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A Mata da Mocinha

Eles tinham a mesma idade e o mesmo jeito de andar sem rumo aos domingos pela cidade. Um pouco curvados, cabeças baixas, mãos nos bolsos…

Eu vim de Mirassol · 2026-02-18 21:01 · 0 claps · 4.0 min read
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A Mata da Mocinha

Eles tinham a mesma idade e o mesmo jeito de andar sem rumo aos domingos pela cidade. Um pouco curvados, cabeças baixas, mãos nos bolsos, tênis arrastando no asfalto como se quisessem gastá-los à força. Eram adolescentes o suficiente para achar a cidade pequena e monótona demais e crianças o bastante para ainda não saberem para onde ir ou o que fazer.

Souberam do nome da mata numa tarde qualquer, dessas em que se anda sem destino só para não ficar em casa ouvindo as reclamações dos pais e os sons dos televisores ligados, transmitindo programas dominicais. Um deles apontou para uma faixa de árvores que começava bem depois da última rua asfaltada da cidade. E um disse, como quem repete algo que ouviu muitas vezes:

— Aquilo ali é a Mata da Mocinha.

Disse sem ênfase, como se falasse o nome de uma marca de camiseta. Mas o nome, Mata da Mocinha, ficou suspenso entre eles.

— Mata do quê? — perguntou o outro.

— Da Mocinha.

Ele tinha ouvido aquilo de gente mais velha. Um tio, um vizinho, alguém no bar. Nunca era alguém que tivesse visto alguma coisa de fato. Era sempre “dizem que”. Dizem que chamam assim desde sempre. Mas ninguém sabe exatamente por quê.

A mata não era grande. Apenas um pedaço irregular de árvores fechadas, troncos marrons, galhos finos e grossos embolados, sombra constante mesmo quando o sol estava alto. Não era bonita, nem bucólica. Tão pouco ameaçadora. Mas aquele nome fazia com que o interesse pelo lugar aumentasse.

Começaram a andar devagar em direção a ela, sem intenção de entrar. Ficaram na borda, onde a mata encontra o campo, olhando as sombras entre os troncos.

— Que tipo de Mocinha, hein? — disse um deles sarcástico e sorrindo com os cantos da boca.

— Sei lá… — o outro respondeu. — Mocinha tipo… menina?

Ficaram em silêncio por um instante. Tinham idade o suficiente para apreender significados e seguir regras. Mas, não tinham idade o suficiente para compreenderem nuances. O vento passou por cima do capim seco e desenhou ondas baixas e sinuosas. Um deles chutou uma pedra, que rolou até sumir na sombra.

— Vai ver era uma menina que vinha aqui escondida — disse o primeiro. Pra… você sabe.

— Pra quê?

— Pra beijar. Pra fazer outras coisas.

Sentiram arrepios como pequenas pegadas de inúmeras lagartixas. E um nó na garganta como quem engole uma bolota de miolo de pão seco.

— Com quem?

— Sei lá. Com algum cara.

Riram um riso alto e nervoso. As palavras ficavam muito quentes, muito rapidamente dentro da cabeça deles, misturando curiosidade com vontade mal definida. E o nome, “Mata da Mocinha”, era um daqueles que permitia esse tipo de pensamento.

— Ou vai ver ela vinha sozinha — disse o outro, aparentando falar mais sério. Tipo querendo fugir de casa, sabe?

— E quem foge pra dentro do mato?

— Quem não tem mais pra onde ir, ué.

Os dois se sobressaltaram como se tivessem sido pegos fazendo algo errado. O silêncio voltou.

— Vai ver não era nada disso — disse o primeiro, tentando mudar o tom e despistar. Vai ver era o apelido de alguma mulher que morava perto.

— Tá louco. Mulher ninguém chama de mocinha!

— Antigamente chamava.

— Ah é? Antigamente também era comum matar gente e enterrar no quintal!

O outro olharam para dentro da mata de novo. Com o sol já descendo no horizonte, a sombra parecia mais profunda e uma umidade tépida começava a emanar das folhagens.

— Olha só — disse um deles, mais baixo — e se alguma menina morreu aí?

O outro deu um sobressalto.

— Morreu como?

— Sei lá. Se perdeu e morreu. Ou… mataram — disse o primeiro em tom lúgubre.

— Aí o nome não ia ser Mata da Mocinha. Ia ser a Mata da Morta.

— As pessoas mudam os nomes das coisas, ué. Pra ficar mais legal.

— Ah, para! Até parecem que vão mudando os nomes das coisas assim.

— Verdade. Você não muda de nome todos os dias. Por isso que vai ser chato para sempre.

Os dois riram alto e ficaram ali divagando e inventando possibilidades. Um falava em crime, em corpo escondido, em grito ouvido à noite. O outro falava em assombração, em alguém que aparece de branco entre as árvores, em coisa que chama quem passa pelo nome e desaparece depois. As ideias vinham misturadas com risadas, silêncios e arrepios, como se não soubessem direito onde acabava a brincadeira e outra coisa começava.

— Você entraria aí? — perguntou um deles.

— Eu não!

— Por quê?

Olhou ao redor e respondeu — Porque já tá ficando tarde. Era verdade. A cor do céu anil ia cedendo espaço a um ciano opaco. As nuvens estavam bem altas e esfumaçadas, como pedaços de algodão espalhados no tapete da sala. E o domingo chegava ao fim trazendo aquela tristeza que eles conheciam tão bem.

— Amanhã já temos aula — disse um deles, sem um pingo de entusiasmo.

— Último domingo — respondeu o outro desolado porque as férias de julho pareciam ter sido curtas demais.

Dormir até tarde, andar por aí sem ter hora pra voltar pra casa, não pensar em nada. Jogar bola e usar a mesma roupa todos os dias. Agora aquilo tudo seria momentaneamente interrompido pela volta às aulas. Olharam a mata pela última vez com aquela atenção meio melancólica que se dá a coisas que não vão mudar, mesmo quando a gente muda.

— Seja lá quem foi a mocinha — disse um deles –, ela vai ficar aí no escuro.

— É — respondeu o outro – bem escondida.

Começaram a andar de volta para a cidade. As luzes dos postes iam acendendo uma a uma, formando círculos amarelos no chão. Atrás deles, a Mata da Mocinha absorvia o resto de luz do sol para devolver sombra, frescor e oxigênio no dia seguinte.

E o domingo terminou ali, naquele caminho de volta para casa, com o vento fresco descendo de cima sobre as cabeças descabeladas deles e a certeza de que algo tinha acabado como acabam as tardes boas, as férias curtas e as perguntas de meninos que seguiriam a vida sem ter respostas.

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