O Bonequinho de Boné
O Bonequinho de Boné

Nem sempre quis ser cronista, apenas aconteceu, sei lá. Até alguns anos atrás eu gostava muito de escrever poesias e letras de música: eram bons resquícios da juventude e como eu passei a me considerar um escritor. Gastava boas horas em busca de rimas perfeitas, de linhas de letras de músicas que podiam encaixar perfeitamente com as linhas de baixo que eu ficava repetindo na minha cabeça para depois repetir até a exaustão quando enfim tivesse com o instrumento em punho. Mas com o tempo me sentia pouco à vontade e, paulatinamente, fui largando de mão das poesias e das letras de música.
Só que esse caminho até a crônica não foi como trocar de camisa, crônicas e poesias andaram lado a lado por muito tempo — até pouco tempo. Mas as crônicas vinham me dando um conforto para me expressar melhor do que a poesia ou a música. E hoje tô nessa. As crônicas são o espaço em que atualmente o que quero expressar ao mundo parecem ser encaixar melhor. Mas ao longo do tempo, a crônica sempre esteve no meu horizonte cotidiano. Aprendi que ela tá muito além das linhas de um cronista tido como, sei lá, “formal” — aquele que escreve num formato parecido que eu pratico. Cronistas anônimos ou não que estão nas músicas, nos muros, no registro audiovisual, nas conversas e perrengues nos coletivos. Desses, um que segue me marcando é o Tavarez.
Reforço vez ou outra que a janela é a melhor amiga de um cronista, sejam elas em casa ou no ônibus. Aprendi a observar o mundo a partir delas, pois se as janelas de casa me permitiam enxergar minha vizinhança, as do ônibus me fizeram enxergar o Brasil e o mundo, principalmente por conta dos grafites, das pixações e das frases políticas e religiosas nos muros da zona norte do Rio. A “QUERCIAVEMAI” — na verdade “Quércia vem aí”, mas devido a proximidade das letras parecia uma palavra enorme e de difícil compreensão — e a nacionalista “Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional”, além das frases revolucionárias pintadas em vermelho e as que expõem o perigo do fundamentalismo cristão “Só Jesus expulsa o demônio (ou, pior, “o Exu”) das pessoas” e “Bíblia sim, Constituição não — 2070 Jesus voltará, não somos maçons” exerceram e ainda exercem certo fascínio em como elas nos permitem ler tantas coisas além das poucas palavras. E os desenhos do Tavarez não eram diferentes, visto que sempre os via em algum ponto entre o caminho que eu fazia entre minha casa, no bairro do Encantado a Tijuca, bairro onde eu estudava — inclusive dentro dos ônibus.
Desenhados na parte traseira dos bancos ou colados em algum poste, os desenhos do Tavarez foram e ainda são crônicas sobre os apertos cotidianos, desde as condições ruins dos ônibus e da vida do trabalhador, passando pela exploração que o FMI nos impôs no final do século passado, as polarizações políticas, a sanha atual do neoliberalismo e do fascismo. Sempre o bonequinho de boné, caraterístico dos desenhos do Tavarez, dando a letra de que as coisas não estão um morango e que precisamos ter uma leitura do que nos cerca, mesmo que a pesada rotina de trabalho e estudo nos esgote. Não vejo trabalho maior de conscientização do trabalhador mais didático do que desenho e frases curtas. Tavarez me provocou quando mais novo e ainda me provoca. Estive pessoalmente com ele umas duas ou três vezes, e por isso pouco lembro de sua fisionomia — perdão, Tavarez! Minha cabeça não é lá essas coisas -, mas o pouco que lembro é um cara que deve ter idade similar a minha e que tivemos conversas breves, mas muito agradáveis. E que me fascina em como um sujeito que deve ser no máximo nem meia dúzia de anos mais velho que eu — isso ser for mais velho! — ter impacto tão forte com sua arte na minha trajetória.
Espero trocar uma ideia contigo um dia, meu amigo. Claro que vai envolver um pouco de tietagem porque sou seu fã, mas passado o frisson do meu lado “fãzoca”, tenho certeza de que teremos muita ideia legal pra trocar, sobre a cidade, o mundo e sobre nada também, por que não? Mas, por ora, só quero deixar registrado o quanto sua arte me fez enxergar o mundo que me cerca de uma forma mais ampla. Então, continue a compartilhá-la por aí pela cidade para que outras pessoas possam ter seu horizonte ampliado como eu tive.
메타데이터
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- 2026-08-05 07:44:17