DONA CAÇULA, REZAS E FOLHAS
Descendo uma ladeira do Engenho Velho de Brotas, deparei-me recentemente com uma cena que julgava quase extinta: uma senhora “rezando” uma…
DONA CAÇULA, REZAS E FOLHAS

Descendo uma ladeira do Engenho Velho de Brotas, deparei-me recentemente com uma cena que julgava quase extinta: uma senhora “rezando” uma criança. O gesto — simples, íntimo, cotidiano — funcionou como gatilho. Transportou-me de imediato à infância e à figura de dona Caçula.
Dona Caçula era uma mulher negra, de estatura baixa, cabelos curtos e mãos firmes, que morava em frente à minha casa. Sua imagem, embora banal na época, tornou-se símbolo de um tempo. Era comum vê-la rezando crianças e adultos, sempre com um punhado de folhas colhidas na alvenaria próxima, que deslizavam do alto da cabeça aos pés do paciente. Entre rezas murmuradas, inaudíveis, e o silêncio cúmplice de quem assistia, desenrolava-se um ritual que misturava fé, tradição oral e cura simbólica.
Minha mãe dizia que quase sempre se tratava de “olhado” — o “olho gordo”, essa forma popular de designar a inveja que adoece, esvazia, quebra. Crianças com diarreia eram trazidas com frequência. E, se a eficácia era ou não comprovada, pouco importava: havia uma demanda constante. Dona Caçula oferecia algo mais precioso que a cura imediata — oferecia alívio, um contrapeso à sensação de vulnerabilidade.
A cena retorna à minha memória porque, tempos atrás, vivi um episódio semelhante. Usava um colar presenteado quando duas pessoas, em uma festa, elogiaram a peça; uma delas chegou a tocá-la. Horas depois, o colar se partiu sem explicação. Coincidência? Talvez. Mas o gesto evocou as rezas de dona Caçula, mostrando como, mesmo nos sujeitos mais descrentes, permanece uma fresta aberta para a lógica do invisível.
Na Bahia, esse campo da fé popular é parte do tecido cultural. Rezas, benzeduras, passes e defumações atravessam práticas domésticas, terreiros, igrejas cristãs e centros espiritualistas. Não se trata de crença isolada, mas de um sistema de proteção simbólica que acompanha o cotidiano, ajudando a suportar sofrimentos e a negociar com o imponderável.
Contudo, esse sistema se transformou. O gesto de dona Caçula, realizado na varandinha de sua casa com folhas colhidas do quintal, não desapareceu, mas perdeu centralidade diante de um novo modelo: o das igrejas neopentecostais. Nelas, o alívio espiritual migrou da informalidade comunitária para a estrutura empresarial. O que antes era um trocado dado discretamente à benzedeira, tornou-se contribuição sistemática, debitada em conta ou transferida via PIX. A fé reorganizou-se segundo a lógica do capital, organizada pelos pastores-empresários, que fazem a velha política em almoços, jantares e agora em vídeos histéricos e passeatas golpistas.
O fenômeno é sintoma dos tempos. A espiritualidade comunitária, enraizada em práticas africanas, indígenas e populares, convivia com o improviso, a oralidade e a reciprocidade. Hoje, a fé — em grande parte — é administrada como serviço. Um serviço que promete cura, prosperidade, libertação, mas que cobra mensalidades, como qualquer outro mercado.
Assim, a imagem de dona Caçula rezando com folhas contrasta com os templos iluminados por telões de LED. Ambos respondem a uma mesma necessidade humana: lidar com a fragilidade e a inveja, com o medo e o azar. Com o imponderável da vida e os mistérios do pós-morte. A diferença é que, enquanto a primeira operava no registro da dádiva, da vizinhança e do corpo, o segundo opera no registro do consumo, do espetáculo e da moeda.
Sinal dos tempos, dona Caçula.
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