Escutatória
Muito se fala, pouco se escuta. Por que isso acontece?

Diagrama com elementos básicos da comunicação
Escutatória
Muito se fala, pouco se escuta. Por que isso acontece?
Uma resposta objetiva — principalmente porque os elementos do diálogo estão comprometidos, perderam sentido. Os ruídos prejudicam a comunicação (códigos mal empregados pelo emissor, comprometendo a mensagem, preconceitos do receptor, antecipando as motivações da mensagem e sua recusa). Seja como for, emissor transmitindo mal ou o receptor não recebendo a mensagem (não decodificando-a adequadamente), certo é que a escuta é elemento cada vez mais comprometido.
Dimensões do diálogo/ comunicação e seus elementos
- Estrutural (emissor, receptor, mensagem)
- Operacional (codificação, canal, decodificação)
- Crítica/ ruído (social, cultural, tecnológico)
Rubem Alves disse certa vez: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar… Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil.”
Fui voluntário do CVV e posso dizer que lá é uma organização que se esforça para escutar verdadeiramente. Para quem não conhece, trata-se de uma ONG que presta “serviço voluntário gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato.” Há um intenso treinamento de seus voluntários, com RPGs, discussão de casos, definição parâmetros para uma escuta integral. O diálogo é decomposto em três aspectos determinantes, problema, identificação social e o sentimento. A escuta e, por conseguinte o diálogo com a “outra pessoa”, termo que designa quem liga para o CVV, deve focar no sentimento e não na outras duas componentes.
Teoricamente, a escuta que o CVV propõe é baseada nos conceitos do psicólogo Carl Rogers, conforme os seguintes preceitos: Aceitação Positiva Incondicional: Acolher quem nos aborda sem julgamentos, valorizando-o como pessoa, independentemente de seus comportamentos ou sentimentos. Compreensão Empática: A capacidade de sentir o mundo interior do cliente como se fosse o seu, sem perder a sua própria identidade. Autenticidade (Congruência): O terapeuta deve ser genuíno e honesto na relação, sem máscaras profissionais.
Escutar é um ato de decolonialidade? Consigo interagir com o outro, para além dos preconceitos? Para provocar, diria que Carl Rogers revisitado e sua proposta de Aceitação Positiva Incondicional chega a ser revolucionária num mundo em que se escuta tão pouco e se fala demais.
메타데이터
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