obstinação
Todo dia ela alimentava os pombos. Dois, três, quatro de uma vez — eles vinham esperar, afoitos, no parapeito da janela da sala de estar.
obstinação
Todo dia ela alimentava os pombos. Dois, três, quatro de uma vez — eles vinham esperar, afoitos, no parapeito da janela da sala de estar.
O pai já disse, uma vez, para parar. “São ratos”, disse ele. “Só que com asas”. Ela ignorou o comentário. Todo mundo sabe que ratos com asas são morcegos, não pombos.
A mãe achava nojento. “Tira a mão desse bicho, menina!”, e fez cara feia. “Vai saber por onde passaram e o que fizeram antes de vir aqui”. E ela pouco levou em conta isso também. O cachorro Lulu, uma vez, comeu o próprio vômito, e pouco tempo depois a mãe estava lá dando beijinhos no focinho dele. A hipocrisia não convence a mente obstinada, e por isso ela seguia alimentando os pombos.
Do alto da cidade, em meio ao caos urbano da manhã, sob forte chuva de sons e gritos e buzinas e risadas, ela via os pombos indo e vindo. Livres, destemidos, inocentes. Podiam até trazer doenças, mas, para ser justa (e ela se orgulhava de ser muito justa!), pessoas também não adoecem as outras a torto e a direito? Enfim, incoerência também não convence a mente obstinada, e ela pegava mais um punhado de cereal para alimentar os pombos na janela.
Certo dia, meses após o início do hábito peculiar, porém neste ponto já totalmente trivial para os pais (adultos, como se sabe, geralmente têm outros infortúnios piores com que lidar), algo diferente aconteceu: um dos pombos, o mais gordinho daquele grupo, pousou no parapeito com algo preso no bico. Ao abrir a janela, curiosíssima, ela percebeu que — uau! — era uma nota de dez reais. Ficou maravilhada! Com dez reais daria para comprar bastante coisa. Ela agradeceu com um pouco mais de farelo de pão para este pombo em particular, e logo estavam todos alçando voo novamente. Satisfeitos, pombos e menina, voltaram à rotina — mas ela, agora, com um segredo que a animava e fazia um sorriso malandro surgir quando ninguém estava olhando.
Na semana seguinte, foi a vez do pombinho mais baixinho trazer algo. Era ainda melhor que o presente anterior: um brinco de ouro! Bem, não o par, mas um deles já era bom. Era dourado, pesava e brilhava. Ela mordeu o brinco, como fazem na televisão, e pôde constatar que era duro. Ou seja, nada de imitação, era ouro puro! Guardou mais este pequeno tesouro, e seu sorriso naquele dia escapulia por entre os lábios a cada minuto. Que aventura!
Passou a esperar os presentes com ansiedade, imaginando o que viria da próxima vez. Logo, um pombo com manchinhas escuras também resolveu dar fim ao mistério, e trouxe a ela uma carteira cheia de dinheiro. Dentro, ela encontrou setenta reais e vinte centavos, um rabicó, a foto de um bebê, cinco cartões de bancos diferentes e alguns documentos. O dinheiro ela, guardou para si, imaginando poder comprar roupas novas na volta da escola, naqueles quarenta minutinhos em que a mãe sempre demorava a chegar. A carteira, com todo o resto, ela deixou cair de volta ao chão lá embaixo, sem ver o alvo. O destino, sabia ela, se encarregaria de levar tudo de volta à pessoa que perdeu — ou melhor — foi roubada pelo pombo.
Remorsos? Não sentiu. Era uma troca justa: humanos maltratam pombos, pombos tomam alguns meros pertences ínfimos e pouco importantes para presentear a única amiga que eles têm. Fazia sentido na cabeça dela, pois era um ato de carinho dos pássaros, um agradecimento fofo, porém valioso. A delicadeza, sim, convence uma mente obstinada.
Sendo assim, tornou a esperar os presentes, e eles cada vez vinham melhores, ainda que com menos frequência. Ganhou um colar de prata, um cachecol verde, um par de óculos de sol, quatro outras carteiras recheadas e um livro de autoajuda ruim. E isso tudo levou dois anos no total, fazendo com que a menina aprendesse que a paciência também convence uma mente obstinada.
Assim, anos se passaram, e os pássaros sumiam por longos meses (chegaram a ficar um ano e meio sem aparecer!), fazendo a menina desistir de esperar todo dia, e de colocar comidinhas no parapeito da janela da sala de estar toda santa manhã como fazia há tanto tempo. Chegou uma fase em que havia muita coisa em sua cabeça, e logo o que era muito virou demais, e o que era demais virou insustentável, e ela esqueceu, um dia, que os pombos existiam. Sua mente obstinada foi enfraquecida pelo cansaço, e ela vendeu o apartamento dos falecidos pais.
No dia em que recolheu tudo que faltava, de mudança para a casa nova com os filhos, gatos e marido, lembrou-se subitamente de que — carambolas! — havia uma caixa de madeira com todos os presentes de seus amigos pombos que estava escondida em seu quarto, debaixo de uma tábua do chão que podia retirar e recolocar. Ao abrir a caixa, com mãos nervosas, percebeu que tudo lá estava meio velho e empoeirado, mas ainda eram seus tesouros, seus segredinhos. Pôs-se a lembrar da vida que levava, e seu marido a encontrou, inconsolável, derramando uma cachoeira de lágrimas sobre um cachecol verde puído e rasgado.
Sentia falta dos pombos, sentia falta dos pais, e sentiria falta daquele apartamento, mas, acima de tudo, sentia falta de ser uma menina esperta, gentil, astuta, que poderia mudar o mundo com um pedacinho de pão de cada vez. Sua mente obstinada, finalmente, vencida pelo tempo.
메타데이터
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