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Luz

Dar luz a uma vida é também dar luz às zonas mais profundas de nós mesmas. Não apenas ao que é belo e expansivo, mas ao que é escuro…

Lauren Bassi · 2026-03-02 13:35 · 0 claps · 1.3 min read
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Luz

Dar luz a uma vida é também dar luz às zonas mais profundas de nós mesmas. Não apenas ao que é belo e expansivo, mas ao que é escuro, confuso e mal resolvido. É acender uma lâmpada em quartos internos que permaneceram fechados por anos. É uma experiência de revelação extrema.

Quando um filho nasce, nasce junto uma compreensão mais crua de quem somos. Das nossas dores antigas. Das feridas que achávamos cicatrizadas. Dos silêncios que herdamos. Das palavras que nos faltaram. Das que nos feriram. Das que nunca foram ditas.

Maternar é, inevitavelmente, revisitar a própria história.

É olhar para trás com outros olhos. É reconhecer traumas com mais nitidez. É desfazer mal-entendidos que carregamos por uma vida inteira. É, por vezes, finalmente compreender o tamanho de um amor que antes nos pareceu falho, insuficiente ou distante.

Dar à luz clarifica. Ilumina. Expõe. E, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de cura.

Apesar de ferida, confusa e muitas vezes acuada, quando minha filha nasceu — e nos dias que se seguiram, enquanto eu a observava existir — , um pensamento começou a crescer silenciosamente dentro de mim.

Então é assim… É assim que a minha mãe e o meu pai me amam.

A compreensão veio acompanhada da percepção de que amar não significa acertar sempre. Que amar não impede falhas, nem ausências, nem imperfeições. Mas amar, no seu estado mais essencial, é tentar, repetidas vezes, mesmo quando não sabemos exatamente como.

Ao sentir o amor constante que nascia em mim, algo se reorganizou na forma como eu olhava para quem veio antes. Não como absolvição automática de tudo, mas como uma compreensão mais humana, complexa e honesta.

Maternar não apenas cria uma nova relação com um filho. Cria também uma nova relação com a própria história.

É como se, ao dar à luz uma criança, déssemos à luz também a nós mesmas outra vez. Com mais consciência, mais delicadeza e, quem sabe, com mais compaixão pelas versões anteriores de quem fomos e pelas mãos imperfeitas que nos criaram.

Porque, no fim, dar vida é também compreender a vida que nos foi dada.


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