Mediador Social
O ar estava carregado de tensão. Bastava um olhar mais demorado para sentir a eletricidade entre as pessoas. Um homem se aproximou, o cenho…

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Mediador Social
O ar estava carregado de tensão. Bastava um olhar mais demorado para sentir a eletricidade entre as pessoas. Um homem se aproximou, o cenho franzido e a determinação estampada no rosto.
— De que lado você está?
A pergunta veio seca, afiada, como quem já carrega a sentença na ponta da língua. Olhei nos olhos dele — olhos famintos por uma confirmação, um alinhamento, uma bandeira, qualquer coisa.
De que lado eu estou?
O silêncio dura o suficiente para incomodar. Já aprendi: quem responde rápido demais, geralmente mente para si.
— Eu não estou em lado nenhum… — soltei. — Estou no meio.
Ele franze a testa. Dá aquele sorriso torto, meio de deboche, meio de desprezo.
— Isentão.
— Não. — Minha voz sai firme, mais do que eu esperava. — Eu só não jogo esse jogo. Meu lado é o que tenta impedir que vocês se matem.
É isso. Meu lado é esse: onde as pontes são mais altas que os muros. Onde o grito vira escuta. Onde a espada não corta carne, mas separa mentira de verdade.
Respiro fundo. Nem sempre foi assim. Já me vi querendo ser dono da razão. Já quis lacrar, esmagar argumentos, humilhar opositores. Até o dia em que percebi que, na ânsia de vencer, eu estava perdendo. Perdendo gente. Perecendo.
E, no fim, que graça tem de estar certo, se todo mundo ao redor está morto por dentro?
— Então você é desses que ficam pregando paz? — Ele revira os olhos. — O mundo real não é kumbaya, irmão.
Sorrio. Se ele soubesse o que é paz, não falaria assim.
— Você acha que paz é ausência de conflito? — Encaro. — Não. Paz é quando o conflito não engole a gente. Paz é quando o ódio não faz a última jogada.
Ele se cala. Talvez não espere esse tipo de resposta. Ou talvez esteja cansado, como todo mundo anda ultimamente.
Eu também estou cansado. Cansado de ver gente se matando em nome de ideias. Cansado de ver irmão virar inimigo por rótulo. Cansado de ver a igreja ser palco de guerra, quando devia ser abrigo para quem sangra.
Olho para o céu. Jesus, como você aguentava?
Lembro da cena. Está na minha cabeça, como se eu tivesse visto de perto. Uma mulher jogada no chão, pedras nas mãos dos “santos”. Cada um seguro da própria justiça. Cada um com o discurso na ponta da língua: — É lei. Está escrito. É assim que tem que ser.
Jesus se abaixa. Escreve na terra. Ignora os gritos. Ignora a sede de sangue.
É nesse espaço que eu existo. No silêncio entre o grito e a pedra. No espaço onde alguém tem que ter coragem de baixar a mão.
— Quem de vocês estiver sem pecado… — Ele diz, sem levantar a voz — seja o primeiro a atirar uma pedra nela (Jo 8.7).
Silêncio. Um silêncio que nunca mais saiu de mim.
Ser mediador não é ser muro. É ser chão. É ser terra onde as pedras caem quando as mãos desistem do ódio.
Volto para a conversa. O cara está me olhando diferente. Não sei se entendeu. Talvez sim. Talvez não. Talvez nunca. Não importa.
O que importa é que estou aqui. No meio. No fogo cruzado. Na linha onde ninguém quer estar.
Porque é aqui que Ele estaria.
— Você é maluco. — Ele ri. — Ninguém sobrevive no meio.
Sorrio. E dessa vez, é de verdade.
— Eu sei. Mas também ninguém ressuscita sem perecer primeiro.
E viro as costas. Tem mais gente para alcançar. Mais pontes para construir. Mais mãos para segurar antes que virem punhos.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5.9).
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