Cisma — Nova et Vetera (1988)
Assim, Dom Marcel Lefebvre, após ter soprado alternadamente o quente e o frio, deu o passo fatídico do cisma. Trata-se de um ato de extrema…
Cisma — Nova et Vetera (1988)

Recorte da capa da edição da revista.
Assim, Dom Marcel Lefebvre, após ter soprado alternadamente o quente e o frio, deu o passo fatídico do cisma. Trata-se de um ato de extrema gravidade, porque atinge a unidade da Igreja, sendo a Igreja um mistério de comunhão. O mistério da Igreja é ao mesmo tempo invisível e visível: tem sua fonte na divina caridade que Cristo comunica à sua Esposa, e sua comunhão é visivelmente mantida pelo colégio episcopal unido ao seu Chefe, o sucessor de Pedro, que é precisamente o guardião do vínculo da unidade e da caridade. Um Concílio ecumênico é uma expressão eminente do colégio episcopal: «O poder supremo de que goza o colégio em relação à Igreja universal exerce-se solenemente no Concílio ecumênico», «confirmado ou pelo menos aceito» pelo Pontífice romano. [1]
Nisto reside a gravidade do ato: um bispo rompe deliberadamente a comunhão com o colégio episcopal e com o sucessor de Pedro, a quem é prometida a assistência do Espírito Santo, para se erigir em juiz da verdade. Ele arrasta em sua secessão fiéis, dos quais muitos sem dúvida estão de boa fé e não percebem plenamente a natureza do passo que são convidados a dar.
Dom Lefebvre incorre, com isso, em uma pena canônica que o separa da comunhão dos fiéis e atinge de invalidade um certo número de atos de ordem sacramental. Os episcopados publicarão incessantemente o conjunto das disposições canônicas e disciplinares que a ruptura acarretou.
Ouve-se dizer, por vezes: por que excomungá-los, por que não os ter deixado em paz, quando, no outro extremo, toleram-se graves infrações litúrgicas que arruínam a fé dos fiéis? A essa crítica é preciso responder que Dom Lefebvre é um bispo, donde a gravidade excepcional de sua atitude. Além disso, sua condenação não equivale de modo algum a um aval em branco concedido àqueles que também ofendem a comunhão por iniciativas intempestivas, mais que perniciosas.
É preciso responder, sobretudo, que Dom Lefebvre sabia muito bem, de antemão, que incorreria em excomunhão, prevista pelo Código de Direito Canônico. Ele, que não cessa de denunciar a desordem que o Vaticano II teria introduzido, praticou um ato de desobediência que constitui uma infração à lei da Igreja, lei essa que nada mais faz do que refletir a exigência da comunhão. Agiu de tal modo que a lei não podia deixar de se aplicar. [2] Roma apenas constatou o fato.
O objetivo da excomunhão é duplo: salvaguardar o bem comum de toda a Igreja e tentar tocar o próprio pecador, na esperança de levá-lo à resipiscência. É claro que se trata, no caso em questão, de uma falta pública. [3]
Só Deus sonda os rins e os corações. Resta o fato de que Dom Lefebvre praticou um ato público, cujas razões ele próprio expôs publicamente. Fica-se estupefato com a pobreza de uma argumentação que se alia ao seu caráter maciço. Uma série de acusações tão vagas quanto gerais: Liberalismo, Modernismo, Protestantismo, Ecumenismo, Laicismo, etc.; confusão entre a Realeza de Cristo e a confessionalidade do Estado, tudo isso acompanhado do elogio a regimes ditatoriais; pretensa oposição entre direitos de Deus e direitos do homem — poder-se-ia alongar a lista. Notou-se que esse cisma, ao contrário da maioria dos cismas da história da Igreja, não pode nem mesmo valer-se de um sistema doutrinal de certa densidade. Tem-se antes a impressão de uma espécie de autointoxicação à base de slogans, donde a aproximação que se fez entre Écône e o fenômeno das seitas. Terá Dom Lefebvre algum dia se dado ao trabalho de meditar serenamente os documentos recentes do magistério que são objeto de suas furiosas diatribes?
Com efeito, somos atingidos pela violência, pelo excesso, com que se exprime o defensor daquilo que ele chama a Tradição: recolho, a título de exemplos, algumas fórmulas entre muitas outras: «a cátedra de Pedro e os postos de autoridade de Roma estando ocupados por anticristos» [4], «essa Igreja conciliar que conduz à apostasia», «esses bispos conciliares, cujos sacramentos são todos duvidosos» [5]. Mede-se a enormidade das acusações feitas, seu caráter injusto, injurioso e difamatório com relação às pessoas visadas? Só por si, essa linguagem já deveria fazer refletir. Sem sombra de dúvida, por detrás do estilo melífluo desse idoso obstinado, esconde-se uma paixão que já não está sob controle. Tomemos um único exemplo: o encontro de Assis, a propósito do qual o prelado rebelde se desencadeou, acusando o papa de fomentar a idolatria. Ora, o Papa cuidou de explicar o significado de seu gesto, de modo a dissipar toda equívoco possível, situando-o na linha da Declaração Nostra Aetate. [6]
Eis, porém, a questão: o juízo pessoal de Dom Lefebvre, que se considera intérprete autêntico da «Tradição», está acima do ensinamento de um Concílio ecumênico! Tal é a lógica sobre a qual se assenta o cisma de Écône. É uma negação do próprio magistério da Igreja. Não se pode deixar de pensar aqui em um paralelo com o Scriptura sola dos Reformadores. Para estes, o Espírito Santo assegurava a cada crente a leitura justa do texto, passando-se depois à doutrina do livre exame. Dom Lefebvre, que tem palavras muito duras sobre o protestantismo e o liberalismo, engajou-se em um caminho semelhante.
Assim, as acusações feitas procedem da paixão. Mais dolorosa e estupefaciente é a dialética pela qual Dom Lefebvre justifica sua insubmissão.
Durante a Missa de ordenação de 16 novos sacerdotes, Dom Lefebvre voltou a atacar o Concílio Vaticano II, «esse Concílio liberal», e denunciou «o espírito de independência» propagado através das «ideias da revolução», tais como a liberdade e os direitos do homem. Para que continuassem a lutar contra esse espírito liberal de insubmissão e desobediência, lançou aos novos sacerdotes: «Vocês têm o dever de desobedecer para permanecer católicos». O fundador de Écône não parece se importar com mais uma contradição ou incoerência. Na realidade, há uma lógica da ruptura e do cisma, e quem a ela consente é levado até o fim dessa lógica. Em 30 de junho, a trágica deriva consumou-se. Dom Lefebvre não considera, no entanto, que seja cismático nem que esteja criando uma Igreja paralela: «Longe de nós esse pensamento miserável de nos afastarmos de Roma. Pelo contrário, fazemos isso para manifestar nosso apego a Roma, à Igreja de sempre, ao Papa». Alguns integristas pretenderam que, desde João XXIII, a sé de Pedro estava vacante. Dom Lefebvre, sem ir tão longe, parece pensar que as decisões dos Papas conciliares são inválidas, já que esses Papas estão no erro: «Penso em todos aqueles que precederam esses Papas que, infelizmente, desde o Vaticano II, julgaram dever aderir a erros graves e estão demolindo a Igreja, o sacerdócio e a fé católica». Diante dessa situação trágica, invoca-se o «caso de necessidade». Dom Lefebvre pensa ter recebido a missão de salvar a Igreja e o papado contra o Papa. «Parece-me ouvir, neste instante, a voz de todos esses Papas — Gregório VII, Pio IX, Leão XIII, Pio X, Benedito XV, Pio XI e Pio XII — que me dizem: “Por favor, o que vão fazer de nossos ensinamentos? Continuem a guardar esse tesouro. Se vocês não fizerem algo, tudo desaparecerá, a Igreja desaparecerá, as almas estarão todas perdidas”». E se o fundador de Écône havia aceitado negociar com aquela Roma, foi para convidá-la a voltar atrás de «todos esses erros que estão destruindo a Igreja».
Durante a liturgia de ordenação, pergunta-se ao bispo de quem ele recebe o mandato para proceder à cerimônia de sagração. Dom Lefebvre respondeu (em latim): «Visto que a autoridade da Igreja está submetida ao modernismo, tenho mandato por parte da Igreja, e considero nulas todas as sanções que forem impostas contra nós». [7]
Parece haver um raciocínio que sustenta essa atitude de desobediência. Os atos do Papa só são válidos se forem conformes à Tradição. Dom Lefebvre tem mandato da Igreja para decidir, em cada caso, sobre essa conformidade. De fato, Dom Lefebvre, que declara «Longe de mim a ideia de me erigir em Papa», coloca o juízo de sua consciência acima daquele do magistério assistido. Alguns teólogos pensam que não pode haver cisma que, de fato, não venha acompanhado de alguma heresia.
De onde tira o bispo cismático tamanha certeza? Não é sem importância notar que ele recorre a revelações privadas. Na mesma homilia, ele disse: «As desgraças que deveriam atingir a Igreja do século XX, a Virgem as revelou há três séculos a uma religiosa de Quito, no Equador. Disse-lhe também que um prelado se oporia a esses erros, preservando o sacerdócio, só contra todos». O jornalista que relata essa passagem prossegue: «O prelado é ele, sem dúvida. E o terceiro segredo de Fátima, que João XXIII não quis revelar, não faria ele alusão a essas trevas que cobrem o Vaticano?» O orador prosseguiu: «Leão XIII profetizava que Roma seria um dia a sede da iniquidade. Pois bem, eu lhes digo: nunca houve na Igreja iniquidade maior que o dia de Assis». [8]
Convém, antes de tudo, assegurar-se da autenticidade de uma profecia privada. Supondo que esta pareça provável e, portanto, crível, a acolhida que se lhe reserva não pode ser confundida com um ato de fé teologal.
Além disso, ela não é absolutamente infalível. Julgar dessa autenticidade, exercer a seu respeito o «discernimento dos espíritos», cabe, em última instância — como em relação a todo carisma — àqueles que receberam mandato para isso, ou seja, aos bispos e ao Papa. Há iluminismo nas palavras de Dom Lefebvre. Não se pode deixar de pensar na advertência de São Paulo sobre Satanás, que se disfarça de anjo de luz (cf. 2 Cor 11,14). Devemos ter compaixão diante de tal desvario. É à Igreja, não a uma pessoa singular, que foi prometida e é dada, nessas matérias, a assistência do Espírito Santo.
Distingamos, de um lado, entre Dom Lefebvre e aqueles que partilham suas ideias e, de outro, aqueles que seguem o movimento de Écône sem perceber o que está em jogo. Entre estes últimos, há os cujas motivações são políticas: nostálgicos da Action Française ou da extrema-direita. A televisão nos mostrou as celebrações da Missa de Pio V no quadro dos comícios da Frente Nacional. Esse aspecto é sobretudo marcante na França. Há também os que não aceitaram a reforma litúrgica, que lhes parece ter sacrificado riquezas preciosas. Também aí Dom Lefebvre falou com excesso; lançou suspeita sobre a validade da Missa celebrada segundo o rito de Paulo VI. Daí, em alguns, uma crispação que toca o fanatismo. Por fim, há aqueles que ficaram chocados com a falta de cuidado e a ausência de pedagogia com que, aqui ou ali, foram introduzidas as reformas. Sofreram com inovações fantasiosas, nas quais viram, por vezes não sem razão, uma ofensa ao mistério eucarístico e uma ameaça à pureza da fé; puderam ficar desconcertados com o silêncio da autoridade, no qual quiseram perceber uma intenção de deixar correr. Para suportar esse sofrimento, ter-lhes-ia sido necessário um grande amor à Igreja, vivido na oração silenciosa; demasiadas vezes cederam a um espírito crítico e caíram no denigrimento sistemático; ao generalizar, faltaram à verdade e à justiça. Pois não é verdade que os abusos tenham sido obra da maioria do clero; aqueles que a eles se entregam desobedecem e traem as diretrizes, no entanto bem claras, do Concílio. Com o tempo, alguns espíritos se endureceram e se fecharam na amargura, o que, espiritualmente, é uma grande desgraça.
Certamente, em tudo isso há muita estreiteza e uma espécie de incapacidade de discernir o secundário do principal. Mas nosso dever é mostrar-nos compreensivos e dar os primeiros passos em direção a esses irmãos feridos e prontos a se escandalizar. São Paulo aqui nos traça o caminho. Meditemos o que ele nos ordena (Rm, c. 14; 1 Cor, c. 8, c. 10, 14,33):
«A ciência ensoberbece, é a caridade que edifica» (1 Cor 8,1) e que vai ao encontro do que é «fraco»; se «tudo é permitido», «nem tudo é proveitoso»; «que ninguém busque o seu próprio interesse, mas o do outro». Há uma regra evangélica de conduta que, se for aplicada com generosidade e sem segundas intenções, reterá muitos de nossos irmãos de se deixarem arrastar para o cisma.
Por um «motu proprio» datado de 2 de julho, João Paulo II convida a uma aplicação «larga e generosa» das diretrizes, publicadas já em 1984, para fixar as condições de um indulto que autoriza a celebração da liturgia segundo o rito de São Pio V (isto é, utilizando a edição típica do missal romano de 1962). Institui uma comissão romana que, em colaboração com os bispos interessados, deverá facilitar a comunhão eclesial dos sacerdotes e dos fiéis que estiveram ligados a Dom Lefebvre e que agora se recusam a segui-lo no cisma; a estes garante-se «o respeito de suas aspirações». Todos nós somos convidados a refletir sobre nossa própria fidelidade, bem como sobre «a riqueza que representa para a Igreja a diversidade dos carismas». [9]
Retomando aqui a substância de uma carta que havia endereçado, em 8 de abril, ao Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [10], João Paulo II, que terá feito tudo para impedir a ruptura, convida-nos a meditar sobre o verdadeiro significado da tradição.
Após afirmar sua solicitude pastoral por cada pessoa amada por Deus e redimida pelo sangue de Cristo, e em seguida sublinhar a extrema gravidade da desobediência de Dom Lefebvre, o Papa vai ao cerne da questão:
«A raiz deste acto cismático pode localizar-se numa incompleta e contraditória noção de Tradição. Incompleta, porque não tem em suficiente consideração o carácter vivo da Tradição, “que ― como é claramente ensinado pelo Concílio Vaticano II ― sendo transmitida pelos Apóstolos ― progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade”.
Mas é sobretudo contraditória uma noção de Tradição que se opõe ao Magistério universal da Igreja, do qual é detentor o Bispo de Roma e o Colégio dos Bispos. Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vínculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja».
A carta de 8 de abril propunha «o conceito exato da tradição na vida da Igreja»:
«Esse conceito designa, com efeito, a fidelidade duradoura da Igreja à verdade recebida de Deus, através dos acontecimentos mutáveis da história. A Igreja, como o dono de casa do Evangelho, tira com sabedoria (cf. Mt 13,52), permanecendo em obediência absoluta ao Espírito da verdade que Cristo deu à Igreja como guia divino. E essa obra delicada de discernimento, a Igreja a realiza através de seu Magistério autêntico (cf. Lumen Gentium, n. 25)».
Um acontecimento de importância tão considerável para a vida da Igreja como o Vaticano II traz em si a exigência de uma justa compreensão da tradição como integração do novo na continuidade com o antigo. Que o esforço em vista dessa integração tenha visto nascer, paralelamente, uma dupla tendência desviante não deve surpreender-nos demais: uma consiste em ver apenas o novo, sem preocupação com seu vínculo com o antigo — é o progressismo; a outra detém-se no passado «sem levar em conta a justa orientação para o futuro» — é o conservadorismo ou integrismo. A carta ao Cardeal Ratzinger observa que não é nem o novo como tal nem o antigo como tal que correspondem ao verdadeiro conceito de tradição. Essa observação permite-nos compreender por que só sairemos da crise se todos fizermos um leal exame de consciência. Dom Lefebvre é um bispo que praticou uma série de atos de desobediência de extrema gravidade, exibindo, além disso, um raro desprezo pela pessoa do sucessor de Pedro e por sua autoridade. Mas ele não tem o monopólio da desobediência. A maneira presunçosa e desenvolta, e o a priori negativo com que são recebidos documentos e diretrizes da Sé Apostólica por alguns que imaginam estar trabalhando pelo progresso, deveriam ser objeto de um exame semelhante. Pois o que é atingido, aqui e ali, é o verdadeiro sensus Ecclesiae, com tudo o que ele implica de respeito à autoridade e de apego à obediência evangélica. [11]
O Cardeal Ratzinger escreveu a Dom Lefebvre que teria sido legítimo que ele pedisse um desenvolvimento explicativo sobre tal ou tal ponto de um documento do magistério que lhe causasse dificuldade. Ele não podia pôr em questão atos do próprio magistério e da tradição. [12] A aplicação dessa regra ultrapassa evidentemente o caso Lefebvre. Uma coisa é pedir esclarecimentos e expor, com a deferência devida, dificuldades; outra coisa é a rejeição pura e simples, que decorre de um preconceito e de uma ideia preconcebida. Quer se pretenda justificar essa rejeição pela fidelidade a uma concepção petrificada da «Tradição», quer por uma inspiração «profética» de base, o resultado é o mesmo: o que é ferido é o amor à Igreja, é também o olhar de fé voltado para o mistério que ela é.
Sabe-se que, ao lado da Constituição sobre a Liturgia, Dom Lefebvre voltou-se especialmente contra a Declaração sobre a liberdade religiosa. Essa Declaração iria contra as intervenções dos Papas do passado; seria, por si só, a prova de que o Vaticano II é um concílio «liberal» e «modernista». Essa objeção não se sustenta diante da leitura dos textos recolocados no contexto doutrinal e ideológico. O Padre Bertrand de Margerie acaba de fazê-lo, em um estudo muito atento dos documentos, que lhe permite mostrar que temos aí um exemplo de evolução homogênea da doutrina. [13] Antes dele, Pierre Grelot havia tratado do mesmo problema em uma obra na qual responde diretamente às palavras do Fundador da Fraternidade São Pio X. [14]
Essas duas obras são a recomendar a quem deseje aprofundar a questão. Ambas são anteriores ao cisma. O motu proprio chama a atenção dos teólogos para que «se sintam interpelados» pelos recentes acontecimentos, a fim de evidenciar «a continuidade do Concílio com a tradição». Eles o farão, evidentemente, com rigor e objetividade científica, sem ignorar os problemas, que constituem um convite a ulteriores esclarecimentos.
O que vale para os teólogos vale para todos os crentes. Um cisma é uma grande desgraça. Pode, no entanto, ser ocasião de um salutar sobressalto. As coisas estão agora mais claras. Estarão ainda mais claras se cada um tiver a coragem de se interrogar sobre seu senso e seu amor à Igreja, sobre o verdadeiro significado da Tradição [15] e da autoridade do magistério, em seu ministério de verdade e de unidade.
Anexo
Acrescentamos a estas algumas reflexões alguns documentos:
— A Carta de João Paulo II ao Cardeal Ratzinger.
— Uma página de Dom Mamie, bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo.
— Uma carta do Cardeal Journet, que Nova et Vetera havia publicado em seu n.º 1 de 1977. O Cardeal havia, antes de muitos outros, percebido a presença dos fatores que deveriam conduzir ao drama do cisma.
**CARTA DE JOÃO PAULO II AO CARDEAL JOSEPH RATZINGER, PREFEITO DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ**
Neste período litúrgico, em que revivemos, nas celebrações da Semana Santa, os acontecimentos pascais, adquirem para nós particular atualidade as palavras com as quais Cristo Senhor deu aos Apóstolos a promessa da vinda do Espírito Santo: «Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que permaneça com vós para sempre, o Espírito de verdade… que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse» (Jo 14,16–17.26).
A Igreja, em todos os tempos, tem sido guiada pela fé nestas palavras de seu Mestre e Senhor, na certeza de que, graças à ajuda e à assistência do Espírito Santo, permanecerá para sempre na Verdade divina, conservando a sucessão apostólica mediante o Colégio dos Bispos unido ao seu Chefe, Sucessor de São Pedro.
A Igreja manifestou essa convicção de fé também no último Concílio, que se reuniu para reconfirmar e reforçar a doutrina da Igreja, herdada da Tradição já existente há quase vinte séculos, como realidade viva que progride em relação aos problemas e às necessidades de cada tempo, aprofundando a compreensão daquilo que já está contido na fé transmitida uma vez por todas (cf. Jd 3). Nutrimos a profunda convicção de que o Espírito da verdade, «que fala à Igreja» (cf. Ap 2,7.11.17 e outros), falou de modo particularmente solene e autorizado mediante o Concílio Vaticano II, preparando a Igreja para entrar no terceiro milênio depois de Cristo. Dado que a obra do Concílio, no seu conjunto, constitui uma reconfirmação da mesma verdade vivida pela Igreja desde o início, ela é, ao mesmo tempo, «renovação» dessa mesma verdade (uma «atualização», segundo a conhecida expressão do Papa João XXIII), para aproximar tanto o modo de ensinar a fé e a moral quanto toda a atividade apostólica e pastoral da Igreja, da grande família humana no mundo contemporâneo. E é sabido o quanto esse «mundo» é diversificado e até mesmo dividido.
Mediante o serviço doutrinal e pastoral de todo o Colégio dos Bispos em união com o Papa, a Igreja assume as tarefas referentes à realização de tudo o que se tornou herança específica do Vaticano II. Essa solicitude colegial encontra sua expressão, entre outras coisas, nas reuniões do Sínodo dos Bispos. Uma menção particular merece, neste contexto, a Assembleia extraordinária do Sínodo de 1985, realizada por ocasião do 20º aniversário da conclusão do Concílio, a qual destacou as tarefas mais importantes ligadas à realização do Vaticano II, constatando que o ensinamento desse Concílio permanece o caminho pelo qual a Igreja deve caminhar para o futuro, confiando seus esforços ao Espírito de verdade. Em referência a tais esforços, assumem particular relevância os deveres da Santa Sé em favor da Igreja universal, tanto mediante o «ministerium petrinum» do Bispo de Roma, como também mediante os organismos da Cúria romana, dos quais Ele se serve para a realização do Seu ministério universal. Entre estes, a Congregação para a Doutrina da Fé, por vós dirigida, Senhor Cardeal, tem uma importância particularmente relevante.
No período pós-conciliar, somos testemunhas de um grande trabalho da Igreja para que esse «novum» constituído pelo Vaticano II penetre de modo justo na consciência e na vida das comunidades singulares do Povo de Deus. Todavia, ao lado desse esforço, manifestaram-se tendências que, no caminho da realização do Concílio, criam certa dificuldade. Uma dessas tendências caracteriza-se pelo desejo de mudanças que nem sempre estão em sintonia com o ensinamento e com o espírito do Vaticano II, mesmo procurando referir-se ao Concílio. Essas mudanças pretenderiam expressar um progresso, e por isso essa tendência é designada com o nome de «progressismo». O progresso, neste caso, é uma aspiração ao futuro que rompe com o passado, sem levar em conta a função da Tradição, fundamental para a missão da Igreja, para que ela possa perdurar na Verdade a ela transmitida por Cristo Senhor e pelos Apóstolos, e diligentemente custodiada pelo Magistério.
A tendência oposta, que geralmente se define como «conservadorismo» ou «integrismo», detém-se no próprio passado, sem levar em conta a justa aspiração ao futuro, tal como esta se manifestou precisamente na obra do Vaticano II. Enquanto a primeira tendência parece reconhecer como justo aquilo que é novo, a outra, ao contrário, vê o justo somente naquilo que é «antigo», considerando-o sinônimo da Tradição. Todavia, não é o «antigo» como tal, nem o «novo» por si mesmo, que correspondem ao justo conceito da Tradição na vida da Igreja. Tal conceito significa, com efeito, a fiel permanência da Igreja na verdade recebida de Deus, através das mutáveis vicissitudes da História. A Igreja, como aquele dono de casa do Evangelho, extrai com sagacidade «do seu tesouro coisas novas e coisas antigas» (cf. Mt 13,52), permanecendo absolutamente obediente ao Espírito de verdade que Cristo deu à Igreja como Guia divino. E a Igreja realiza essa delicada obra de discernimento através do Magistério autêntico (cf. Lumen Gentium, 25).
A posição assumida pelas pessoas, grupos ou ambientes ligados a uma ou outra tendência pode ser compreensível, em certa medida, particularmente após um acontecimento tão importante quanto foi, na história da Igreja, o último Concílio. Se, por um lado, este despertou uma aspiração à renovação (e nisso está contido também um elemento de «novidade»), por outro, alguns abusos no caminho dessa aspiração — visto que esquecem os valores essenciais da doutrina católica sobre a fé e a moral, e em outros campos da vida eclesial, por exemplo no litúrgico — podem e até devem suscitar uma justa objeção. Todavia, se, por causa de tais excessos, se rejeita toda sã «renovação» conforme ao ensinamento e ao espírito do Concílio, então tal atitude pode levar a outro desvio, que também está em contraste com o princípio da Tradição viva da Igreja, obediente ao Espírito de verdade.
Os deveres que, nesta situação concreta, se impõem à Sé Apostólica exigem particular perspicácia, prudência e visão de futuro. A necessidade de distinguir o que autenticamente «edifica» a Igreja daquilo que a destrói torna-se, neste período, uma necessidade particular do nosso serviço para com toda a comunidade dos crentes.
A Congregação para a Doutrina da Fé tem, no âmbito deste ministério, uma importância fundamental, como o demonstram os documentos que, nesta matéria de fé e de moral, vosso Dicastério publicou nos últimos anos. Entre os temas de que a Congregação para a Doutrina da Fé teve de ocupar-se nos últimos tempos figuram também os problemas relacionados com a «Fraternidade São Pio X», fundada e dirigida pelo Arcebispo M. Lefebvre.
Vossa Eminência sabe muito bem quantos esforços realizou a Sé Apostólica desde o início da existência da «Fraternidade», para assegurar a unidade eclesial em relação à atividade desta. O último desses esforços foi a visita canônica feita pelo Cardeal E. Gagnon. Vós, Senhor Cardeal, ocupai-vos deste caso de modo particular, assim como dele se ocupou o vosso Predecessor de venerada memória, o Cardeal F. Šeper. Tudo o que faz a Sé Apostólica, que está em contínuo contato com os Bispos e as Conferências episcopais interessadas, visa o mesmo fim: que se cumpram, também neste caso, as palavras ditas pelo Senhor na oração sacerdotal pela unidade de todos os seus discípulos e seguidores. Todos os Bispos da Igreja católica, por mandato divino solícitos pela unidade da Igreja universal, são chamados a colaborar com a Sé Apostólica pelo bem de todo o Corpo místico, que é também o Corpo das Igrejas (cf. Lumen Gentium, 23).
Por tudo isso, gostaria de confirmar-vos, Senhor Cardeal, minha vontade de que tais esforços prossigam: não cessamos de esperar que — sob a proteção da Mãe da Igreja — deem seu fruto para a gloria de Deus e a salvação dos homens.
In caritate fraterna
Do Vaticano, 8 de abril do ano de 1988, décimo de Pontificado.
JOÃO PAULO PP. II
Notas de uma noite de grande tristeza (30 de junho de 1988)
Assim, pois, Dom Marcel Lefebvre nos deixa. Não é apenas um dossiê que seria preciso apresentar, mas verdadeiramente escrever as memórias de uma desgraça, na qual a esperança nunca esteve ausente. Dom Lefebvre foi um próximo de meu predecessor, Dom François Charrière, antes, durante e depois do concílio, mas apenas até 1971, quando nosso bispo recusou incardinar em sua diocese os sacerdotes que o fundador da Fraternidade São Pio X queria ordenar. Dom Lefebvre havia percebido algo muito justo, que outros antes dele já haviam realizado — São Carlos Borromeu ou Bérulle: uma formação nova e adaptada, mas na fidelidade, para os sacerdotes daquele tempo. Teria sido necessária, ouso dizê-lo, uma outra inteligência, um outro génio diferentes dos de Dom Lefebvre. Pois nada de bom se constrói quando alguém se erige em juiz de um concílio, quando se recusa a iluminar sua consciência pelo Magistério da Igreja, quando se opõe a todos os seus irmãos no episcopado, e quando, durante quase vinte anos, se desconhece a força e a graça contidas na assinatura de um papa, ao pé dos textos conciliares.
Sofremos por vezes, todos nós, os mais antigos, tivemos dificuldade em entrar na visão profética do bom e santo papa João XXIII. Mas sabíamos bem que estaríamos perdidos se deixássemos a barca de Pedro. Pois é lá que se encontra o próprio Jesus, que por vezes parece dormir. Pois é lá que se encontram a Igreja, e Maria, e a Eucaristia, e a Tradição divina. Mas, muito rapidamente, depois de termos sido um pouco perturbados em nossos hábitos, conhecemos alegrias inesperadas. Penso, em particular — para os bispos — , nas comoventes ordenações de sacerdotes, nas maravilhosas confirmações que celebramos segundo a nova liturgia. Estávamos, estamos no bom caminho: a liturgia não está mais dividida em dois, se me permito dizer, entre atores e assistentes, mas sim todos participantes — sacerdotes, religiosos, religiosas, homens e mulheres, cada um segundo seu estado e sua vocação.
Sim, o segundo concílio do Vaticano terá sido «uma das maiores graças concedidas à Igreja», como dizia o cardeal Journet quando vivíamos juntos em Roma, nos últimos dias daquele acontecimento que transformou a história dos crentes e de todos os homens.
Já o disse: é um livro que será preciso escrever. Mas hoje, lamento mais do que nunca que Dom Lefebvre não tenha aceitado a proposta que lhe fiz em 1976, e que lhe repeti: a de vir refugiar-se em minha diocese, na oração e no silêncio. Pois, se alguém pensa que o sucessor de Pedro se engana, pode sempre escolher a via heroica de não o deixar, de calar-se e de rezar. É ali que Dom Lefebvre reencontrará a paz.
Neste Ano mariano, é a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, que confio, como privilegiados, todos aqueles que sofrem e que estão na tristeza, para que jamais perdam a esperança.
- Pierre MAMIE Bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo
Carta a uma religiosa (Em resposta a uma pergunta sobre Écône)¹
Friburgo, 13.1.75 Seminário
Minha Irmã,
Tenho a sua carta. Estou muito tocado com o que me escreve. Diante de um desvio para a heresia modernista, cria-se um desvio para o cisma integrista.
É um novo Port-Royal que dilacera a França, e não somente a França, mas a Igreja. E é muito mais grave do que o primeiro, já que, para se defender de ser cismático, é-se obrigado a ver heresias nas decisões do Papa e de um Concílio ecumênico.
Seria preciso poder convencer essas Irmãs de que se estão a engajar num caminho que as afastará cada vez mais da Igreja. Pois a Igreja de sempre é a Igreja que tem um Papa.
Seria preciso poder dizer-lhes isso com um grande desejo de as esclarecer. Pedir-lhes que tomem suas decisões diante do Santíssimo Sacramento.
O desvio na conduta de Dom L., que no início apenas queria fazer hoje o que tinham feito no século XVII os Bérulle, Condren… assumiu proporções de cisma.
Eis, minha Irmã, o que lhe posso dizer, assegurando-lhe a minha oração.
- Ch. JOURNET
¹ Original depositado na Fundação do Cardeal Journet, em Friburgo. Nossos leitores compreenderão que não revelemos o nome da destinatária, nem o de sua comunidade.
[1] Const. Lumen Gentium, n. 22.
[2] Cf. Código de Direito Canônico, Cân. 377, § 1. Cabe ao Sumo Pontífice nomear os bispos. Cân. 1382. O bispo que consagra outro, ou aquele que recebe essa consagração, sem mandato do Sumo Pontífice, incorre ipso facto em excomunhão, dita por isso latae sententiae.
[3] Sobre o cisma e sobre a excomunhão, ver Card. Charles JOURNET, L’Église du Verbe incarné, t. II, pp. 823–841 e 841–850 e passim.
[4] Cf. Carta de Dom Lefebvre aos futuros bispos que se propunha ordenar, de 28 de agosto de 1987, reproduzida em Evangile et Mission, Centre diocésain, CH 1752 Villars-sur-Glâne, 14 de julho de 1988, n. 29–30, p. 670. Os números de 7 e 14 de julho de 1988, n. 27–28, 29–30, contêm um dossiê muito bem elaborado sobre o cisma e sua história.
[5] Homilia de 29 de junho de 1988, reproduzida em La Croix de 1º de julho de 1988, p. 15.
[6] Sobre Assis, cf. Lumière d’Assise in Nova et Vetera, 1987/1.
[7] Cf. Homilia citada em La Croix, n.º citado.
[8] Homilia de 30 de junho, relatada por Patrice Favre, em Le Courrier, de 1º de julho de 1988, p. 7.
[9] Cf. Documentation Catholique, de 21 de agosto de 1988, n.º 1967, pp. 788–789.
[10] Reproduzida na Documentation Catholique, de 15 de maio de 1988, n.º 1962, pp. 489–490. Ver anexo.
[11] Dom Sandro MAGGIOLINI acaba de dedicar páginas esclarecedoras a esse tema, L’obbedienza chiara, Attualità di una virtù difficile, Milão, 1988, Ares ed., 117 p.
[12] Essa carta, de 29 de maio de 1985, é citada no dossiê contido na obra de um fervoroso partidário de Dom Lefebvre: Abbé Denis MARCHAL, Monseigneur Lefebvre, 20 ans de combat pour le sacerdoce et la foi, 1967–1987, Paris, 1988, Nouvelles Éditions Latines, 160 p. O dossiê ocupa as pp. 69–152; a carta citada encontra-se nas pp. 143–144.
[13] Bertrand DE MARGERIE, Liberté religieuse et règne du Christ, Préface de Mgr Eyt, Paris, 1988, Le Cerf, VII, 134 p.
[14] Pierre GRELOT, Libres dans la foi, Liberté civique et liberté spirituelle, Paris, 1987, Desclée, 237 p.
[15] Sinalemos, desde já, a importante obra, à qual sem dúvida teremos ocasião de voltar, Pierre GAUTHIER, Newman et Blondel, Tradition et développement du dogme, Paris, 1988, Le Cerf, Cogitatio Fidei 147, 553 p.
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