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Ridicularizou autista?

Há alguns meses, foi ao ar no YouTube do Meteoro Brasil (que tem 1,8 mi de inscritos) uma entrevista com Pedro Pallotta , do canal Space…

Patricia Gnipper · 2025-12-06 02:34 · 0 claps · 4.8 min read
#autismo #espectro-autista #neurodivergencia #capacitismo #pcd
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Ridicularizou autista?

Capacitismo é crime. Tanto faz se não sabia da deficiência: a lei pune atitudes, não intenções

Há alguns meses, foi ao ar no YouTube do Meteoro Brasil (que tem 1,8 mi de inscritos) uma entrevista com Pedro Pallotta , do canal Space Orbit, sobre o caso Laysa Peixoto, a falsa ‘primeira astronauta brasileira’.

Aceitei o convite para participar do programa — sendo esta minha primeira aparição por lá e também a primeira vez em que eu dei as caras em um canal com tamanha projeção. Algo a que, por sinal, eu sempre fui bastante avessa e tenho sido menos rígida com isso desde que cheguei ao site Drops de Jogos, no ano passado.

O vídeo é este aqui. Recomendo o play antes de seguir com a leitura:

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O vídeo imediatamente teve um alcance grande, como era de se esperar. E como também era de se esperar, surgiram comentários capacitistas a meu respeito. Poucos, é verdade. Mas o bastante para eu me sentir obrigada a tocar nesta ferida e escancarar um recado curto e grosso, direto e reto, literal… como também é de se esperar, vindo de uma pessoa autista.

Deixo aqui alguns prints para ilustrar com exatidão o ocorrido:

Antes de qualquer coisa, eu sei que haters gonna hate e que do not feed the trolls são verdades absolutas quando o assunto é gentalha te aporrinhando na internet, protegidos pelo anonimato de um nome genérico — muitas vezes combinado a uma foto de anime no perfil.

Estes foram os únicos que fiz questão de responder, com a única finalidade de expor, publicamente, o capacitismo cometido. Para que servissem de exemplo, publicamente. Afinal, outra verdade da vida é aquela máxima de quem fala o que quer, ouve o que não quer.

Mas o ponto que quero trazer não é sobre me sentir ofendida, nem sobre querer expor ninguém. Não é esse o foco. Eu caguei para o que estranhos pensam a meu respeito, e caguei para estranhos que pensam qualquer coisa a meu respeito.

O que rolou aqui não é sobre mim. É sobre capacitismo. E isso não dá pra ignorar.

O capacitismo é considerado crime no Brasil, conforme a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015).

O que quero deixar muito claro é: comentários ridicularizando movimentos de uma pessoa autista — como os que faço durante o vídeo — são capacitismo . Quer você tenha a intenção de ser capacitista ou não. Quer você saiba que tal pessoa é autista ou não. O fato é: você está praticando capacitismo. E isso é crime.

A Lei Berenice Piana 12.764/2012 estabelece que o autismo é uma deficiência. Esta lei federal estabelece a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esta lei federal reconhece o autismo como uma deficiência, garantindo direitos como acesso à saúde, educação, inclusão social e proteção contra discriminação.

E tanto faz sua opinião. Sua opinião não altera a legislação brasileira. E se você não concorda que autistas são PCD, faça o seguinte: escreva uma carta com sua opinião ao Governo Federal. Mas isso não muda o fato de que você deve respeitar a lei. Se você não respeita, está sujeito à penalidades previstas nela. Simples assim.

Aproveito para trazer um recorte que pouca gente fora do fantástico mundo neuroatípico conhece: muitos autistas adultos (como eu), que foram diagnosticados tardiamente (como eu), passaram uma vida inteira inconscientemente mascarando muitos de seus traços autistas — o que pode incluir suas estereotipias. Trata-se de um mecanismo de autorregulação que o próprio cérebro cria, instintivamente, para ajudar o autista a processar sensações e emoções.

Hoje eu sei que, por quatro décadas, eu disfarcei essas estereotipias sem ter a menor ideia de que estava fazendo isso. Em vez de exibir movimentos repetitivos mais visíveis, canalizei estas manifestações físicas em gestos menos chamativos, como: mexer as mãos debaixo da mesa, enrolar os cabelos, balançar os pés e as pernas, girar um anel no dedo… tudo isso de maneira inconsciente, para não ser flagrada ‘sendo estranha’.

Com o diagnóstico (que, no meu caso, só veio aos 41 anos), aconteceu algo que eu não esperava: é como se meu cérebro finalmente pensasse "agora você está livre, ela já sabe de tudo". Então, movimentos mais visíveis, como balançar o corpo pra frente e pra trás, prum lado e pro outro, repetidamente, começaram a acontecer de forma totalmente involuntária — porque é assim que o autismo funciona.

Foi quando eu me permiti sentir e expressar tudo o que gritava “autista” dentro de mim, mas que estava camuflado. E na moral? Ficar se balançando pra lá e pra cá é gostoso demais. Acalma. Conforta. E não deveria ser tão incômodo para quem está olhando.

Se alguém se incomoda com minhas estereotipias, o problema não é meu. O problema é dessa pessoa — que, ao achar que tem o direito de expressar seu incômodo, está sendo capacitista. E sim, está sendo uma pessoa horrível. Porque é isso que é quem ridiculariza um traço autista. Mesmo sem saber que a pessoa se mexendo sem parar é autista. Afinal, não existe isso de “ter cara de autista”. Então, na dúvida, cale a sua boca. Guarde seu julgamento dentro de si. Reveja seus conceitos, parsa.

Por isso escrevi este textão, de forma muito consciente e tão inflexível quanto é de se esperar de uma pessoa autista:

Eu não vou tolerar capacitismo, nem velado nem escancarado. Você que me lê agora também não deveria tolerar. E demais autistas que puderem — quando puderem -, também não devem se calar.

Não temos que mascarar quem somos para não “incomodar” quem não quer refletir sobre seus próprios preconceitos.

A realidade é que cada vez mais pessoas estão recebendo diagnóstico tardio de autismo — e isso vai continuar acontecendo. A sociedade “normal” precisa entender isso e ajustar seu comportamento à nova realidade.

Porque nós estamos aqui e não vamos continuar nos anulando só porque “vocês, os normais” acham que incomodamos. Incômodos são vocês, que acham normal ser um ser humano desprezível.

E se não souberem conviver em sociedade, com respeito e dignidade, eu quero é que vocês vão à m****. Dito isso, a quem ainda assim achar bonito ser otário, minha única resposta mental será a seguinte:


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