Um passeio esquizo com Lenz
“O passeio do esquizofrênico: eis um modelo melhor do que o neurótico deitado no divã. Um pouco de ar livre, uma relação com o fora. Por…
Um passeio esquizo com Lenz
*“O passeio do esquizofrênico: eis um modelo melhor do que o neurótico deitado no divã. Um pouco de ar livre, uma relação com o fora. Por exemplo, o passeio de Lenz […].”* ³

Em primeiro lugar, o que significa o “neurótico deitado no divã” como modelo? Aqui os autores não fazem uma crítica aos neuróticos que deitam no divã, e sim à postura teórica de tomá-los como parâmetro de um modelo, de um normal.
Tampouco pretende-se tomar a pessoa esquizofrênica como modelo e romantizar seu sofrimento. É inclusive para evitar essa confusão que Deleuze e Guattari preferem fazer uso do termo “esquizo”, em referência ao personagem conceitual por eles formulado. Ao contrário do neurótico e seu sedentarismo característico, o esquizo é o modo de funcionamento do nômade.
A leitura que o psicanalista e o filósofo fazem é de que o neurótico tem seu desejo subordinado às instâncias sociais reprodutoras da lógica do capitalismo. A força do esquizo, ao contrário, é a de abrir sempre novos horizontes ao desejo, novas linhas-de-fuga, concedendo ao desejo toda sua potência revolucionária.
Os autores de O Anti-édipo tomam como exemplo o fragmento de uma novela inacabada de Georg Büchner, de 1839, chamada Lenz, em homenagem à vida do poeta Jakob M. R. Lenz. Nela, o autor alemão retrata a oscilação anímica que acomete Lenz, um jovem escritor que, na iminência de um enlouquecimento, realiza um “passeio sem rumo”¹ por recônditos vilarejos alemães.
Durante seu passeio, ou as coisas do mundo o invadiam e então “Sentia dever atrair a si a tempestade, receber todas as coisas;”¹ ou então elas lhe pareciam distantes e “tudo então se afastava, a terra recuava, diminuía, como um planeta errante”¹. Depois de percorrer vales e montanhas, atormentar-se e maravilhar-se, Lenz subiu a um planalto, sentou-se, e então “Sentiu-se terrivelmente só”¹. É após esse momento de desespero e solidão, na manhã seguinte, que Lenz encontra Oberlin, um pastor da aldeia de Waldbach.
Daí em diante, Lenz encontra breves momentos de tranquilidade — como ao ser acolhido pelo pastor, que tenta impor-lhe uma significação, uma moral ao seu sofrimento -, que se intercalam com momentos de “angústias mortais” e desorientação.
A marca do personagem Lenz é que, apesar de encontrar em Oberlin um refúgio apaziguador (embora este tentasse imputar-lhe um direcionamento de sua alma), ele não procura um caminho único, estava ali como um errante que segue “ao acaso dos caminhos”¹.
Na leitura de Deleuze e Guattari, “É diferente dos momentos em que Lenz se encontra na casa do seu bom pastor, que o força a se ajustar socialmente em relação ao Deus da religião, em relação ao pai, à mãe. No seu passeio, ao contrário, ele está nas montanhas, sob a neve, com outros deuses ou sem deus algum, sem família, sem pai nem mãe, com a natureza.” ³
Penso não ser o mais adequado olhar essa oscilação a partir dos pólos da razão x loucura. Na minha leitura, Deleuze e Guattari viram essa oscilação do personagem como uma potência da ordem do “fluxo esquizo”, de ‘desterritorialização-reterritorialização’. Dado que “Os fluxos esquizos a todo o momento se modificam em intensidade, contornam os limites, se redefinem e se recriam, processo que os autores chamam de ‘desterritorialização-reterritorialização.’”³
Lenz não submete, ou recusa a submeter, seu desejo aos ideais de sua época ( “para o diabo essa caduca sociedade moderna”, escreve em uma carta), mas em contrapartida se vê desorientado, vazio (ou em desterritorialização), e isso o apavora e angustia. Busca, então, conectar-se com outras coisas, como a natureza, por exemplo:
“*Ele ‘achava que deveria ser uma sensação de infinita felicidade ser tocado assim pela vida primitiva de toda a espécie, ter sensibilidade para as rochas, os metais, para a água e as plantas, captar em si mesmo, como num sonho, toda criatura da natureza, da mesma maneira como as flores absorvem o ar com o crescer e o minguar da lua’.* Ser máquina clorofílica ou de fotossíntese ou, pelo menos, enlear seu corpo como peça em tais máquinas”**. ³
No entanto, seu encontro com Oberlin oferece uma reterritorialização ambígua, pois Lenz não se identifica plenamente com seus ideais cristãos, mas se sente bem tratado por ele e pelo povoado de Waldbach, que lhe recebem com hospitalidade, conferindo a ele um lugar dentro daquele socius. A piora de Lenz, inclusive, parece se dar justamente à medida que ele é cada vez mais inserido naquele contexto e que novas imposições e leituras vão se dando sobre seu desejo e sofrimento, assim como maneiras de tratamento (Oberlin lhe aconselha o repouso e a oração).
O mérito de Büchner é ter conseguido transpor ao texto o sentimento de desorientação em que Lenz se vê imerso, permitindo que o leitor se veja comungando da mesma sensação. A novela traz, portanto, um ótimo exemplo para se compreender os desafios da dinâmica entre desterritorialização-reterritorialização, tal como pensado por Deleuze e Guattari. Tanto a desterritorialização quanto a reterritorialização são movimentos importantes e interdependentes — por isso se encontram, por vezes, grafados com hífen.
A força da desterritorialização está em, justamente, produzir errância. Mas errância sem a produção de um novo território existencial é o que pode tornar o nômade um doente crônico. A desterritorialização sem reterritorialização é o que produz o esquizofrênico hospitalizado.
Porém, é nessa abertura vertiginosa que se encontra a potência de atualização dos territórios existênciais antes sedentarizados: “eu e não-eu, exterior e interior, nada mais querem dizer.”³ Permitir que o desejo nos leve além, para um passeio esquizo, é um convite à abertura para o fora que, a partir de seu movimento desconcertante, pode (ou não) levar a novas posições frente ao real.
BÜCHNER, G. Lenz. 2ª ed. Lisboa: Hiena Editora, 1994.
CAVA, B. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Portal de periódicos da UFRJ. Rio de Janeiro, 270–4, S/D. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/download/52355/28550/146409
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O Anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2011.
*Ilustração da artista plástica Andrea Campos de Sá
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