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A novela que catapultou Gilberto Braga ao horário nobre

Dona Xepa (1977)

Casa do Folhetim · 2026-05-05 02:01 · 0 claps · 3.9 min read
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A novela que catapultou Gilberto Braga ao horário nobre

Dona Xepa (1977)

Rosália e Dona Xepa.

Rosália e Dona Xepa.

Antes de se aventurar no horário nobre, Gilberto Braga conquistou o público com adaptações de obras no horário das seis. A última delas foi criada como uma “estratégia” para mostrar seus diálogos contemporâneos à direção da Globo e, assim, abocanhar um espacinho às sete. O experimento deu tão certo que Braga despontou direto para as oito, onde escreveu a antológica Dancin’ Days (1978). Isso aconteceu a custo de uma novela que ele viria a definir como “tosca”, mas que fez incontestável sucesso, apesar de não figurar na memória coletiva atual: Dona Xepa.

Xepa e seus amigos da vila.

Xepa e seus amigos da vila.

A trama, baseada na peça homônima de Pedro Bloch, conta a história da personagem-título, interpretada por Yara Cortes. Carlota Pires da Costa, a Xepa, é uma feirante que dedicou toda a vida a criar e encaminhar seus dois filhos. Foi, em todos os sentidos, uma supermãe. Agora que Edson (Reynaldo Gonzaga) e Rosália (Nívea Maria) estão adultos e ensaiam ascensão social, surge uma incompatibilidade cultural e comportamental no ambiente familiar, gerando conflitos. Enquanto Edson é escritor e tenta emplacar no mercado literário, Rosália busca um casamento conveniente.

Em comparação às obras posteriores e inteiramente originais do autor, Dona Xepa talvez não apresente os diálogos mais potentes. Contudo, levando-se em conta o contexto, é perfeitamente compreensível por que ela ajudou Gilberto a entrar para o rol de grandes autores da casa: o DNA já estava presente e era único. Orbitando em torno do foco da narrativa, uma mãe, ficam os dilemas familiares, os ricos decadentes e o carreirismo, elementos comuns nas obras do autor. Não só pelo título, Dona Xepa é uma típica “novela de personagem”.

Dona Xepa.

Dona Xepa.

A heroína tem seu carisma. É aquela figura matriarcal que, por ter pouca instrução, acaba subestimada pelos filhos — e esses, se têm alguma instrução, precisam agradecer aos esforços empregados pela mãe. Yara Cortes empresta à personagem uma construção doce e ingênua que comove e, ainda que o texto não indique isso, leva o espectador a condenar os filhos. Eles podem estar corretos em algumas situações, mas são desleais com a própria mãe. Algo próximo ao que ocorreria com Fátima e Raquel em Vale Tudo (1988), também de Braga.

Complementando o contexto, estão Glorita (Ana Lúcia Torre) e Isabel (Ida Gomes), mulheres refinadas que contrapõem o jeito expansivo da protagonista, mas que também se contrapõem. Isabel é acolhedora e simpática, enquanto Glorita, que está à beira da ruína, é esnobe e prepotente. Mais tarde, quando Rosália se relaciona com Heitor (Rubens de Falco) e entra para a família de Glorita, que é madrasta do rapaz, ainda surgem embates impactantes entre Xepa e sua maior figura antagônica, que dão um gostinho da maior qualidade de Gilberto: os enfrentamentos.

Por falar em Gilberto, ele garantia que a novela virava uma bagunça a partir do capítulo 40, mais ou menos. Respeitosamente, discordo. É justamente daí em diante que nascem os melhores conflitos, que fazem os núcleos convergirem de vez. Em poucos momentos surge o texto mais reflexivo de que o autor ainda abusaria em Dancin’ Days e Água Viva (1980). Entretanto, apesar de pontuais, são momentos notáveis. Nos últimos capítulos, por exemplo, Edson explica à mãe que ela precisa ser mais individualista, ao que ela responde, depois de entender o conceito, que ele deveria ser menos. No fim, os dois estão corretos.

Heitor e Rosália.

Heitor e Rosália.

Apesar de tudo, a maior qualidade da trama é ter as mesmas qualidades de sua protagonista: foi uma obra simples e honesta. Certas limitações de produção da época, talvez, fazem a direção agregar pouco ao texto, que não chega a ser tosco, mas é bastante popular e cômico, não deixando de ter boas nuances e estimular debate, é claro. Fez bem a Gilberto partir para o horário nobre e testar Daniel Filho, Roberto Talma e Paulo Ubiratan, até chegar a Dennis Carvalho, o seu maior parceiro de criação.

Vale, ainda, destacar algumas atuações. Yara Cortes, que constrói uma Xepa adorável em sua histrionice; Ana Lúcia Torre como a socialite decadente Glorita; Edwin Luisi como Daniel, uma espécie de mocinho jovem; e Nívea Maria como a amoral e dúbia Rosália. Aliás, a trama conta com um bom número de personagens jovens, bastante participativos e diversos em comportamentos e ideais, tornando-os intrigantes e únicos. Edson, por exemplo, é amargurado e frustrado. Memorável o momento em que Xepa, vendo que o filho vende poucos exemplares de um romance, passa a comprar dezenas e esconder em casa, só para deixá-lo feliz.

Quem procura pelo melhor de Gilberto Braga talvez não encontre aqui. Aqueles que buscam atestar a evolução do autor e entender como, merecidamente, conquistou o prestígio que o levou ao auge, não precisam ter medo do play. Um pouquinho mais verde, ainda é o mesmo que escreveria Vale Tudo com elementos similares. Aliás, sinto que Xepa teria muito a conversar com Raquel Acioli, assim como Rosália e Maria de Fátima compartilhariam de visões de vida bastante parecidas. Demorou, mas Carlota está bonitinha no Globoplay, esperando por nós.

[embed]Uma das simpáticas músicas da trilha sonora.


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