Intermitências, de Jonathan Tadeu, aponta que olhar para dentro é um exercício diário
Novo álbum do músico mineiro vem ainda mais carregado de introspecção
Intermitências, de Jonathan Tadeu, aponta que olhar para dentro é um exercício diário
Novo álbum do músico mineiro vem ainda mais carregado de introspecção

Por Hugo Morais
Discos produzidos durante a pandemia/quarentena não faltam. E com essa situação, ou não, os artistas produziriam de toda forma, logo, a questão é: como esses discos foram influenciados pelos dias que passamos? Se pegarmos Intermitências, o novo disco de Jonathan Tadeu, fica claro que o músico seguiu compondo como nos discos anteriores, *Queda Livre e [Sapucaí](https://jonathantadeu.bandcamp.com/album/sapuca)*.
Melancolia, tristeza, nostalgia. Tudo isso segue presente, mas também estavam nos discos anteriores. O que muita gente diz/reclama dos dias atuais é que a cabeça piorou. Partindo pro lado pessoal, e julgando que as demais pessoas pensem da mesma forma, o problema foi a quebra de uma rotina que ao mesmo tempo criou outra. Acrescida de uma paranoia real que nos fez olhar o outro e a nós mesmos de forma diferente. Claro que boa parte não está nem aí para o próximo e não é de hoje.
Os amigos, os shows, os bares, as ruas vazias, as pessoas morrendo… Tudo mudou. Separações, suicídios, agressões, violência em geral, procura por ajuda médica psicológica/psiquiátrica profissional. O lado bom é que como estamos olhando o mundo e as pessoas de forma diferente, passamos a agir de forma diferente também. Ou você não chegou a desejar a morte de alguém que a gente sabe que a justiça não vai pegar, como em “Homem de Bem”?
Jonathan passeia por tudo isso e apesar de dizer que o disco não é sobre esse período que passamos, tem muito dele. Mas tudo que estamos vendo já não acontecia? O ócio, as receitas de bolo, de pão, de hambúrguer caseiro, a vontade de sair por aí pedalando, a saudade dos amigos, sentir ódio ao navegar pelas redes sociais — e depois abandona-las — e desejar que quem faz mal aos outros morra… Não é de hoje, nem de ontem, sempre foi assim. Então não se engane com essa história de mudar pra melhor. Tudo conversa fiada.
“É Difícil Encontrar Um Amigo”, no apagar das luzes do disco, me lembrou “Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo”, d’Os Mutantes em 1970, e “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, de Erasmo Carlos em 1971. São músicas que se completam e mostram que iremos seguir sem grandes mudanças visíveis pessoais, sociais, econômicas… E como bem batiza o disco, a vida é feita de intermitências. Aproveite os bons momentos e toque o foda-se sempre que possível. Mas sem esquecer de olhar pra dentro de si mesmo.
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