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A trajetória de um campeão

Nunca pensei que 48 anos caberiam em 20 segundos. Minha carreira passava pela minha mente enquanto meu rosto suado era pressionado contra o…

Victoria Cansian · 2023-11-08 15:36 · 0 claps · 2.1 min read
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A trajetória de um campeão

Nunca pensei que 48 anos caberiam em 20 segundos. Minha carreira passava pela minha mente enquanto meu rosto suado era pressionado contra o tatame. Eu estava perdendo e tinha apenas aquele tempo para salvar a chance de me sagrar campeão. Passaram-se 19 segundos enquanto observava a faixa à minha frente: “Mundial Master de Judô 2018”. Tirei forças de onde nem sei explicar. Foi o segundo mais doloroso da minha vida. Consegui superar meu adversário, imobilizá-lo e o árbitro sinalizou minha vitória.

Foto: Veterans World Championships / Brandenburger Aurelian

Foto: Veterans World Championships / Brandenburger Aurelian

Meu nome é Nelson Onmura, eu tenho 65 anos, sou japonês e já conquistei o mundo quatro vezes. Comecei a treinar judô por influência do meu pai, em 1970, e nunca mais parei. Ele se esforçou muito para me deixar treinar. A maior alegria dele foi em 1980, quando passei dois meses treinando no Japão. Eu apanhei muito, era jovem e baixo.

Hoje tenho 1,62cm, e meus adversários têm em média 1,75. Foi nesta viagem que descobri minha desvantagem e aprendi que para vencer, minha técnica deveria ser mais eficaz que meu oponente. Passei por muitos tatames, conquistei 500 títulos e mil medalhas em torneios oficiais e não oficiais.

Eu treinava direto, de segunda a sábado, focava no físico de manhã e técnico a noite. Aos sábados, eu ia até um sítio de um amigo, e cortava árvores com o auxílio de um machado como treino de força. Minha vida social era inexistente e todo o meu ciclo vestia kimono.

Sou solteiro, nunca me casei e nem tive filhos. Abdiquei de tudo que poderia ter tido um dia, e faria novamente se fosse necessário. Antes de me tornar treinador, eu dava aulas em escolas para ajudar a pagar inscrições de campeonatos e outros gastos.Tive que largar meus estudos e fazia de tudo para seguir competindo.

A cada campeonato que surgia, uma batalha nova começava. A busca por patrocínios, por auxílio, por ajuda. Nunca me esquecerei dos Panamericanos de 1987 e o pódio que quase não subi. A luta iniciou aqui no Brasil, na tentativa de juntar dinheiro. No alojamento de Indianápolis, nos Estados Unidos, convivi com Oscar Schmidt, Hortênsia, Marcel, Bernard e outros monstros do esporte.

Financeiramente a minha vida não foi promissora. Mas viajei pelo mundo, ganhei títulos, conheci gente. Não irei disputar o mundial deste ano, pois será nos Emirados Árabes, e é caro. Estou me preparando para ir ano que vem, sempre digo que vou parar, mas não consigo me ver longe das competições.

Eu não pretendo me afastar de vez da luta porque gosto de dar as aulas pela prefeitura de Taboão da Serra, onde sou concursado. Tirar a criançada da rua é importante, levar para o ginásio e tentar fazer minha parte ensinando o que o judô me ensinou, como o respeito e a disciplina. Muitos alunos deixam a aula, buscam outras atividades, mas os ensinamentos ficam. Gosto de encontrar os meninos depois de um tempo, ver que ajudei de alguma forma. Me considero um campeão dentro e fora do tatame por isso.

Escrito em 1ª pessoa após entrevista com o personagem.


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