma, como que cristalizada nos meandros da culpa, cerrada sobre si mesma, a reviver, indefinidamente, a lembrança do delito praticado, em lastimável e constante recapitulação.

Diante do Cristo encontra-se o homem à frente da luz do mundo. Antes dele, embora a ciência de Hermes, a filosofia de Sócrates e a religião de Buda, que lhe foram excelsos mensageiros, a vida no mundo era a absoluta dominação da conquista. Tenebrosa noite envolvendo o sentimento, rios de sangue afogando a celebração… Ei-lo, no entanto, que se manifesta no trono da humildade, convidando as Nações à glória da sabedoria e do amor.

Seu programa divino, a espelhar-se no Evangelho que lhe reúne as boas-novas da salvação, preconiza a fraternidade ao invés do egoísmo, a renúncia edificante em vez da posse inútil, o perdão em lugar da vingança, o trabalho com a supressão da inércia, a liberdade, com o olvido da escravidão, e o auxílio à felicidade dos outros, como garantia da própria felicidade.

Durante quinze séculos sucessivos, os religiosos e os políticos, com justas exceções, empenharam-se ao dogmatismo e à violência, à crueldade e à devassidão, à vindita e ao banditismo coroado. Tenho vivido num lago de sangue, de treva, de dor, de angústia, de maldição… Somente agora, depois de muito orar e padecer, ouvi novamente a voz de Dr. Bezerra, o nosso amado benfeitor…

Um novo serviço ser-me-á confiado. Devo, por dez anos, trabalhar nos lupanares e nos gabinetes em que o aborto se transformou em criminoso negócio, no sentido de amparar as jovens irrefletidas e as mulheres desorientadas. Devo evitar que o infanticídio se processe, oferecendo minhas forças para que algum entezinho possa escapar à foice sanguinolenta manejada pela mulher esquecida da própria alma.

Devo servir por dez anos nesse laborioso caminho cujas misérias conheço, para, depois, experimentar, por minha vez, a dor de tantas crianças que as minhas mãos sufocaram!… Rogo preces, para minh’alma sofredora!… Amparai a irmã que caiu!… Minha palavra não tem outro objetivo senão este — implorar a esmola da oração em meu benefício e acordar as mulheres, nossas irmãs, para que não se afastem da Bênção de Deus.

Em verdade é preciso doutrinar para esclarecer. Mas é imprescindível, igualmente, transformar para redimir. Doutrinação que melhore. Transformação que recupere. A teoria prepara. A prática realiza. Ensinando, induzimos. Fazendo, demonstramos. Quem instrui, acende luz. Quem edifica, é a própria luz em si. Hermes, Zoroastro, Confúcio, Sidarta e Sócrates foram grandes e veneráveis instrutores que nos revelaram a senda. Jesus-Cristo, porém, associando lição e exemplo, é o Mestre Amoroso e Sábio que nos ensina a percorrê-la.

Até hoje, ninguém sabe com segurança quantos vieram. Humboldt, estudando a localização das raças na América, admite que, em princípios do século passado, constituíam, na população do Brasil, a parcela de quase dois milhões. Eram arrancadas ao lar como se furtam pássaros ao viveiro. Seduzidos e caçados sem compaixão, reconheciam-se, em breve, desiludidos ou puxados a ferro. Dos porões de navios, chamados tumbeiros, em cujo bojo sofriam a tristeza e a solidão, a peste e a morte, eram trazidos à praça pública e vendidos em leilão à maneira de porcos.

Separados uns dos outros, traídos e seviciados, viam-se espalhados, aqui e ali, como burros de carga. No entanto, formavam o sustentáculo do engenho e do cafezal, do moinho e da mineração, da cidade e do campo. Nenhuma edificação do monumento Brasílio foi começada sem eles, mas por salário, ao martírio silencioso em que se sacrificavam, obtinham somente a senzala e o pelourinho, o flagelo e a humilhação, a algema e o chicote.

Muitas vezes, foram considerados em nível inferior ao dos animais. Por mais de trezentos anos, na condição de cativos, cruzaram o litoral e a montanha, chorando e servindo… Incorporaram-se, desse modo, ao tronco genealógico da família brasileira.

Tu que não possuíste uma pedra onde repousar a cabeça, guia-nos ao desprendimento e à caridade, para que a embriaguez da efêmera posse humana não nos imponha a loucura!… No campo de atividade em que nos situas, por acréscimo de confiança e misericórdia, faze-nos sentir que todos os patrimônios da vida te pertencem, a fim de que a ilusão não nos ensombre o roteiro. Mostra-nos, senhor, que nada possuímos além das nossas necessidades de regeneração, para que aprendamos a cooperar contigo, em nosso próprio favor.

Que a nossa segurança não seja preguiça. Que a nossa simplicidade não seja aparência. Que a nossa caridade não seja interesse. Que a nossa paz não seja frio enregelante. Que a nossa verdade não seja fogo destruidor.

Dá-nos o privilégio de lutar e sofrer em tua causa e ensina-nos a conquistar, pelo suor de cada dia, o dom da fidelidade, com o qual estejamos em comunhão contigo em todos os momentos de nossa vida.

Excelso Benfeitor, estende sobre nós teu olhar compassivo, tu, Senhor, que, enquanto recebias as manifestações de solidariedade e pesar das mulheres piedosas de Jerusalém, pensavas em como haverias de converter a fraqueza de Pedro em resistência e como haverias de levantar o espírito de Judas, nosso irmão!… Ó Senhor, compadece-te, ainda, das cruzes que talhamos, das aflições criadas por nós mesmos e lança do lenho que não merecias o teu olhar de perdão sobre as nossas dores, para que sejamos, ainda, hoje como ontem, aliviados por tuas sublimes palavras:

“Perdoa-lhes, meu Pai, porque efetivamente não sabem o que fazem”.

Sendo o amor, portanto, a raiz de todas as nossas atividades mentais, o pensamento é a base de todas as nossas manifestações, dentro da vida.

A exigência é o pensamento destruidor. O serviço é o pensamento edificante. O trabalho é o pensamento em ação. A preguiça é o pensamento estanque. O respeito é o pensamento nobre. O deboche é o pensamento imundo. O auxílio fraterno é o pensamento que ampara. A ironia é o pensamento que fere.

Despertai as energias mais profundas, enquanto permaneceis nas linhas da experiência física, entesourando o conhecimento e o mérito, através do estudo e da ação que vos nobilitem as horas, porque, possivelmente, amanhã, as questões surgirão mais complexas.

Dever irrepreensivelmente cumprido — ascensão aberta. Trabalho ativo — progresso seguro. Cooperação espontânea — auxílio pronto. Busquemos o melhor para que o melhor nos procure. Avançai, valorosos, enquanto tendes luz.

Admitimos a existência do Inferno que pune os transgressores e acreditamos no braço vingador daqueles que se entregam ao papel de carrascos de quantos se renderam ao sorvedouro do crime. Raras vezes, porém, refletimos nos tormentos que a consciência culpada impõe a si própria, além-túmulo. A morte arranca-nos o véu em que nos ocultamos e ai de nós quando não temos por moldura espiritual senão remorso e arrependimento, vileza e degradação.

Dama vaidosa e influente da Corte de Filipe II, na Espanha inquisitorial, reapareci neste século, de corpo desfigurado, a mergulhar nos próprios detritos, corpo que era simplesmente a imagem torturada de minh´alma, açoitada de angústia e emparedada nos ossos doentes, para redimir o passado delituoso. Durante mais de cinquenta anos sucessivos, por felicidade minha experimentei fome, frio, enfermidade e desprezo de meus semelhantes…

Em toda a existência, como bênção de calor na carne devastada de sofrimento, não recebi senão a das lágrimas que me escorriam dos olhos… Mas a doutrinação regeneradora que não recolhi da palavra de quantos me ampararam noutro tempo, com amoroso aviso, fui constrangida a assimilá-la sob o rude tacão de atrozes padecimentos.

Quando a lição do Senhor é recusada por nossos ouvidos, ressurge invariável, em nós mesmos, na forma de provação necessária ao reajuste de nossos destinos. Almas existem que varam dezenas de reencarnações sem a menor notícia da Espiritualidade Superior, em cuja claridade permanecem como que hibernadas, na condição de múmias vivas, já que não dispõem de recursos mentais para o registro de impressões que não sejam puramente de ordem física.

Assemelham-se, de alguma sorte, aos nossos selvagens, que, trazidos aos grandes espetáculos da ópera lírica, suspiram contrafeitos pela volta ao batuque. E muitos de nós, como tantos outros, em seguida a romagens infelizes ou semicorretas, tornamos do mundo às esferas espirituais compatíveis com a nossa evolução deficiente, e, além desses lugares de purgação e reajuste, habitualmente somos conduzidos por nossos Instrutores e Benfeitores para ensaios de sublimação a círculos mais nobres e mais elevados, nos quais nem sempre nos mantemos com o equilíbrio desejável, já que nos achamos saudosos de contato mais positivo com as experiências terrestres.

O reino de Deus está dentro de nós. Construamos, pois, o nosso paraíso por dentro. Lembra-te de Deus para que não olvides a tua alma no labirinto das sombras. O Criador vive e palpita na Criação que o reflete. Quando estiveres ferido pelas farpas do sofrimento, lembra-te de Deus que, em muitas ocasiões, socorre a terra seca, por intermédio de nuvens tempestuosas. Quando te sentires revoltado ante as misérias do mundo, lembra-te de Deus, cuja majestade permanece incorruptível, no próprio fruto podre, através da semente pura em que a planta se renovará exuberante e vitoriosa.

Lembra-te de Deus e aprende a não julgar com os olhos físicos, que apenas assinalam na Terra ligeiras nuances da verdade. Em todos os lances de nossa peregrinação para os cimos, lembremo-nos de Deus para que não estejamos esquecidos de nós.

Meu Pai, tenha saudades de vosso convívio… Não quero apartar-me de vosso olhar! Que fazer para demorar-me nos Céus? O Todo-Misericordioso abraçou-o com ternura e ajuntou: Ah! meu filho, que pedes tu agora? Para que te detenhas no Céu é necessário desças à Terra e ajudes a teus irmãos. E o Homem nasceu e renasceu, por longos e longos séculos, sofrendo, sem reclamar, injúrias e ultrajes, lapidações e calúnias, miséria e abandono, chagas e açoites, procurando auxiliar os outros sem cogitar do auxílio a si mesmo, até que, um dia, terrivelmente fatigado e sozinho, mas de coração alegre e consciência tranquila, retornou aos Eternos Tabernáculos.

Não precisou, no entanto, anunciar a sua presença, porque as Portas Celestiais se lhe descerraram ditosas. Flores inclinaram-se lhe à passagem. Constelações saudavam-no em regozijo. Anjos cantavam, em surdina, celebrando lhe o triunfo. E o próprio Senhor, na carruagem resplendente de sua Glória, veio recebê-lo nos Pórticos Sagrados, exclamando, de braços abertos: Bem-aventurado sejas, filho meu!… Agora a Criação inteira é tua… Todos os meus segredos te pertencem. E, estejas onde estiveres, viveremos juntos para sempre.

Todos nós, diante do sepulcro, somos chamados a exame na Contabilidade Divina. E todos recorremos àqueles que nos protegem. O primeiro amigo, o doador de trajes novos, é o dinheiro que nos garante as exéquias. O segundo, aquele que nos acompanha até à porta do tribunal, é o mundo representado na pessoa dos nossos parentes ou na presença das nossas afeições mais queridas, que compungidamente nos seguem até à beira da sepultura.

O terceiro, contudo, é o bem que praticamos, a transformar-se em gênio tutelar de nossos destinos, e que, falando em nós e por nós, diante da justiça, consegue angariar-nos mais amplas oportunidades de serviço, quando não nos conquista a plena liberação do Espírito para a Vida Eterna. Atendamos assim ao bem, onde estivermos, agora, hoje, amanhã e sempre, na certeza de que o bem que realizamos é a única luz do caminho infinito e que jamais se apagará.

Tudo sofri com a tácita aprovação de minha consciência, pois no íntimo me reconhecia culpado. Por mais de vinte anos, fui vítima de flagelações e tormentos que culminaram em transes de pavoroso desespero, não pelas dores de origem material que me dilaceravam o corpo, mas sim porque, na condição de alienado mental, guardava, no fundo de meu ser, a consciência de todos os meus atos, embora não pudesse governar meus infelizes impulsos.

E tamanho foi o meu infortúnio que, em me libertando do cárcere da prova, desarvorado e desiludido, pedi à Providência Divina, através de mil modos, que uma explicação me aliviasse o torturado raciocínio, porquanto, ainda mesmo fora do corpo carnal, a malta de perseguidores continuava assacando contra mim gritos soezes, tentando escravizar-me de novo a mente desditosa…

Foi, então, que, ao socorro de Instrutores Amigos, me vi em surpreendente retorno à condição em que me achava antes da internação na carne para a terrível provação da loucura… Identifiquei-me em pleno espaço, desolado e errante, cercado por centenas de verdugos que me buscavam o Espírito, impondo-me à visão tremendos quadros — quadros esses que, pouco a pouco, me reconduziram ao posto que eu deixara anteriormente, através da morte…

Sim, eu havia sido um juiz que abusara da dignidade do meu cargo. Vi-me envergando a toga do magistrado, que me competia preservar impoluta, desfrutando invejável eminência social na Terra, mas enceguecido pelos interesses do grupo político a que me filiara, com desvairada paixão. Torcia o direito para quase todos aqueles que me buscavam, tangidos pelas circunstâncias, conspurcando o tribunal que me respeitava, transformando-o em ominoso instrumento de crime e revolta, perversidade e miséria, desânimo e desespero, porque as minhas sentenças forjavam todos esses males. Mas não consegui ludibriar a verdadeira justiça.

Minhas vítimas se converteram em meus juízes e todas aquelas que me não podiam perdoar seguiram-me os passos na esfera espiritual, tecendo-me a cadeia de tormentos inomináveis. Tão logo atingi a maioridade, meus implacáveis acusadores senhorearam-me a estrada, conturbando-me a vida, e, desse modo, como alienado mental fui submetido ao julgamento de todos eles, experimentando, por mais de quatro lustros, flagelações e torturas.

Por mais horrenda noite, há sempre um novo dia.

Médium, em boa sinonímia, segundo cremos, quer dizer “meio”. Médium, em razão disso, dentro de nossas fileiras, significa intermediário, medianeiro, intérprete. No próprio Evangelho, em cujas raízes divinas o Espiritismo jaz naturalmente mergulhado, vamos encontrar um perfeito escalonamento de valores, definições e atividades mediúnicas.

Na Idade Medieval, eram santos e santas, quando se afinavam à craveira religiosa da época, ou, então, feiticeiros e bruxas, recomendados à fogueira ou à forca, quando se não ajustavam aos preconceitos do tempo em que nasceram. Hoje, possuímo-los em todos os tons, em dilatadas expressões polimórficas. Médiuns psicógrafos, clarividentes, clariaudientes, curadores, poliglotas, psicofônicos, materializadores, intuitivos… Médiuns de efeitos físicos ou de efeitos intelectuais…

O mesmo Simão Pedro, Tiago e João foram médiuns materializadores no Tabor, favorecendo a aparição tangível de grandes instrutores da mais elevada hierarquia. Vemos a mediunidade, absolutamente sublimada, em nossa Mãe Santíssima, quando registra a visitação das entidades angélicas. Reconhecemos a clariaudiência avançada em José da Galileia, quando recolhe dos mensageiros do Plano Superior comentários e notícias acerca da gloriosa missão de Jesus.

João, o grande evangelista, foi médium, na mais sublime acepção da palavra, quando anotou as visões do Apocalipse. Os companheiros do Senhor, na dia inolvidável do Pentecostes, foram médiuns de efeitos físicos, médiuns poliglotas e psicofônicos da mais nobre expressão. Saulo de Tarso foi notável médium de clarividência e clariaudiência, às portas de Damasco, ao ensejo de seu encontro pessoal com o Divino Mestre.

Todavia, não será lícito esquecer que os possessos, os doentes mentais e os obsidiados de todos os matizes, que enxameavam a estrada do Cristo de Deus, quando de sua passagem direta entre os homens, eram também médiuns.

Mal surge um médium promissor e mil ameaças se lhe agigantam no caminho, porque o vampirismo vive atuante, qual gafanhoto faminto devorando a erva tenra. O Espiritismo é como o Sol, que resplende para todos, e a Mediunidade é a ferramenta que cada criatura pode manobrar no campo da vida, na edificação da própria felicidade. Procuremos, antes de tudo, a nossa efetiva integração com o Mestre Divino, para que não nos falte ao roteiro a necessária luz.

Compreendemos o sofrimento individual e coletivo como imposição natural e justa de que não nos é lícito escapar, tanto quanto, na existência comum, ninguém foge ao serviço da limpeza, se pretende evoluir ou preservar-se. Não há tempestade sem benefício, como não existe noite sem alvorada.

Seviciado por numerosas flagelações, depois de muito tempo recorri à Providência de Deus, através da oração regada de lágrimas, e piedosos braços me libertaram, conduzindo-me à escola regeneradora de que eu tinha premente necessidade. Quanto mais luz brilhava em torno de minh’alma e quanto mais entendimento se me descerrava no cérebro, mais me doía a chaga íntima do remorso. Procurei trabalhar com aqueles que se consagravam à causa do Evangelho entre as criaturas, aspirando à volta à carne e, com o amparo de muitos benfeitores, consegui regressar…

Nosso dever de acatar a vontade do Senhor, em todos os lances de nossa vida, porque o Senhor, amparando-nos a redenção, determina também que a Lei se cumpra, ensinando-nos que para todos nós, os Espíritos culpados, não há bem-aventurança do Amor, sem correção da Justiça. Nossos modestos apontamentos desta noite objetivam acordar-nos a atenção para a responsabilidade no trato com os desencarnados sofredores, transviados em treva e perturbação.

É imprescindível aplicar a psicologia cristã em todas as fases do intercâmbio. Em várias circunstâncias, essas entidades jazem extremamente ligadas aos nossos corações. A amnésia temporária, que nos é imposta durante a reencarnação, à maneira de supremo recurso da Lei Divina para acomodar-nos a mente enfermiça à extirpação dos males profundos que nos atormentam a alma, não nos exime da cortesia e do respeito para com os seres que nos compartilham a sorte.

Daí procede o imperativo de muito carinho, prudência e ponderação na abordagem das mentes desequilibradas que nos visitam. A sessão mediúnica para socorro a desencarnados padecentes pode ser comparada a uma clínica psiquiátrica, funcionando em nome da bondade de Nosso Senhor Jesus — Cristo. O doutrinador ou os doutrinadores são médicos e enfermeiros com obrigações muito graves para com os necessitados e pacientes que os procuram.

Recorremos a figurações elementares do mundo químico para dizer que no círculo de oração o impacto das energias emitidas de nosso plano, através do orientador encarnado, em base de radiações por enquanto inacessíveis à perquirição terrestre, provoca sensíveis alterações na mente perturbada, conduzida à assistência cristianizadora.

Consciências estagnadas nas trevas da ignorância ou da insânia perversa, são trazidas à retorta mediúnica para receberem o bombardeio controlado de forças e ideias transformadoras que lhes renovam o campo íntimo, e, daí, nasce a guerra franca e sem quartel, declarada a todos os grupos respeitáveis do Espiritismo pelas Inteligências que influenciam na sombra e que fazem do vampirismo a sua razão de ser.

Todos vós, que recolhestes do Senhor os mandatos do esclarecimento, os recursos da mediunidade e os títulos da cooperação, no trato com os reinos do Espírito, sabei que para conservardes um círculo de oração, equilibrado e seguro, é imprescindível pagar os mais altos tributos de sacrifício, porque, em verdade, retendes convosco poderosa máquina de transmutação espiritual, restaurando almas enfermas e transviadas em núcleo de ação eficiente, que vale por reduto precioso de operações da Esfera divina, no amparo às necessidades e problemas da Terra.

Unamo-nos, assim, no trabalho do Cristo, como obreiros da Grande Fraternidade, mantendo-nos diligentes e alertas, na batalha incessante do bem contra o mal em que devemos servir para a vitória da Luz.

O inferno é insuficiente para a extensão de minha vingança! As horas eram séculos de tortura mental. Pouco a pouco, no entanto, adelgaçaram-se as trevas em derredor e pude ver, enfim, o duende que me atormentava. Ah! lembrei-me, então, de tudo… Era um padre como eu mesmo. O padre José Maria. E a tragédia de quarenta anos antes reconstituía-se me na memória. Eu era um sacerdote, assaz moço, quando fui designado para substituí-lo numa paróquia do interior. Doente e envelhecido, morava ele em companhia de uma sobrinha-neta, a jovem Paulina, cujos dotes de mulher me seduziram, desde logo, a atenção.

Transcorridos alguns meses de felicidade mesclada de preocupação, certa noite, achando-nos a sós, o enfermo chamou-me a contas. Não seria mais justo arrepiar caminho? Como adotara semelhante procedimento sob o teto que me acolhera? Diante das inflexíveis e duras palavras dele, entreguei-me à ira, e agredi-o sem consideração. Contudo, à primeira bofetada de minha covardia, o doente tombou, cadaverizado.

Tenho a cabeça buscando as auras do Céu e os pés chumbados ao inferno que estabeleci para mim mesmo… Ainda agora, em vos dirigindo a palavra, ei-lo fora do círculo magnético em que a oração nos protege, exclamando, desesperado: “Maldito sejas! Teu crime é tua sombra! …” Nem sei como apagar o incêndio de minhas velhas dívidas… Sou apenas um náufrago no oceano imenso das provas, recolhido, por mercê da Divina Providência, na embarcação da caridade, suspirando pela bênção da volta à vida física.

Em verdade, todos somos corações frágeis, almas culpadas, consciências denegridas e Espíritos transgressores, diante da Lei, mas, ligados ao Espírito de Nosso Divino Mestre, podemos ser instrumentos do Eterno Bem. Não basta, porém, salientar as nossas fraquezas, cultivando a preguiça e a falsa modéstia.

É imprescindível abraçar a verdadeira humildade, com obediência e disciplina, ante os desígnios do Senhor, porque, aprendendo e servindo, amando e ajudando, lutando e sofrendo em sua Causa Sublime, será possível cumprir-lhe a Divina Vontade e retratar lhe a Divina Luz.

Indiscutivelmente, o regime alimentar e a respiração, a temperatura e a ginástica são fatores que podem provocar sensíveis alterações na harmonia elétrica da criatura humana, entretanto, a causa da renovação para o bem ou da perturbação para o mal reside em cada um de nós, de maneira mais íntima, nas correntes de ideias que assimilamos.

Qual ocorre à matéria, que se transforma incessantemente, ao impacto de raios múltiplos, nos reinos inferiores da Natureza, o Espírito se adensa na sombra ou se sutiliza na luz, sob o império dos raios mentais que elege para combustível de suas emoções mais profundas.

Através da meditação e do sono, nos identificamos, muita vez de modo imperceptível, com os pensamentos que nos são sugeridos pelas Inteligências desencarnadas ou não, que se afinam conosco e, se não nos guardamos na fortaleza das obrigações retamente cumpridas, caímos sem dificuldade nas malhas da obsessão oculta por despenhar-nos, inconscientemente, em desequilíbrios imanifestos, cujos resultados somente se expressarão, mais tarde, pelos princípios de causa e efeito, nos torturados labirintos da patogenia obscura, em nosso campo individual.

Palavras do apóstolo Paulo, no versículo 14 do capítulo 5, de sua carta aos Efésios: “Desperta, Ó tu que dormes, e; levantando-te dentre os mortos, o Cristo te esclarecerá”. O obsedado confesso é alguém armado pela aflição e pelo sofrimento, para o combate às forças da treva. A vítima da obsessão oculta, quase sempre, é a loucura mascarada de bom-senso, acarretando, por onde passe, desastres e problemas morais para si e para os outros.

Procurai e achareis disse-nos o Mestre. E na condição de espíritas esquecidos da necessidade de autorregeneração, usamos a nossa Doutrina na conquista de facilidades temporais que nos falem de perto ao conforto, olvidando que nós mesmos é que deveríamos ser usados por ela na construção de nosso próprio bem, através do bem a todos aqueles que nos acompanham na Terra.

Batei e abrir-se vos á. Esses verbos, porém, tanto se reportam às portas do Céu como se referem às portas do inferno… Batamos, assim, à porta do estudo nobre, conquistando o conhecimento superior. Insistamos à porta da caridade, incorporando a verdadeira alegria. Procuremos a continência, a disciplina, a educação, e o serviço, com o dever retamente cumprido, para ingressarmos em esferas mais elevadas, a começar desde hoje.

Fala-vos humilde companheiro de ideal e de luta. Não tenho a presunção de ensinar, de recomendar, de salvar… Auscultando as minhas necessidades, é que, finalizando a conversação, desejo apenas recorrer ainda ao aviso de nosso Eterno Benfeitor: “Ouça quem tiver ouvidos de ouvir!”

Mais cedo que eu poderia esperar, multidões da sombra, interessadas no descrédito de nossas atividades, cercaram-nos o roteiro. E, por mais me alertassem os Instrutores que jamais nos abandonam, as grossas filas de quantos me acenavam com a falsa estimação de meu concurso apagavam-me os gritos da consciência, transferindo-me, assim, à condição de joguete dos encarnados e dos desencarnados, menos apto ao convívio das revelações de nossa Doutrina Consoladora, com o que lhe aceitava, sem relutância, as sugestões magnéticas, agindo ao sabor de caprichos inferiores e delinquentes.

Se há entidades desencarnadas que obsidiam criaturas humanas, temos criaturas humanas que vampirizam as entidades desencarnadas. Isso é extremamente sabido. Morando hoje, porém, no mundo dos Espíritos, em verdade não sei onde é maior a percentagem daquelas mentes que se consagram a semelhantes explorações. Se da Terra para o além-túmulo, se do além-túmulo para a Terra… Daí a necessidade do mais amplo cuidado nas instituições espírita-cristãs, em nossas lutas no intercâmbio.

Ao invés do trabalho de recuperação de nossos próprios destinos, muitas vezes somos vítimas das próprias distrações, criando desajustes que, hoje aparentemente inofensivos, nos aguardam, amanhã, à feição de grandes desequilíbrios.

É necessário estender mãos abertas e fraternais aos infelizes que se fazem vítimas da ignorância e da má-fé, contudo é indispensável que nosso coração não se imante aos propósitos menos dignos de que são portadores, a fim de que estejamos, no Espiritismo e na Mediunidade, atentos aos nobres deveres que nos prendem aos compromissos assumidos. A alma necessita incorporar a si mesma os recursos que lhe são administrados pela Providência Divina, através das divinas instruções que fluem do Evangelho, que se derrama da Codificação Kardequiana e que vertem das mensagens de elevado teor, para que esteja realmente em dia com as obrigações que lhe cabem no mundo.

Recordo-me de haver sido arremessado a uma espécie de sono que me não furtava a consciência e a lucidez, embora me aniquilasse a os movimentos. Incapaz de falar, ouvi os gritos dos meus e senti que mãos amigas me tateavam o peito, tentando debalde restituir-me a respiração.

Não posso precisar quantos minutos gastei na vertigem que me tomara de assalto, até que, em minha aflição por despertar, notei que a forma inerte me retomava a si, que minh’alma entontecida regressava ao corpo pesado; no entanto, espessa cortina de sombra parecia incorporar-se agora entre os meus afeiçoados e a minha palavra ressoante, que ninguém atendia…

Inexplicavelmente assombrado, em vão pedia socorro, mas acabei por resignar-me à ideia de que estava sendo vítima de estranho pesadelo, prestes a terminar. Procurei libertar-me e vi-me fora do leito, leve e ágil, pensando, ouvindo e vendo… Contudo, buscando afastar-me, reparei que um fio tênue de névoa branquicenta ligava minha cabeça móvel à minha cabeça inerte.

Indiscutivelmente delirava, no entanto, aquele sonho me dividia em duas personalidades distintas, não obstante guardar a noção perfeita de minha identidade. Achava-me livre para pensar, mas preso aos despojos hirtos pelo estranho cordão que eu não podia compreender e, em razão disso, acompanhei o cortejo triste, cauteloso e desapontado.

Todos os aparatos da experiência humana são sombras a se movimentarem nas telas passageiras da vida. Só o bem permanece. Só o bem que idealizamos e plasmamos é a luz que fica. Assim pois, buscando o bem, roguemos a Deus nos esclareça e nos abençoe. Tenho hoje a convicção de que os patrimônios financeiros apenas agravam as responsabilidades da alma encarnada, e a política, presentemente, para mim se assemelha à tina d’água que agitamos em esforço constante para vê-la sempre a mesma, em troca apenas do cansaço que nos impõe.

Senhora, que viste na cruz da morte o Filho Divino, acompanhando-lhe a agonia com as lágrimas silenciosas de tua dor, sem qualquer sinal de reclamação contra os poderes do Céu e sem qualquer expressão de revolta contra as criaturas da Terra, conduze-nos para a fé que redime e para a renúncia que eleva. Missionária, salva-nos do erro.

Somos testemunhas de culpas e remorsos que passaram impunes diante de tribunais terrestres, e anotamos a Justiça Imanente, Universal e Indefectível, que confere a cada Espírito o galardão da vitória ou o estigma da derrota, segundo as realizações que edificou para si mesmo. Sabemos que não vale perguntar com a Ciência, menoscabando a consciência, e não ignoramos que as tragédias e as lágrimas que fazem o inferno, nas regiões sombrias, se originam , de maneira invariável, do sentimento desgovernado e vicioso.

Trabalhemos, “enquanto é dia”, na preparação do futuro de paz. Palavra do Divino Mestre, em que nos recomenda: “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele.”

Amparado por braços amigos, fui conduzido a uma instituição de saúde espiritual. Por dez meses consecutivos, submeti-me a tratamento. Revigorado, compareci diante de observadores e analistas de nosso plano, junto dos quais o serviço de socorro iniciado em vosso templo, a meu benefício, encontrou a continuação necessária. Subordinado a operações magnéticas, minha memória religou-se ao passado próximo e revi-me na existência última, encerrada há trinta anos. Nos primeiros lustros do século corrente, era eu um rapaz egoísta e leviano, amigo da aventura e adversário do trabalho.

Não encontrava outras visões que não fossem aquelas de minha companheira a acusar-me ou de meus erros a se erguerem, indefinidamente, diante de meus olhos. Esperançoso, perguntei por meu futuro, mas nossos Instrutores foram unânimes em declarar que ninguém avança sem saldar suas dívidas. “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele”.

Levantemo-nos para viver como alunos dignos do educandário que nos recolhe! Encarnados e desencarnados, unamo-nos no dinamismo do bem para situar, sempre mais alto, a nossa oportunidade de elevação. É inútil transmitir a outrem o dever que nos compete, porque o tempo inflexível nos aguarda, exigindo-nos o tributo da experiência, sem o qual não nos será possível avançar no progresso justo. Saibamos, assim, aprender a servir para merecer.

Há duas palavras com significação muito diferente na Terra e na Vida Espiritual. Uma delas é “consciência”, a outra é “responsabilidade”. No plano físico, muitas vezes conseguimos sufocar a primeira e iludir a segunda temporariamente, mas, no campo das Verdades Eternas, não será possível adormecer ou enganar uma e outra. A consciência revela-nos tais quais somos, seja onde for, e a responsabilidade marca-nos a fronte com os nossos merecimentos, culpas ou compromissos.

Enquanto desfrutais o aprendizado na experiência humana, acautelai-vos na conceituação dessas duas forças, porque o pensamento é a energia coagulante de nossas aspirações e desejos. Por isso, não fugiremos aos resultados da própria ação.

Imensa repugnância pela deserção, de súbito, iluminou-me a alma; entretanto, na penumbra ao quarto, rostos sinistros se materializaram de leve e braços hirsutos me rodearam. Vozes inesquecíveis e cavernosas infundiram-me estranho pavor, exclamando: “É preciso beber.” A bênção do socorro celeste fora como que abafada por todas as correntes de treva que eu mesma nutrira. Debalde minha mão trêmula ansiou desfazer-se do líquido fatal.

Esvaíram-se me as forças. Senti-me desequilibrada e, embora sustentasse a consciência do meu gesto, sorvi, quase sem querer, a poção com que meu corpo se rendeu ao sepulcro. Em verdade, eu era obsidiada… Sofria a perseguição de adversários, residentes na sombra, mas perseguição que eu mesma sustentei com a minha desídia e ociosidade mental. Corporificara, imprevidente, todas as forças que, na extrema hora, me facilitaram a queda. Conservando a ideia lamentável, acabei lamentando a minha própria ruína.

Tão triste quão bizarra, minha história provoca impressões diversas, desde a agonia ao riso franco, fazendo de mim um sofredor e um truão. Muitas almas aparecem no berço, a fim de lutar. E muitas se escondem no sepulcro, para aprender. Nasci na Terra para cumprir determinada tarefa no socorro aos doentes, sob o signo da solidão individual, para que mais eficiente se tornasse meu concurso a benefício dos outros, porém, em chegando aos trinta de idade, e vendo-me pobre e sozinho, apesar dos múltiplos trabalhos de enfermagem que me angariavam larga soma de afetos, entreguei-me, acovardado, ao desespero e, com um tiro no coração, aniquilei meu corpo.

Ninguém na Terra, enquanto no corpo denso, pode calcular o martírio de um Espírito desencarnado, indefinidamente jungido aos próprios restos. Ouvia a meu respeito incessantes observações que variavam do carinho ao sarcasmo e do ridículo à compaixão. Habitualmente assediado por aprendizes e estudiosos diversos, suportava, além disso, constante visitação de almas desencarnadas, viciosas e vagabundas, que me atiravam em rosto gargalhadas estridentes e, frases vis.

Vinte e seis anos decorreram sobre meu inominável infortúnio, quando, certo dia, a desfazer-me em pranto, recordei velho, amigo, o nosso Mitter. Bastou isso e ele me apareceu eufórico e juvenil, como nos tempos da mocidade primeira. Compadecido, ouviu-me a horrenda história e, aplicando as mãos sobre mim, conseguiu libertar-me dos ossos, trazendo-me a vossa casa. Respirei aliviado.

Como visto, trata-se de uma obra extremamente densa, pela diversidade de histórias de vida que não se extinguem com a morte, mostrando-se por noticiários do além verdadeiras biografias de irmãos desencarnados nos ajudando ao compartilhar sua experiência de vida e principalmente “de morte”, nos sensibilizando com as reais colheitas do que plantaram em vida e nos alertando para que tenhamos chances de reverter caminhos tortuosos e proceder inadequado perante nós, perante Deus e perante nossos irmãos, que muitas vezes vemos como adversários gratuitos sem nos afastar para comtemplar a imagem verdadeira do que está a se passar.

O mundo espiritual retorna massivamente trazendo inúmeros retratos de diversos matizes para nos sensibilizar quanto a isso. Basta termos olhos para ver e ouvidos para ouvir e principalmente, fé em Deus e em Jesus, em na misericórdia divina que carregam em seus braços a nossa espera. Que tenhamos fé para crer, sabedoria para agir corretamente e paciência para suportar todas as agruras que o caminho nos reserva como bálsamo que vem curar as feridas que nós nos causamos em vidas pretéritas, nos permitindo corrigir erros como num gesto de efetivo arrependimento.


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