Um homem de sorte
Ou será sorte a minha?
Um homem de sorte
Ou será sorte a minha?
Este texto é a continuação desse sentimento: https://5beijos.medium.com/n%C3%A3o-posso-controlar-grande-parte-das-coisas-2ebc9b1aeea1
Um texto exclusivo para ele, por que não? Alguém que proveu a família por tantos anos e que nos ensina tanto.
Embora seja o sobrenome dele, posso dizer que é a palavra que melhor o define: Valente.
Meu avô, Júlio César Valente Rodrigues é um homem a frente de seu tempo e muito mais. Suas histórias mirabolantes nos ensinam o que é ter sorte, ter persistência e ter amor à família.
A história da minha família (e consequentemente a minha) começa em Porto Alegre, no ano de 1975, quando meus avós se conheceram em uma festa. Na época, minha avó tinha 19 e meu avô tinha 17. Resolveram viver o amor de forma perigosa, se casaram com nada, nem o aval de seus pais, meus bisavós.
Meus avós enfrentaram muitos perrengues, trabalharam de caixa no supermercado e passaram sufoco. Mas as más condições não foram o suficiente para que eles não pensassem em construir uma família.
Na época a ditadura comia no centro, e meus avós contam como foram tempo difíceis “amigos sumiam, era tudo muito violento”.
Em maio de 1977, nasceu Rafael, o segundo gremista doente; o primeiro claro, meu avô. Minha avó já ajudava a criação do sobrinho Carlinhos (meu “tio”). Meu avô teve que vender livros de porta em porta, trabalho em cargo comissionado no Instituto de Previdência de Porto Alegre (famoso Ipê), onde se tornou chefe com tão pouca idade e de onde saem muitas pérolas.
Viajava de fusca pra cima e pra baixo, segundo minha avó, só gostava dos piores carros. Há boatos que ele comprou um que nem chão tinha, dava direto pra a pista.
Mas ele superou todas as dificuldades, foi trabalhar Copersul e lá terminou de criar meu pai e minha tia Carol, que nasceu em junho de 1983.
Depois de muito perrengue e histórias engraçadas, Júlio se tornou o patriarca. O homem dos conselhos, recebia os genros com o clássico aperto de mão apertado e orientava cada neto pelo caminho do amor e da justiça.
Entende de política como ninguém, um militante da esquerda nato. Não pode juntar um dinheirinho que viaja o mundo com a minha avó. Na volta, reúne todos da família em casa e nos presenteia.
Ele é o nosso papai Noel.
Natal, ano novo, carnaval. Nossa família sempre está junta e ele é é a nossa liga. Ele que faz discurso e ele que ajuda todo mundo.
É claro, assim como prezo pelas minhas avós, com ele isso não seria diferente. E ao contrário das minhas avós, que tenho duas eu não tive a mesma sorte com meu avô paterno. Por isso até acho que a sorte é toda minha por ter um avô desse nível.
Mas o tempo se mostrou cruel, aquele homem valente não estava com o coração muito firme; nos deu dois sustos em datas que passamos juntos há mais de 26 anos: Natal e ano novo. Pela primeira vez fomos desafiados a entender a ausência, a velhice e o não controle sob as pessoas que amamos.
Tento não ter medo, mas eu não consigo imaginar um mundo sem Júlio, assim como uma vida sem Fátima e Leninha.
Eu quero que meu filho possa escutar suas histórias, quero que ele tenha a chance de jogar bola com meu pai e com meu avô. Meu deus, como eu sonho tanto com esse momento.
E eu não posso controlar isso: se eles vão existir ou não.
Já chorei, já surtei, já me acalmei e já planejei.
Mas eu respiro, inspiro vinte vezes se for necessário. E levarei milhares de vezes para a terapia: eu não tenho controle, apenas a sorte de tê-los.
Mas tudo isso, embora tenha me desbloqueado um novo medo, vem me fazendo ser grata e perceber que na verdade tudo o que nós precisamos é de saúde. O resto a gente se ajeita!

메타데이터
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