Motivos pelo qual você não deveria se Preocupar com a Hybris
“Pois, quando a hýbris floresce, traz como fruto a cegueira, cuja colheita abunda em lágrimas. E, ao verdes tal recompensa para ações…
Motivos pelo qual você não deveria se Preocupar com a Hybris

“Pois, quando a hýbris floresce, traz como fruto a cegueira, cuja colheita abunda em lágrimas. E, ao verdes tal recompensa para ações semelhantes, pensai em Atenas e na Hélade: não lhe seja permitido que, menosprezando os dons do seu daimon, cobice outros e afunde a sua grande ventura. Zeus ameaça com vingança a soberba desmedida e orgulhosa, exigindo-lhe contas rigorosas.” — Ésquilo, Os Persas
Recentemente, discutimos o motivo pelo qual a “justa medida” não pode ser encarada como abstinência e privação. Mas, e a hybris, o que seria ela? Muitos, como eu, ao lerem uma tragédia grega ou um épico, como a Ilíada e a Odisseia, deparam-se com a hybris como a ruína dos homens. A questão é que ela é, de fato, a ruína dos homens, mas não de qualquer homem, e sim daquele que possui areté. Contudo, como tudo na vida, também não é qualquer areté.
Precisamos entender o que esses conceitos significavam na época em que foram pensados e desenvolvidos, para, a partir disso, fazermos uma leitura que possa nos situar atualmente dentro de uma perspectiva de helenismo atualizado. Ou seja, que esses conceitos não sejam tão subjetivos ou, pior, deturpados.
A hybris, no mundo antigo, era uma condição natural com a qual aqueles que possuíam areté estavam sempre flertando. Quem era dotado de areté, ou seja, excelência, tinha tendência a cair em hybris, por cegueira e arrogância. Mas não estamos nos referindo à areté do filósofo ou do cidadão da pólis, educado segundo virtudes comuns. Estamos nos referindo à areté de sangue, ou seja, à aristocracia que detinha poder e linhagem.
É por isso que os heróis gregos, que detinham linhagem divina, são os mesmos que caem em desgraça, pois caminham em dois mundos: o divino e o mortal. Não sendo plenamente nenhum dos dois, a loucura e o desvario pareciam um destino inevitável. Ou seja, nem tão inferiores a ponto de serem mortais comuns, nem poderosos o suficiente para serem deuses. Porém, muitas vezes acreditavam ser iguais aos deuses e, por consequência, ultrapassavam os limites
“Pois bem, areté pertence à mesma família etimológica de áristos e aristeúein e significa, por conseguinte, a “excelência”, a “superioridade”, que se revelam particularmente no campo de batalha e nas assembléias, através da arte da palavra. A areté, no entanto, é uma outorga de Zeus: é diminuída, quando se cai na escravatura, ou é severamente castigada, quando o herói comete uma hýbris, uma violência, um excesso, ultrapassando sua medida, o métron, e desejando igualar-se aos deuses. Uma coisa é o mundo dos homens, outra, o mundo dos deuses, são palavras de Apolo ao fogoso Diomedes.” — Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega. Volume 1
A relação direta da areté do homem aristocrático e guerreiro era a busca de sua timé, ou seja, de sua honra e de seu valor individual. Dentro do contexto aristocrático, estamos nos referindo ao homem guerreiro, detentor de posses, de linhagem ilustre e, como alguém excepcional, que se sentia valoroso, detinha poder e respeito — poder e respeito perante os outros, provenientes de um valor radicalmente individual e de seu prestigio de sangue.
Toda pessoa com muito poder, não raramente, fica cega. E essa cegueira, a qual os gregos chamam de Ate, ou loucura, é o motivo da queda de todos os poderosos: a hybris. Temos como exemplo o rei Agamêmnon, líder dos exércitos gregos, que matou um cervo em um bosque sagrado dedicado à deusa Ártemis, desrespeitando os limites que separam os mortais dos deuses. O ato de profanação do sagrado, motivado pela arrogância de um homem, desencadeia uma série de consequências que são sentidas pelo povo, pelo exército e pelas cidades. O desrespeito aos limites necessários entre o humano e os deuses (o mundo, as leis, a civilidade) é a arrogância contra a qual a sabedoria helênica alertava. O anseio do homem em ser valoroso e prestigioso a qualquer custo, pode cegá-lo e impulsioná-lo a passar por cima de todos para conseguir o que quer. E, assim, sua honra converte-se em tirania e loucura. A timé, sustentada pela areté aristocrática, gera Ate, que tem como resultado final a hybris, isto é, a desmesura, a tragédia e a ruína — responsabilidade de uma única pessoa poderosa, mas com impacto sobre muitos.
A hybris, no contexto tratado na literatura, por mais que seja uma atitude de desmesura individual, é cometida por alguém que detém poder e possui uma responsabilidade social: reis, nobres, generais, tiranos, legisladores etc.
“Mas os que se ocupam da perversa desmedida e de cruéis ações, o filho de Crono, Zeus que vê longe, lhes reserva uma pena. Frequentemente até mesmo toda a cidade sofre com um homem mau, quem quer que seja, que peca e maquina iniquidades.” — Hesiodo, Os Trabalhos e os Dias
A grande questão que me chama a atenção é que as pessoas que hoje praticam o helenismo possuem um medo e um terror a respeito da hybris. E, de fato, devemos temê-la, mas não pelos motivos que a maioria acredita.
A hybris não é pecado, mas é vista como tal: um desvio de caráter, um vício, um erro, uma infração individual. A hybris não é nada disso! A hybris é qualquer atitude que, motivada por cegueira ou ignorância, desencadeia uma infração contra a ordem cósmica e contra o coletivo. Por exemplo, se uma pessoa beber muito e cair bêbada no chão, ali permanecendo por uma semana, isso não é hybris. Se duas pessoas descontroladas brigarem e causarem mal uma à outra, isso também não é hybris, pois nenhuma dessas atitudes desencadeia consequências de ordem social. Porém, desmatar uma floresta, poluir um rio, promover uma chacina, iniciar guerras ou praticar tudo aquilo que destrói o mundo e a civilidade — ou seja, toda desmesura que atenta contra a harmonia cósmica — isso é hybris.
“A divindade é sagrada e justa, e a sua ordem, eterna e inviolável. Mas é para o “trágico” do Homem, que pela sua cegueira incorre no castigo, que ele descobre os acentos mais comoventes. E logo no início de “Os persas”, quando o coro, cheio de orgulho, canta a magnificência e o poderio do exército persa, levanta-se a imagem sinistra da Ate.” — Werner Jaeger, Paideia: A Formação do Homem Grego
A hybris necessariamente precisa ter consequências sociais, que promovam o mal-estar da civilização. Portanto, o tamanho da hybris é proporcional ao tamanho do poder do indivíduo. Uma pessoa poderosa flerta com a cegueira e, por conseguinte, tende à desmesura. E tal desmesura pode desencadear uma série de malefícios para si mesma e, obrigatoriamente, para todos ao redor.
O assassinato de membros da aristocracia, na Antiguidade, incorria em crimes de sangue que exigiam vingança, fazendo com que famílias inteiras se dizimassem. Esse é um tema muito comum na mitologia, como a maldição dos Atridas e Labdácidas. Uma morte precisava ser vingada, gerando outra morte, que também precisaria ser vingada, e assim por diante, até levar cidades inteiras à ruína pela hybris dos nobres. Por isso, na própria Grécia Antiga, a ideia de maldição familiar foi abolida. Édipo, ao desposar a mãe e matar o pai, o rei, atrai uma praga para a cidade; seu erro não permanece na esfera individual, mas, necessariamente, produz efeitos sociais. Portanto, os erros de uma única pessoa sem poder e influência não dizem respeito à hybris, mas os erros e loucuras de um político geram muita catástrofe.
Temos inúmeros exemplos de políticos que se julgam deuses e, por esse motivo, passam por cima de pessoas, vidas, da natureza, de nações e de tudo o que desejam impor poder. Vivemos em uma época em que a saga da hybris dos poderosos continua — e de forma muito pior do que aquela cantada pelos antigos poetas — , mas, infelizmente, ainda acreditamos que hybris é pecado e que pode ser expiada individualmente.
A hybris começa na recusa do homem em aceitar seus limites humanos, em entender que o poder é necessário para o bem comum, e não para si mesmo, e que o bem comum é o Todo (a civilização e a natureza): é a ordem cósmica, representada por Têmis e Zeus. Muitos, por cegueira e soberba, julgam-se grandiosos, soberanos e, pior, livres. Mas são apenas tiranos cegos, condenando todos ao seu redor ao sofrimento. Ao meu ver, a hybris começa com o delírio narcísico, que coloca o “eu” acima de todo o resto. Há quem coloque suas próprias posses, lucro, fama, influência, poder e riqueza acima de muitos. E há aqueles que, por terem um pouco disso, colocam-se acima de poucos também. A hybris é do tamanho do poder de um indivíduo de causar danos à ordem cósmica.
Quantas vezes pagãos que não gostam de você dizem: “está cometendo hybris, cuidado”, como se a hybris fosse algo banal ou moral, como pecado? É como acusar um mosquito de fazer mal em comparação a uma bomba atômica. Nossa criação demasiadamente cristã não nos permite compreender a dimensão que os gregos antigos queriam transmitir com a ideia de hybris: um tipo de loucura capaz de devastar uma cidade inteira pelos erros de poucos. Na maioria das vezes, pessoas comuns, individualmente, não possuem poder suficiente para causar um mal muito grande por ignorância ou cegueira. Mas, coletivamente, podemos errar de inúmeras formas. Muitas decisões coletivas podem acarretar em hybris. Pois coletivamente, temos poder para gerar malefícios grandes.
Se olharmos para a hybris desse modo moralista, julgando atitudes e erros individuais das pessoas (isso quando são, de fato, erros), não estaremos fazendo algo diferente dos cristãos. Os deuses não declaram mandamentos que devemos seguir; somos livres para pensar e, portanto, não devemos moralizar a hybris como um erro espiritual ou individual, uma afronta individual aos deuses e etc.
Nesse sentido, não devemos temer a hybris, pois ela não é pecado — e nós não acreditamos em pecado. Mas devemos, sim, temê-la no momento em que percebemos o quanto somos arrastados coletivamente por decisões ruins, o quanto nosso mundo é cruel e fazemos vista grossa, e o quanto nossa sociedade — e até mesmo nossa comunidade religiosa — é disfuncional e narcisista. A hybris existe, cegando-nos para os problemas reais e banalizando a desmesura à qual estamos constantemente submetidos. Isso me lembra aquela anedota que diz para nós, cidadãos comuns, economizarmos água, quando, na verdade, quem desperdiça milhões de litros de água por dia é a indústria. Se isso não é hybris — ou seja, uma desmesura e um desrespeito à natureza e aos dons naturais que os deuses, em abundância, nos deram, em benefício de poucas pessoas ruins e disfuncionais — , então não há nada no mundo que seja hybris.
O helenismo nos ensina a pensar e a respeitar: a pensar e questionar o mundo por meio da filosofia, de sua ausência de autoridades e do cultivo da razão; e a respeitar os deuses e suas manifestações, a tradição e a natureza, por meio da contemplação do belo.
A partir disso, devemos aprender a analisar nossas atitudes e os impactos que elas geram, não por temor de estar em hybris, pois tenho consciência de que poucos de nós têm poder real para tal. Mas isso não significa que, por não sermos autores da hybris, não estejamos vivendo em suas consequências. Ou seja, não significa que não estejamos colhendo os frutos negativos que outros semearam e que, muitas vezes, possamos ser coniventes — por convicção ou, como na maioria das vezes, por ignorância e idiotice.
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