“Eu queria ser um cantor”
por Izabela Loures
“Eu queria ser um cantor”
por Izabela Loures

com um calhamaço de folhas na mão esquerda, caminhando entre frenético e vagaroso, é com esta fala que o ex-futuro-cantor, sem forma, métrica ou rima, inaugura o Canto I do seu poema épico moderno que, invoca-dor provoca-dor pipoca-dor de imagens vivas e fortes, captura nossas mentes, hipnotizadas e atentas
personagens, tempo, espaço, ação. civis militares UMA MUSA, artista guerras combates UM HERÓI, narra-dor ao mesmo tempo menino homem frágil forte
O ANO É O DE 1968
Martin Luther King, morto. Robert Kennedy, morto. Guerra do Vietnã, mortos. Primavera de Praga, artistas, professores, intelectuais e povo, todos fracassados.
Manifestações. Muitas. Sobretudo, estudantis
O MÊS É MAIO
Polícia fecha a Universidade da Sorbonne. Estudantes se rebelam. Noite das barricadas : uma multidão composta de estudantes, operários, comerciantes e grande parte da população, levantando barricadas, confrontam o autoritarismo do Estado e, dentre outras reações, ARREMESSAM PEDRAS.
BRASIL
17 de Junho, São Paulo. Teatro Galpão, invadido pelo CCC. Cenários destruídos, e atores espancados nos camarins.
26 de Junho, Rio de Janeiro. Passeata dos Cem Mil.
13 de Dezembro, Aiii !!! AI-5.
o ex-futuro-cantor é um garoto. o garoto está dentro do quarto e o quarto é quente. e é história e não estória o que conta.
e porque são vivos os fatos em sua cabeça é que seu espírito se inflama. não pela chama do ódio, mas de alguma outra espécie de chama.
sua narrativa se alterna entre o presente e o pretérito imperfeito do indicativo e faz calor.
a chama está dentro dele e inflama o quarto.
ele queria ser cantor. ser ovacionado pela multidão em um programa de calouros, mas a vida é revelia e ele é calouro do 1º ano de direito, na Sorbonne.
é noite em Paris. ele percorre os cantos das esquinas, nos pontos esquivos e silenciosos das sombras aonde as lanternas não alcançam iluminar. e prega cartazes :
“NOUS SOMMES TOUS INDESIRABLE”
o dia amanhece. não há croissant nem baguete, mas uma forte sede o assola. de justiça.
dormiu pouco porque seu poema jorra e o calor não arrefece em seu quarto.
estuda a Grécia. fica sabendo que os jogos olímpicos foram criados para estabelecer uma trégua de paz entre guerras.
dentre os jogos, um interesse. arremesso de peso.
enquanto lê em voz alta, reproduz, com o lado direito do corpo, todos os movimentos tecnicamente descritos como imprescindíveis para o correto e eficiente arremesso.
“…no início do lançamento, o peso deve estar colocado entre o ombro e o pescoço do atleta e arremessado com as pontas dos dedos, e não com a palma da mão. Durante o lançamento, o atleta deve rodar sobre si mesmo e arremessar utilizando-se da técnica do giro.”
ele anda frenético pelo quarto.
o lado direito do seu corpo se torce, se contorce, se retorce. se esforça. se com-centra para retirar o peso do chão.
ele anda vagaroso pelo quarto.
na mão esquerda, sustenta, em leitura, as folhas soltas de sua epopéia.
nós o assistimos.
seu poema em chamas traz febre à platéia que hipnotizada e atenta é transportada.
sua mão balançando os papéis seu corpo trabalhando em metades, no delírio da febre, faz lembrar um centauro.
não qualquer um, mas Quíron, o centauro sábio, profeta, médico. mestre de Hércules, Aquiles e Jasão.
Quíron, quer dizer mão, e pode arremessar pedras.
Quíron, quer dizer mão, e pode escrever poemas.
seu épico carece de estrutura, rimas e forma, mas cresce inflamado e magistral se tornando, em potência, bibliografia para aprendizes de heróis.
é o calor. só pode ser o calor que está provocando esta grande com+fusão de histórias, geografias, personagens, pensamentos, mitos, homens, corpos espaços e tempos.
o corpo torto se dobra pra pegar a pedra do chão, as folhas, depois de lidas, uma a uma, são jogadas ao chão.
o chão, podemos ver agora, está repleto de trechos das epopéias de homens heróis, que sem número e sem nome se rebelaram contra alguma forma de injustiça.
embaixo dos paralelepípedos compactos e duros do chão de Paris, está uma areia dispersa úmida e mole.
e em meio aos extremos, entre o paralelepípedo e a areia, está um garoto que encontrou seu lugar de voz-ação no mundo.
ele segura as folhas. ele larga as folhas. ele queria ser cantor. é presente e pretérito.
ser antropomorfo: homem-cavalo-arremessador-de-peso-estudante-poeta-rebelde- pedra-areia-pensador.
ele fala à partir das suas metades.
metade cabeça de homem, não consegue parar de pensar, não consegue parar de escrever e tem lamentos no espírito.
metade corpo animal.
Quíron atingido na coxa, na perna ou no pé. tem dores na carne, afinal.
um ser olímpico fora do Olimpo
que na sua guerra interna, queria ser cantor
na externa, quer combater a injustiça
a história que conta já faz 50 anos, mas arde.
ele está cá e lá. é presente e pretérito imperfeito do indicativo.
e o dia é hoje, em que, sob o céu e sobre o solo de Irati,
diante de sua musa, que atenta, está na platéia,
ele, que queria ser cantor, canta lindamente, em gestos e versos informais, como herói narra-dor, sua solo performance, com a maestria própria de quem inventou a máquina do tempo.
Nota 1: deixo o comentário da querida Márcia Paschoal:
“Lindo… Lindo… sensível, performático Wallace… ‘conector’ de pontes históricas entre passado x presente num mundo “museu de grandes novidades, onde o tempo não pára”; lembrando o poeta Cazuza …. onde os crimes políticos, as guerras as fomes as mazelas os absurdos humanos… … se repetem, retrocedem e apenas os sonhos se renovam para quem é poeta revolucionário e acredita no futuro: “sejam realistas: exijam o impossível”
parabéns Queridos!!!”
[sim, ainda estou com minha essência no FIDS. Quis registrar este conjunto de agoras em um blog, para muito além da barra azul do Facebook]
Nota 2: uma inquietação constante minha, aplicada ao teatro e a performance art, tanto no livro “Zen Mind, Beginner’s Mind”, quanto nos livros do mestre Yoshi Oida, como “O Ator Errante”, e “O Ator Invisivel” :
“No teatro Kabuqui, há um gesto que indica ‘olhar para a lua’, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: ‘Oh, ele fez um belo movimento!’ Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico. Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; o público simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível.”
메타데이터
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