CINERINGY: Dil Se, de Mani Ratnam
Acho que pela primeira vez escrevo uma resenha de um filme que assisti no mesmo dia em que assisti (espero que a frase não tenha ficado…
CINERINGY: Dil Se — Do Coração, de Mani Ratnam
Acho que pela primeira vez escrevo uma resenha de um filme no mesmo dia em que o assisti. Dil Se é um filme de 1998 estrelado por Manisha Koirala e Shahrukh Khan, e finaliza a trilogia do terrorismo de Mani Ratnam. O longa se junta a Lamhe na lista de filmes que não foram um show de bilheteria, mas que se tornaram clássicos indiscutíveis. É bom dizer que o filme só não foi bem na Índia, porque internacionalmente foi um sucesso — foi o primeiro filme indiano a entrar no top10 de bilheteria do Reino Unido e um sucesso inquestionável no Japão e nos EUA. O filme foi a estréia em Bollywood tanto de Preity Zinta quanto do próprio Mani Ratnam, que até então só dirigia filmes em língua tâmil e telugu.

SINOPSE: Voltando a Déli, Amarkant Varma apaixona-se por Meghna na estação de trem. Amar faz de tudo por ela, mas Meghna não se entrega a esse amor por acreditar que existe um propósito maior em sua vida — uma ideologia da qual ela se recusa a abrir mão. É nessa linha tênue entre os sentimentos e os ideais que a trama de Dil Se trafega, além de passear pelas sete tonalidades do amor segundo a literatura árabe: atração, paixão, amor, reverência, adoração, obsessão e morte.
Já faz um bom tempo que queria assistir Dil Se, porque sou fã de carteirinha do Shahrukh Khan, ator que interpreta o Amarkant, e todos sempre dizem que esse é um dos filmes mais importantes de sua carreira. Hoje, eu finalmente pude entender o porquê. Não só Shahrukh como também Manisha dão um show de atuação na pele de seus personagens com tudo a que eles têm direito. Os olhares definitivamente roubaram todas as cenas, de uma forma que eles acabaram se tornando o top tier do filme, e isso é graças ao trabalho maravilhoso que os atores fizeram ao tornar tudo tão palpável e real.
Para entender o que a narrativa de Dil Se tenta retratar (e para entender porque Mani Ratnam se sentiu na obrigação de filmar uma trilogia do terrorismo), é bom pincelar o contexto histórico da Índia nos anos 80 e 90. A soberania indiana esteve seriamente ameaçada nessas décadas, com muitas mílicias mercenárias surgindo e a ameaça terrorista pairava na capital administrativa do país, Nova Déli. Em 1984, a primeira ministra indiana Indira Gandhi foi assassinada pelo seu segurança, e em 1991, seu filho Rajiv Gandhi, na época também primeiro ministro, foi assassinado num ataque suicida orquestrado por um grupo terrorista. Nesse clima político hostil, com morte de líderes nacionais por diferenças políticas e ideológicas, é que surge a necessidade de Ratnam de mostrar seu ponto de vista, e de conscientizar as pessoas, através da arte que domina — o cinema.

O pano de fundo da narrativa é o aniversário de 50 anos da independência da Índia, e Amarkant e Meghna são o extremo oposto um do outro quanto ao que pensam disso. O avô de Amar lutou pela independência, seu pai foi oficial do exército e ele mesmo também é um funcionário estatal, já que é radialista na Rádio da Índia. Por conta disso, ele possui uma visão de mundo otimista do estado e das forças armadas indiana, e acredita que a Índia está melhorando ao longo desses 50 anos. Do outro lado da moeda, Meghna conheceu muito nova tudo de pior que o estado indiano tinha pra oferecê-la, e isso fez com que ela acreditasse piamente que a Índia não foi verdadeiramente liberta e que precisa fazer sua parte. É interessante observar essa dualidade entre eles, especialmente nos últimos 50 minutos.
Uma coisa que me deixou frustrada no filme, mas que foi culpa minha e somente minha, é que eu achava que pela maioria das sinopses fazer menção às sete tonalidades do amor retratadas na trama, o filme deixava explícito qual tonalidade estava sendo trabalhada. Não deixa. Você só consegue perceber em qual “estágio” do amor os personagens estão pelas entrelinhas e pelo comportamento deles. Mas foi uma frustração muito besta, confesso. Fora isso, amo a forma com que Ratnam e o roteiro conduzem a história, extraindo o melhor de seus atores e deixando claro qual a opinião dele sobre o momento histórico pelo qual a Índia estava passando.
E já que Dil Se é sobre o conflito entre o sentimento e a ideologia, eu particularmente gosto muito das cenas em que Meghna e Amar percebem o mundo não é tão preto no branco e mesmo suas visões de mundo podem ser tão frágeis quanto paçoca. Eles não estão completamente errados e isso eles sabem, mas é um soco quando descobrem que tampouco estão completamente certos. Talvez seja isso que torne o filme tão genial e necessário pra sua época, porque é como se o próprio Ratnam estivesse levando em conta os dois lados da balança e fazendo o espectador questionar sua realidade.

Mas infelizmente, nem tudo é perfeito. Me incomoda muito que o início do “romance” entre Amar e Meghna tenha sido com o Amar a perseguindo em todo canto até que ela finalmente se abra com ele. Conversando com outras amigas minhas que também gostam de cinema indiano, entramos em um consenso de que o cara perseguir a mocinha era um padrão muito prejudicial nos filmes dos anos 90 pra trás e que o cinema acabou validando o comportamento de stalker que os homens indianos possuem até hoje, já que nos filme isso é vendido como paixão e romantismo (olá Chandni by Yash Chopra) e não como o que realmente é, uma esquisitice horrorosa. Talvez um dia eu faça uma coluna de opinião sobre isso.
Eu sinceramente acredito que, fora isso, Dil Se é um filme perfeito. Ainda estou embebida pelos olhares de Shahrukh e Manisha, porque eles realmente conseguiram demonstrar através do olhar o mousse que o Ratnam prometeu sobre as tonalidades do amor. E faço também uma menção honrosíssima a trilha sonora. Lamento, mas Chaiyya Chaiyya deve ser a primeira música do mundo, porque TUDO nela é perfeito. A letra, os arranjos, os cantores… Por Deus! As outras músicas também são perfeitas demais, com certeza é um álbum que vou escutar muitas e muitas vezes. Minha nota pra Dil Se é 4.5/5.

Dil Se está disponível na Netflix e no site Eu Amo Filmes Indianos, e pra assistir no Eu Amo é só clicar no nome sublinhado que você será redirecionado ao site. Fica a recomendação caso você queira conferir esse lacre, mas fica recomendado Mesmo, com M maiúsculo. Eu com certeza pretendo assistir os outros dois filmes da trilogia do terrorismo (para fins de curiosidade, são Roja, de 1992, e Bombaim, de 1995) de tanto que gostei de Dil Se. O mousse do Mani Ratnam ficou aprovado por aqui, porque ele achou que fez um grande mousse, como se fosse um grande ato, e estava certo! O mousse dele nao virou piada no Cineringy.

Até breve!
메타데이터
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