Histórias da Outra Margem: a nostalgia de Nagai Kafū diante de um presente que devora o passado
Pense só na seguinte situação. Você tem pouco mais de 20 anos e precisa viajar ao exterior para cumprir uma decisão de seu pai. Com essa…
Histórias da Outra Margem: a nostalgia de Nagai Kafū diante de um presente que devora o passado

Pense só na seguinte situação. Você tem pouco mais de 20 anos e precisa viajar ao exterior para cumprir uma decisão de seu pai. Com essa experiência, ele espera que você expanda seus horizontes culturais e, ao voltar para casa, tenha mais chances na carreira que seguir. No retorno após uma estada em países como EUA e França, você se dá conta de que sua terra natal não só está bastante mudada como continua em transformação, a ponto de lugares, visitados por você com frequência no passado e com os quais tinha algum tipo de conexão sentimental, terem sido completamente substituídos por espaços mais modernos, num processo iniciado antes mesmo do seu próprio nascimento. Isso aconteceu com Nagai Kafū, escritor cujo trabalho literário, marcado pela percepção amarga de um mundo familiar que desvanece, reflete o impacto da Restauração Meiji quando, principalmente por ameaças externas, o Japão deixa para trás mais de 200 anos de um modelo feudal, centrado na figura do xogum, para incorporar, de maneira acelerada, uma modernidade importada da Europa.
Histórias da Outra Margem (濹東綺譚, Bokutō Kidan) reflete bem essas inquietações de Kafū. Nele, o protagonista Tadasu Oe é um escritor na casa dos 60 anos que perambula por Tóquio — em especial, as zonas da luz vermelha. Seu objetivo é observar pessoas, paisagens e situações que serão utilizadas como referências em futuros romances. Ele guarda semelhanças com outra personagem de Kafū chamada Nanso Kurayama, romancista que, em **Guerras das Gueixas*, está sempre atento a tudo que vê e ouve nas casas de gueixas do bairro de Shinbashi do qual é um assíduo frequentador. Não é um equívoco ler Oe e Kurayama como alter egos de Kafū. Refletido na própria obra, Kafū é capaz de confundir, num exercício interessante de metalinguagem e em consonância com a tradição do Romance do Eu (私小説, Watakushi Shōsetsu), sua própria biografia com a do solitário e hesitante Oe* que cruza as ruas de uma cidade que, mesmo preservando traços de um tempo esquecido, segue seu curso de modernização, indiferente a qualquer expectativa nostálgica que deseje detê-la.
A atividade de Oe é uma fonte de estímulos, mas não faltam ocasiões em que o protagonista se refere a ela num misto de vergonha e culpa. Já no primeiro capítulo, ele é abordado por um policial truculento (talvez um indicativo do período cada vez mais autoritário em que vivia Kafū) e pelo agente é confundido com mais um vagabundo, isso logo depois da visita a um sebo e tendo saída de lá com uma peça de roupa feminina. Numa revista, o objeto é descoberto pelo policial que não faz outra coisa senão lançar a Oe um olhar de reprovação. Como o interesse de Oe é o “mundo flutuante” (浮世, Ukiyo) e seus habitantes, ele precisa sempre tomar cuidado para evitar situações constrangedoras, bem como a pecha de artista imoral e de menor qualidade.
Numa de suas andanças, Oe conhece a jovem Oyuki. Pego por uma chuva repentina, ele abre o guarda-chuva sempre à mão e, no momento seguinte, está dando carona a uma desconhecida que, tendo acabado de sair do cabeleireiro de penteado novo, pergunta se o protagonista não poderia acompanhá-la até um local próximo. Logo descobrimos que Oyuki (ou Yukiko) é uma das várias prostitutas atuando num bairro que, na época do romance, chamava-se Tamanoi e se situava à leste do Rio Sumida — e é daí que vem o título original deste livro, que poderia ser traduzido como “Belas Histórias à Leste do Sumida”.
Aquela casa ao lado do dique, onde eu ia descansar, a casa de Oyuki, fora esquecida pelas mudanças do tempo, preservando, de alguma maneira, memórias do início do período Taisho, quando esse bairro começara a prosperar. Era um pouco como eu, testemunha de uma época passada, o que me fazia sentir um estreito vínculo com o lugar. Para chegar ali, tinha-se de pegar uma travessa a partir da avenida Taisho, passar pelo santuário de Fushimi Inari com suas flâmulas velhas e esfarrapadas, contornar o dique e andar, andar, até chegar a uma parte tão afastada do bairro que os rádios e gramofones eram abafados pelo som de passos e vozes de transeuntes. Era, para mim, o refúgio ideal para uma noite de verão.
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Na companhia de Oyuki, a um só tempo, o sexagenário diminui a solidão que sente e tem dificuldade em reconhecer e entende melhor o mundo em que a moça vive. Da convivência com ela, ele espera tornar mais convincente seu livro em andamento que também descreve a relação de um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Obviamente, Oe mantém sua profissão e intenções em segredo e deixa Oyuki acreditar que ele é um comerciante de artigos eróticos. E não são só a casualidade e a conveniência que motivam o escritor a iniciar uma série de visitas a ela. Aos olhos de Oe, além de “bem bonitinha”, Oyuki é dotada de vivacidade, astúcia e certa dose de inocência que uma vida como a dela ainda não foi capaz de anular. Além disso, antes de atuar em Tamanoi, Oyuki parece ter tido uma experiência como gueixa, o que lhe confere alguma distinção.
A certa altura de Histórias da Outra Margem, percebemos que o projeto literário de Oe fica em segundo plano e os sentimentos dele em relação a Oyuki se tornam mais complexos e profundos, indo além da relação profissional-cliente. Ao tratá-lo com naturalidade (de maneira autêntica ou talvez por hábito profissional) e cada vez com mais intimidade, é como se Oyuki fosse um porto seguro num mundo de transformações caóticas. E quando as coisas começam a ficar sérias e Oyuki passa a ver no escritor mais que um cliente, Oe começa a duvidar se é capaz de corresponder às expectativas da moça e se deve continuar a vê-la. Na verdade, assumir qualquer compromisso com Oyuki parece ir contra o estilo de um homem habituado demais a viver sozinho.

Nagai Kafū
Com sua prosa sem exageros e franca, mas nem por isso menos poética, Kafū explora as peregrinações quase monásticas de um homem cuja nostalgia aumenta na mesma medida em que cenários de um passado estimado (e possivelmente idealizado) vão sendo trocados pela voracidade do novo e por um processo de ocidentalização contraditório. Não que Kafū ignorasse o longo histórico de seu país em assimilar as novidades trazidas de fora com o cuidado de preservar tradições essenciais para a construção de uma identidade nacional. Mesmo o governo, que Kafū de certa forma apontava como responsável por essa destruição do passado, estava preocupado com a preservação dessas tradições e, entendendo o papel que Kafū poderia desempenhar nesse iniciativa, fazia vista grossa para a postura crítica do autor.
**Histórias da Outra Margem** também é a história de dois estranhos que têm suas vidas entrelaçadas pelo acaso: um que, apesar do pessimismo e mal-estar com o presente, ainda pode usar o próprio tempo para se dedicar à arte e se distrair nos bairros boêmios e de prazeres fugazes; a outra que, pela provável origem pobre e pela falta de perspectivas de uma mulher na primeira metade século 20, está sujeita a um sistema de exploração cruel e torce para que alguém minimante generoso possa ser sua tábua de salvação.

The Strange Tale of Oyuki (1992), filme de Kaneto Shindô que adapta (com várias liberdades) o romance de Kafū
Nota 4/5
Estação Liberdade (2013)
Tradução por Andrei Cunha
128 páginas
Referência: HAMP, Mathias. Hymns to bygone times by Nagai Kafū.
메타데이터
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