← Back to list

Costurando Invisibilidades: o fio que sustenta, mas ninguém vê

A jornada das costureiras brasileiras que vestem o país, mas lutam por reconhecimento em um mercado dominado pela informalidade

Gabriela Merib · 2025-10-17 21:16 · 0 claps · 5.7 min read
#moda #costureira #profissão
Open on Medium ↗

Costurando Invisibilidades: o fio que sustenta, mas ninguém vê

A jornada das costureiras brasileiras que vestem o país, mas lutam por reconhecimento em um mercado dominado pela informalidade

Maura Segatto na confecção que trabalha há 30 anos

Maura Segatto na confecção que trabalha há 30 anos

Dona Maura Segatto ajusta uma barra de calça numa máquina Singer antiga, no seu trabalho, em Caxias do Sul. Quase cinco décadas depois de aprender a costurar, aos 12 anos, ela trabalha no mesmo lugar que a empregou 30 anos atrás, costurando uniformes peça por peça. Seu dia, que começa às seis, mal garante a cobertura de custos como luz, linha de telefone e transporte.

No Brasil, como Maura, milhões de costureiras mantêm viva a base da indústria da moda, mas seguem invisíveis. São mulheres que, enquanto vestem o país com seus pontos e linhas, enfrentam salários baixos, jornadas longas e falta de reconhecimento. O valor da peça é caro, o valor do trabalho, barato.

A costura, tradicionalmente associada ao cuidado doméstico e ao “trabalho de mulher”, consolidou-se no Brasil como uma das ocupações mais antigas e menos valorizadas. Desde o século XIX, o ofício acompanha a divisão sexual do trabalho: mulheres costuram, homens gerenciam.

Essa herança histórica se reflete até hoje. A cadeia produtiva da moda é um dos exemplos mais claros da desigualdade de gênero no trabalho: estatísticas do Fashion Revolution estimam que cerca de 85% da mão-de-obra da cadeia produtiva da moda seja composta por mulheres, embora muitos desses empregos sejam irregulares ou com proteção social limitada.

Panorama da desvalorização

O setor do vestuário enfrenta um notável declínio na formalização. Entre 2010 e 2020, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT) registrou uma perda de 32% dos empregos formais na área. Embora o número exato de costureiras atingidas seja incerto, o encolhimento do mercado formal empurra a base da produção, majoritariamente feminina (cerca de 87% dos profissionais, segundo a ABIT), para a informalidade.

A precarização se consolida nos domicílios, um estudo da ONU de 2022 revelou que 62% das costureiras brasileiras trabalham em suas próprias casas, sendo 51% atuando como autônomas. Essa dinâmica garante a invisibilidade nos grandes números e a ausência de direitos trabalhistas.

Os dados da PNAD Contínua (IBGE, 2024) comprovam o cenário: mais de 80% das costureiras trabalham na informalidade, sem carteira assinada, férias ou 13º salário. A renda média mensal não chega a R$ 1.300, valor inferior ao salário mínimo vigente em muitos estados.

Esse retrato, composto por mulheres negras com mais de 40 anos e baixo nível de escolaridade, evidencia a desigualdade de gênero, classe e raça.

Vozes que costuram a realidade

Nos ateliês de bairro ou nas oficinas terceirizadas, a dificuldade é a mesma, cobrar um preço justo. “Tem semana que ganho R$ 150, se tiver encomenda”, conta Maura, costureira a cerca de 50 anos em Caxias do Sul.

Nas oficinas de costura a pressão por volume de produção, com o preço por peça estabelecido em valores mínimos, impede qualquer estabilidade financeira. “Trabalho numa oficina pequena, sem registro. A “Dona” manda entregar peças pro dia seguinte, sem se importar se a gente vai dormir tarde. Cobro R$ 5 por botão de tensão difícil, mas muitos aí brigam pelo preço mais baixo”, conta Jussara Menegat, costureira de oficina de uniformes escolares a 20 anos.

O conhecimento técnico, que exige anos de prática, é simplesmente ignorado na hora de precificar o serviço. “Já fiz vestidos de gala que demoraram quase 30 horas de trabalho, ganhando menos que R$ 250, o tecido custa muito, mas o valor da hora do meu trabalho ninguém vê”, relata Inês Justina Merib, costureira de vestidos de gala para uma loja de aluguéis.

“Na época que eu trabalhava com os grandes nomes da Festa da Uva eu fazia a maior parte do trabalho bruto, toda costura era comigo. Sempre esperava meu nome aparecer nos desfiles e esse dia nunca chegou, mas era o meu vestido lá em cima, foram as minhas mãos que tinham costurado aquilo”, Inês conta com emoção.

O preço do fast fashion e o apagamento

A pressão do Fast Fashion — redes que produzem e vendem roupas em ritmo acelerado — intensificou essa crise. O consumo rápido de roupas baratas e descartáveis tornou o serviço tradicional sob medida inviável financeiramente. Em um contexto onde 9,3 milhões de profissionais na área estão envelhecendo sem garantia de direitos, a escolha é lógica: por que optar por um trabalho repetitivo, solitário e mal remunerado, onde mais de 80% das trabalhadoras estão na informalidade (PNAD)?

Em 2022, o Ministério do Trabalho resgatou mais de 400 trabalhadores em condições análogas à escravidão em oficinas clandestinas, muitas ligadas a grandes marcas. O modelo de negócios, que exige produção em massa a preços baixíssimos, cria uma pressão insustentável sobre as oficinas terceirizadas e, por fim, sobre a costureira.

Estudantes de moda, no meio do caminho, percebem a situação. Eduarda Giordani, de 20 anos, aluna de moda na Universidade de Caxias do Sul, conta que viu em um estágio contratos com preços absurdamente baixos. “Às vezes mandavam que eu cobrisse uma peça inteira por preço igual ao que se paga só pelo tecido. Fiquei chocada. E muita costureira aceita, porque de fato precisa”, relata a aluna.

O apagão silencioso: onde foram parar as costureiras?

A pergunta não quer calar: “Onde foram parar as costureiras?”

Não é um sumiço literal, mas uma extinção lenta. As costureiras de bairro, mestres do ajuste e do sob medida, estão envelhecendo e se aposentando, sem que a nova geração queira herdar o ofício. O motivo é uma desvalorização crônica e multifacetada.

A costura, historicamente vista como um trabalho feminino e doméstico, perdeu valor social e econômico, sendo considerada inferior à criação e separada do glamour da alta-costura. Essa herança se reflete na ausência de reconhecimento, o nome de quem costurou a peça raramente aparece nas fichas técnicas ou nos aplausos do desfile, mesmo na alta-costura.

As jovens interessadas na área preferem buscar a segurança e o reconhecimento de outras profissões ou da formação em moda. Esse ciclo vicioso leva a um paradoxo: enquanto a indústria discute sustentabilidade, ela enfrenta um “apagão de mão de obra” qualificada, comprometendo sua capacidade produtiva futura ao ignorar o valor essencial dessas profissionais no presente.

Resistências e novos caminhos

Apesar das dificuldades, há quem costure novos futuros. As instituições de apoio a costureiras no Brasil operam em uma ampla rede de economia solidária e capacitação, abrangendo várias regiões e impactando milhares de vidas.

A Justa Trama, sediada em Porto Alegre (RS), é mais do que uma cooperativa de costura, é uma rede nacional de comércio justo e sustentável. Ela une produtores de algodão agroecológico em diferentes estados, passando pela fiação em Minas Gerais (MG) e pela confecção em São Paulo (SP), Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS). A centralidade da costura é representada pela cooperativa Univens, também em Porto Alegre, que nasceu em 1996 com 35 mulheres buscando um trabalho coletivo digno e hoje conta com cerca de 23 trabalhadoras ativas que, além de gerar renda, são um símbolo da luta por infraestrutura na comunidade.

Ponto final ou recomeço

De volta à sua máquina, Dona Maura diz que já perdeu a conta de quantas peças costurou. “Às vezes penso que minha vida tá toda ali, nas linhas que ninguém vê. Nas histórias que ajudei a costurar.”

Cada ponto é um gesto de resistência. O problema da desvalorização das costureiras é estrutural, ele está na informalidade, na desigualdade de gênero e no modelo predatório do fast fashion. Enquanto o país desfila as últimas tendências, milhares de mulheres seguem costurando dignidade, fio por fio. A sociedade precisa decidir se o preço baixo das roupas compensa o custo social e humano dessa invisibilidade.

Fotos feitas durante o expediente de Maura Segatto e sua colega Samantha Moraes:

Créditos: Gabriela Merib

Créditos: Gabriela Merib


메타데이터
post_id
619b7ba2d1e5
slug
costurando-invisibilidades-o-fio-que-sustenta-mas-ninguém-vê-619b7ba2d1e5
url
https://medium.com/@gmboeira/costurando-invisibilidades-o-fio-que-sustenta-mas-ningu%C3%A9m-v%C3%AA-619b7ba2d1e5
canonical_url
https://medium.com/@gmboeira/costurando-invisibilidades-o-fio-que-sustenta-mas-ningu%C3%A9m-v%C3%AA-619b7ba2d1e5
author_url
https://medium.com/@gmboeira
status
ok
fetched_at
2026-07-16 16:17:41