Ganache de Chocolate
Quem nunca conheceu alguém como Juliano, um rapaz boa-pinta, forte, dono de um Golden Retriever e daquela confiança invejável que parece…

Ganache de Chocolate
Quem nunca conheceu alguém como Juliano, um rapaz boa-pinta, forte, dono de um Golden Retriever e daquela confiança invejável que parece vir de fábrica? Juliano tinha essa fachada de bom moço com a vida ganha: orgulho da família, referência para os amigos e invejado pelos colegas. No fundo só ele sabia o quão estressado estava com seu trabalho atual, e como gostaria de poder dizer algumas verdades ao seu chefe abusivo, pegar um ano sabático e se enfiar na estrada com seu fiel cachorro Freud.
Como os boletos ignoram crises existenciais, Juliano resolveu arquitetar um plano de fuga para se afastar de seu chefe: candidatar-se para um processo seletivo ao qual havia sido indicado por outro gerente da empresa. Parecia uma oportunidade imperdível: não precisar mais conviver com dito cujo, e de quebra, ainda ganhar um aumento, pois a vaga seria considerada uma promoção. Mesmo sabendo que os processos seletivos de hoje em dia são um teatro corporativo onde você precisa se vender como o redentor de todas as soluções, Juliano estava confiante. Ele dominava a arte de encontrar as palavras certas para cada ocasião, tinha uma excelente oratória e lembrem-se: confiança não lhe faltava. Nada poderia dar errado.
Passaram-se 3 etapas de recrutamento, onde as dificuldades das perguntas iam escalonando e quando tudo acabou, após duas intensas semanas de muita concentração e jogo de cintura, Juliano naquele momento sentia um alívio de quem cumpriu sua parte. Agora era só uma questão de esperar…
Mal ele sabia que essa na verdade era a parte mais difícil do processo. Após duas semanas que haviam voado ele iria enfrentar uma espera estilo filme em câmera lenta. Era possível escutar o tic-tac do relógio martelando na cabeça. Os grãos de areia da ampulheta que decorava a prateleira do escritório podiam ser observados caindo um por um.
De repente aquela confiança inabalável começou a murchar e a insegurança se apresentou de mãos dadas com a ansiedade e a irritabilidade. Juliano agora se via preso em um longo banho-maria. Pensamentos intrusivos começavam a invadir sua mente, e aquela foi uma das primeiras vezes em que duvidou da sua própria capacidade. Mais de um mês de espera, apenas silêncio. Sentia-se desrespeitado.
Talvez por pura exaustão, a fixação pelo banho-maria lhe trouxe uma ideia: ressignificar a situação da única forma que lhe parecia razoável naquele momento. Prepararia uma ganache de chocolate. Afinal, o banho-maria existia justamente para impedir que o chocolate queimasse. Enquanto observava o chocolate derreter lentamente, teve a sensação de ver sua confiança derretendo junto. O ganache, no entanto, ficou excelente.
Ironicamente, Freud, que não tinha carreira, LinkedIn ou ambições corporativas, dormia tranquilamente aos seus pés.
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