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Madame Bovary (1856): o idealismo sobre o amor no livro e no filme de 1991

Minha primeira leitura de 2025 é Madame Bovary. O livro foi escrito por Gustave Flaubert em 1856. O autor chegou a ser processado por…

Larissa Oliveira · 2025-01-13 03:52 · 0 claps · 3.2 min read
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Madame Bovary (1856): o idealismo sobre o amor no livro e no filme de 1991

Minha primeira leitura de 2025 é Madame Bovary. O livro foi escrito por Gustave Flaubert em 1856. O autor chegou a ser processado por afrontar a moral da época na França. Minha intenção é escrever apenas as coisas que mais me chamam atenção no livro, então vou pular apresentações que podem ser facilmente encontradas.

O idealismo relacionado ao amor é, ainda, muito representado. Para além dos livros temos também o cinema como ferramenta potente de incentivo a certos ideais, que conseguiu criar um imaginário visual do amor tão real e atual quanto as leituras que Bovary consumia em sua época. A busca da alma gêmea, o amor perfeito, um casamento sem dificuldades. A indústria cultural cria expectativas no nosso imaginário que não podem ser realizadas, não só quando o assunto é romance.

“Um homem, pelo contrário, não deveria saber tudo, se destacar em múltiplas atividades, apresentar-lhe as energias da paixão, os refinamentos da vida, todos os mistérios? Mas ele não ensinava nada, não sabia nada, não desejava nada. Ele pensava que ela era feliz; e ela ficava zangada com aquela calma tão bem assentada, com aquela gravidade serena, com a felicidade que ela lhe proporcionava.” (p. 54)

Emma procurava um homem perfeito, que lhe preencheria todos os vazios. Charles era um homem comum, até mediocre, sem nenhuma ambição. Esse contraste faz com que simpatizemos com Emma quando ela se pergunta o porquê de ter casado. O casamento, que mais parece ser um aprisionamento, é o início do fim de Emma.

Não há interesse dela por ele… já ele a ama. Ao longo dos anos, Emma não consegue se apaixonar por Charles. Não se pode forçar alguém a se apaixonar, mas pode-se pressionar alguém a permanecer na condição em que está, e a sociedade faz isso quando repudia uma separação de qualquer casamento.

“Ela confundia, em seu desejo, as sensualidades do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos e as delicadezas dos sentimentos. Não eram necessários para o amor, como para as plantas indianas, terrenos preparados, uma temperatura específica?” (p. 69)

Bovary idealizava tanto a vida, que acabou por desprezá-la. Bovary se perdia tanto em seus pensamentos que não conseguia lidar com a experiência da realidade. Bovary queria viver uma utopia, mas isso a impedia de caminhar e de olhar o horizonte, ao contrário do que Galeano nos contou ao falar da utilidade da utopia.

“Quanto a Emma, não se questionou para saber se o amava. O amor, ela acreditava, devia chegar de repente, com grandes brilhos e fulgurações, o furacão dos céus que cai sobre a vida transtorna-a, arranca as vontades como folhas e leva ao abismo o coração inteiro.” (p. 112)

O tédio e a angústia que assolavam a sociedade francesa da época, hoje são agravadas pelas redes sociais cada vez mais, independente do lugar. Hoje em dia, se estar em um lugar, significa estar em vários lugares ao mesmo tempo. É como se não tivesse os “grandes brilhos” e o entusiasmo com o cotidiano. As redes sociais criam um novo idealismo, um novo cotidiano. As dívidas feitas por Bovary representam insuficiências emocionais que ela não consegue preencher, que cada amante falha em curar. Nem mesmo a própria filha ou a fé conseguem trazer um contento para sua alma.

“Emma Bovary sou eu”, disse Flaubert. Acho que esse tédio, angústia, tristeza presentes em Bovary são muito atuais, mesmo as circunstâncias e os contextos sendo bem diferentes. O idealismo de Emma também pode ser uma espécie de lembrete das interpretações dissociadas que fazemos, especialmente no ambiente virtual. O livro é um clássico que gostaria de ter lido antes.

Já o filme de Claude Chabrol feito em 1991 é uma belíssima adaptação. Tanto Jean-François Balmer (Charles) quanto Isabelle Huppert (Emma) conseguem dar vida para os personagens de maneira excepcional. A adaptação também consegue transmitir o tédio que Emma sente durante o casamento e a decepção em não conseguir amar Charles. Mesmo quando algum elemento importante presente no livro é cortado do filme, logo em seguida vemos que faz sentido a sequência de eventos e a maneira como o diretor planejou.

A cena final de Emma, talvez a mais marcante do filme, faz com que a gente sofra junto com ela e novamente carrega a essência que Gustave Flaubert escreveu detalhadamente.

Deixo alguns questionamentos, na minha percepção muito pertinentes, tanto do livro quanto da adaptação: Existe algum culpado no casamento de Charles e Emma? Só amor basta num casamento? E o que é amor? Qual a base do amor? O que entendemos por casamento? O que torna um homem (ou mulher) mediocre? Existe um jeito “certo” de ler um livro? O idealismo nos impede de viver a “vida real”?

Livro: 8/10. Filme: 8/10.

Sugestões: https://youtu.be/0PhUeoRcwtg?si=NejcY5gqMRMXI6rc https://youtu.be/Igpxpij-efc?si=JkYcWfc1Q3MVrSvb


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