Invisíveis
Fundi o cérebro de tanto pensar em alguém para falar que nunca tenha visto mas que alguem tenha me contado a história dele, quando passo no…
Invisíveis
Fundi o cérebro de tanto pensar em alguém para falar que nunca tenha visto mas que alguem tenha me contado a história dele, quando passo no sinal onde ficava um rapaz vendendo balas.
Ué, pensei porque não falar dos Zé ninguém que vivem por aí. Que todos enxergamos sem nunca ver.
E é dele que falarei homenagem aos milhares de cidadãos brasileiros sem nome, sem sexo, sem dignidade, aqueles que são invisíveis à maioria por prestarem serviços considerados inferiores.
Desde que o avistei pela primeira vez me chamou atenção. Um garoto negro de uns vinte e poucos anos, vestido com sua bermuda estampada, blusa clara, boné de um time de futebol, tênis limpo e meia três quartos vendendo suas balas numa caixa que segurava nas mãos como uma bandeja.
Aceita senhora, perguntava educadamente.
Quando eu comprava, sorria, e sempre tinha uma palavra de agradecimento.
Passei a comprar sempre. Rezava para o sinal estar fechado para que eu levasse três balas de goma por cinco ou seriam dez?. Não importava, o que eu queria era ajudar a diminuir os produtos que ele vendia.
Numa semana vi que oferecia água num isopor minúsculo . Perguntei quanto custava um maior. Não mais que 50 respondeu. Dei o dinheiro para adquirir um para que pudesse vender agua em quantidade.
Semana seguinte o avistei com a caixa pequena. Veio correndo para explicar que estava comprando um carrinho para puxar o isopor já que morava longe.
E foi exatamente o que aconteceu ao vê-lo no próximo mês vendendo a água e o carrinho encostado no muro.
Pedi uma e sorriu agradecendo. Essa era por conta da casa.
De uma outra vez, perguntei se não queria sair do sinal e arrumar um emprego fixo. Respondeu de pronto que seu sonho era ter seu próprio negócio. Enquanto isso vendia água e balas.
Ficou sumido. Apavorada assim que o vi perguntei o que aconteceu. Estava pintando um apartamento. As vezes pegava uns bicos.
Consegui comprar um boné para dar de natal. Um original de um time europeu. Sorriu mais uma vez e agradeceu.
Foi a última vez que vi aquele sorriso.
Depois da passagem de ano nunca mais o avistei.
Preocupada depois de dias , parei o carro no sinal, no meio da calçada e perguntei na loja da esquina se alguém tinha notícias do vendedor de bala.
Quem? Perguntou o dono da loja de pneus?
Aquele moço que ficava aqui todos os dias ? Nunca vi. Disse o gerente.
A vendedora falou que lembrava mas não reparou que ele não estava mais lá.
Atravesse a rua e fui na casa de tintas. Alguns lembravam, outros diziam que ali tinha cada dia uma pessoa diferente pedindo esmola.
Irritada disse que não era pedinte era um ambulante. Uma perguntou o nome dele. Não soube dizer
Voltei para o carro.
Porque nunca perguntei seu nome? Voltei pro trabalho. Avistei a faxineira que esbarrava todos os dias na portaria.
Qual o seu nome? Net.
Oi Net, um bom dia para você.
A noite passei na padaria, a mesma de todos os dias. Paguei na caixa. Qual o seu nome? Beth.
Obrigada Beth. Você tem filhos? Puxei papo.
Quantos mais por aí, sem nome, sem dignidade. Invisíveis?
메타데이터
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