Extraordinariamente ordinário.
Uma partilha sobre amar a vida que passa.
Ordinariamente extraordinário.
Uma partilha sobre amar a vida que passa.

Dia após dia me aumenta uma estranha percepção de que os dias parecem se repetir ao mesmo tempo que cada dia é diferente. Sei que isso parece um absurdo vindo de um moço como eu, de cara lisa, com um e oitenta de altura, magro feito a gota e que mal começou a viver a vida, mas é o que vejo; e o que vejo faz-me sentir mais vivo.
Há algo no alarme que toca todas as manhãs, na preguiça em levantar para desligá-lo, no bom e velho café com tapioca logo cedo e na pressa para não chegar atrasado na aula, que, mesmo repetindo-se trezentas e sessenta e cinco vezes, é novo! Há algo de extraordinário no ordinário da vida que não sei porquê me fascina e nem o porquê que me atrai tanto. Pode-se até dizer que são só horas que passam, instantes que acabam, momentos vividos e dias contados, mas eu respondo convencido a quem afirma isso que existe algo que mesmo reprisado é novidade, que sendo normal é incomum, algo que é habitualmente inabitual.
Em cada tique-taque do relógio há uma chance de ser melhor do que no tique-taque anterior, pois esse tiquetaquear não é o som de uma bomba-relógio, mas o som gostoso de uma música, da Canção da Vida. E para dançar nesse compasso zanzante, é preciso reconhecer que não se sabe dançar e querer aprender com o melhor professor que há, e que de certa maneira é a canção: o Tempo.
Apesar de ainda cheirar a leite, aprendi nas aulas de “Dança da Vida” que para dançar sua melodia é preciso dançar com suavidade e paciência, sem correr entres os passos, mas antes perceber que estou na música e a música em mim. Daí em diante, para bailar bem, é preciso andar na terra com pés no Céu; sentindo em cada passo que o cair das folhas, o miado do gato no muro, o gritos do camelô, as buzinas na rua e as moedas batendo no caneco do mendigo são instrumentos nessa melodia e que não podem passar desapercebidos.
Assim que percebi que cada dia que se repete na realidade se reinicia, entendi que era preciso estar de todo no presente, mesmo que meus olhos vez ou outra se estendessem para o futuro, ou que meu coração lembrasse do passado; é preciso dançar a “Dança da Vida” e sem se estar com a alma no baile as chances de tropeços e decepções são grandes.
Depois de descobrir que vivo e que tudo ao meu redor também vive, tornou-se impossível não querer que outros saibam que vivem e levá-los a desejarem viver nesse ritmo animado e simples, repetitivo e viciante que a vida tem. Para mim, tornou-se fundamental comunicar ao outro que há um tempo para se aproveitar e que ele está passando e não podemos permanecer indiferentes.
Nunca me esqueci do que li uma vez no livro do Eclesiastes: “Para tudo existe um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do Céu. Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e de colher. […] Assim, concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida”. Para mim, isso não é uma carta branca para viver como quero e aproveitar a vida logo porque ela é efêmera. Mas, justamente por seu caráter passageiro, tenho que viver fazendo com que cada segundo passe com sentido, passe sendo amado; sim, “amado”, pois só o amor modela e dá sentido a todas as coisas! E quando o Tempo deu espaço para o Eterno andar por ele, foi aí que o Tempo sacralizou-se, ganhando luz e sabor antes jamais vistos e provados, porque o Amor andou entre nós para mostrar-nos a lama em que viviámos (e vivemos), e nos chamar a deixarmos essa vida porca e assumirmos nossa humanidade como Ele a assumiu.
Enfim…, “essa é minha alegria e ela é completa”!
메타데이터
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