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Nascidos na tormenta.

Escrito na madrugada de 12 a 13 de julho de 2024.

Gabriel Franco · 2024-07-16 20:32 · 0 claps · 1.5 min read
#tormenta #árvore #tronco #membros #fantasma
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Nascidos na tormenta.

Escrito na madrugada de 12 a 13 de julho de 2024.

nós, filhos da tormenta.

frutos de uma árvore genealógica da qual falta um, ou mais, troncos.

são muitos de nós. espalhados mesmo, por aí, como agulhas no palheiro, grãos de areia no mar.

nós nos vemos e se esbarramos todos os dias, creio. mas são raríssimas às vezes que nos encontramos.

por vezes, quase que acidentalmente, nós dissemos (ou a nós é dito) “há um tronco faltando”. pois seguiu, em nós, o ramo vazio caudaloso da árvore que nos frutificou.

e esse membro, que é fantasma, um membro fantasma, nos aterroriza. o tronco que falta ronca, roça, pesa e até dá frutos e acolhe ninhos. mas não está ali.

nós vemos e sabemos que há outras árvores assim nascidas, ou seja, contendo esses troncos espirituais. sabemos que, em todas essas árvores, essa falta tão presente as incomoda.

mas são poucas, pouquíssimas árvores, que parecem ir contra a sua natureza. são essas que buscam preencher o vazio com dados de realidade… ou algo próximo de real, ou ao menos palpável.

mas são elas, as árvores que não escondem o vazio, que parecem buscar a cura (ou, pelo menos, tratar) a síndrome de membro fantasma.

logo nós, nascidos e criados carregando o medo de si mesmos.

somos aqueles e aquelas com medo de sonhar e pedir ajuda. a nós, em herança, flui o terror de compartilhar aspirações e incômodos. pois ambas pulsões parecem ter sido a razão de terem levado o que nos falta.

o que parece empoderar, portanto, soa como algo que pode nos defenestrar. e, com isso, nós próprios tornarmo-nos novos membros fantasmas.

afinal…

por que tratar o tronco que ninguém vê? por que tratar o tronco que outras árvores possuem também, se elas escolhem aparentar não ter, e até dizerem que não precisam cuidar? que nem mesmo o sentem ali, apesar do paradoxo de prontamente responderem, com exatidão, sobre a que tronco estamos falando. como lidar com a presença de que(m) não existe mais? que não é você, embora dela tenha brotado você.

essas, e muitas outras, são as perguntas que atormentam o fluxo das seivas que nos constituem. e parecem até nos envenenar, tirar nosso oxigênio. até percebermos que, afinal, assim somos nós.

mutilado, porém não quebrado. à deriva, mas não atordoado. doído, e não doido. desgarrado, mas sem ser solto. são, jamais, louco.


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