A paixão feminina: o pecado imperdoável da literatura
contém spoiler de obras de séculos atrás
A paixão feminina: o pecado imperdoável da literatura

Adão e Eva, de Lucas Cranach, o Velho
- contém spoiler de obras de séculos atrás
Ao longo da minha formação enquanto leitora, fui marcada por diversas obras que, de certa forma, moldaram minha forma de enxergar o mundo. E o mundo, nós bem sabemos, é um lugar perigoso para as mulheres. E longe de mim discorrer sobre a inocência de Capitu; já estamos fartos dessa acusação. Hoje irei falar sobre personagens femininas e seu terrível pecado do adultério. Ou seria o terrível pecado de se apaixonar?
Não pense o leitor que estou passando pano para a infidelidade, longe disso. Estarei apenas falando sobre a injustiça social de todas as épocas, que atribui a culpa do pecado inteiramente à Eva. Ora, ela não comeu o fruto proibido sozinha.
Toda minha indignação se iniciou na adolescência, época em que decidi ler todas as obras de Jorge Amado. Ainda me faltam Capitães da Areia e Dona Flor e Seus Dois Maridos, mas talvez um dia eu os substitua por alguma série hipersexualizada da Globo. Porém, as obras dele me marcaram com um profundo senso de injustiça social que seria complementado por Liev Tolstói e Gustave Flaubert.
“O quão hipócritas são os homens?”, perguntou-me Jorge Amado.
Em O País do Carnaval, o protagonista tem um caso amoroso com uma prostituta. Ele é noivo de uma mocinha de boa família. Mas, ao descobrir que não foi o primeiro amor de sua noiva, oh, que decepção. Ela não presta, ela não serve para casar; como assim ele não é o primeiro?
Isso infelizmente é um tipo de pensamento tão nojento e machista que perdura até os dias de hoje. Os homens podem ter um passado promíscuo, ou liberdade sexual, chame como quiser. Mas as mulheres? Não poderiam pensar sequer em outro homem que não fosse Jesus Cristo.
Não é incomum que hoje vejamos piadas idiotas na internet sobre “mulher indo à igreja zerar a quilometragem”. Mas, aos homens, é aceitável ter mais de quarenta anos, dois divórcios e depois ir à igreja seduzir uma jovem virgem. Aos homens é permitido o desejo, mas as mulheres devem preservar a pureza.
E, partindo dos ideais metafísicos de O País do Carnaval, surgiram novas protagonistas, como “a pobrezinha da Gabriela, Cravo e Canela que traiu o Nacib”.
Uma moça que cresceu sem pais, foi abusada por familiares e tratada como objeto pelos homens da cidade. Homens esses que viviam no cabaré, com inúmeras amantes, supercatólicos e preocupados com a moral e os bons costumes, é claro. Homens que matam suas mulheres por boatos de traição; homens que herdaram fortunas à custa de trabalho escravo.
Gabriela era a boa cozinheira, a boa dona de casa, a jovem bonita, motivo de inveja e ciúmes da população, mas não teve as oportunidades da “boa educação” que se esperava de uma esposa. Gabriela deveria ser uma santa.
Nacib poderia fazer o que quisesse. Ora, aos homens é permitido o adultério; as mulheres não podem dançar com as crianças, é imoral. Gabriela não se encaixava no que esperavam que ela fosse.
Gabriela deveria ser domesticada.
Porém, mulheres domesticadas não são felizes. Elas aprendem a se conformar. Gustave Flaubert nos ensina o preço do não-conformismo.
A Madame Bovary era uma coitada iludida pelos romances. Esperava borboletas no estômago e fortes emoções em seu casamento. Mas encontrou apenas tédio. E entediou-se até se suicidar. Se segurança e estabilidade são as únicas coisas que importam para uma mulher, por que as mulheres se apaixonam?
As mulheres que ousam se apaixonar são punidas com a desonra, com a traição, até sucumbirem ao suicídio. Se não ao suicídio físico, ao suicídio dos seus sonhos e dos seus princípios.
Devem se render ao materialismo efêmero, aceitar o mínimo de outro ser humano.
“Oh, claro, esse homem me respeita, não me trai, não me maltrata. Mas esse não deveria ser o básico de um casamento?”
Por que devemos nos sujeitar a relações que não nos geram paixão, não aceleram nossos corações nem despertam atração sexual?
Por que a química deve estar separada do respeito?
Não, algo deve estar errado. Não estamos no século XV. Eu quero ser uma protagonista diferente.
Quero casar com um homem que seja meu melhor amigo, que me deixe em chamas e que, ao mesmo tempo, me dê segurança, me respeite, me idolatre como uma deusa, mas não a ponto de me odiar pelos meus pecados. Eu não quero morrer de tédio no meu casamento.
Mas promessas de amor também custam caro. E Anna Kariênina talvez tenha pagado mais caro que todas as outras.
Ao se afirmar como uma mulher apaixonada, é condenada a ser uma “péssima mãe”. O amor e a família nem sempre andam juntos.
A pobrezinha convence sua cunhada a perdoar o adultério, mas é incapaz de perdoar a si mesma. Anna é colocada em um terrível dilema: escolher entre viver com seu grande amor ou poder ver seu filho.
O que mais entristece é saber que seu ex-marido estava disposto a dar-lhe o divórcio, a ajudá-la, mas foi mal aconselhado por uma dessas damas da sociedade que se veem no direito de se intrometer na vida dos outros. Uma senhora que, por ironia, havia sido rejeitada pelo marido e, sem o divórcio, também vivia se apaixonando por outros. Depois dos homens cruéis, o pior inimigo de uma mulher pode ser outra mulher cúmplice da crueldade.
E quase sempre uma pecadora que não tira a trave do próprio olho.
O que dizer de Vronski? A ele não era outorgado o título de destruidor de lares; pelo contrário, era uma honra ter sido capaz de ficar com uma mulher como Anna.
Vronski frequentava a sociedade, era apresentado a “boas moças” que poderiam se casar com ele. O fato de viver com uma mulher casada em nada afetava sua reputação. Mas sobre Anna pesavam todos os pecados e as maldições divinas vindas da assinatura de uma carta de divórcio. E até o divórcio lhe foi negado, pois não queriam libertá-la.
Anna Kariênina temia dar mais filhos a Vronski; temia parar de ser amada ao se tornar novamente uma mãe de família.
E se, assim como seu irmão, ele deixasse de se sentir atraído? E se Anna deixasse de ser objeto de desejo?
Anna representa a angústia de estar entre a mulher respeitável e a mulher que inspira paixão. Aos homens é dado o direito de dividir mulheres nesses grupos.
A amante desperta a paixão. A esposa garante estabilidade moral. E as mulheres sofrem porque querem ser tudo: eróticas, intelectuais, emocionais e socialmente completas ao mesmo tempo.
Ao olhar para o mundo, é como se as Emmas, que sonham com um romance de cinema, merecessem sempre o tédio e a monotonia do lar. Como se as Gabrielas precisassem conter sua autonomia e independência. Como se as Annas estivessem condenadas a escolher entre a paixão e a estabilidade social.
Por que a mulher apaixonada erra tanto? Ou melhor: por que ela é sempre tratada como um erro, independentemente do objeto de sua paixão?
A mulher apaixonada foi historicamente retratada como excessiva, perigosa e irracional.
Mas eu não quero ser Emma, Gabriela e muito menos Anna. Não quero que a paixão precise vir acompanhada de culpa, abandono e sofrimento. Não quero a riqueza sem amor, nem o amor sem segurança.
Quero ser amada por inteiro, sem esconder minhas imperfeições ou viver tentando corresponder ao ideal de outra pessoa. Quero poder existir sem medo de desagradar apenas por ser quem sou.
Quero um amor em que paixão e respeito não sejam opostos. Um amor em que eu possa sonhar junto, sem precisar me anular para permanecer amada.
A paixão sempre traz riscos. Mas não quero que esses riscos prejudiquem mais um lado que o outro.
Quero que a paixão deixe de ser um pecado para as mulheres.
메타데이터
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- 2026-07-13 06:23:13