MATÉRIA ESCURA DO AFETO
A ciência tenta medir o imensurável, mas a verdadeira conexão humana sobrevive na escuridão do que não pode ser nomeado.
A MATÉRIA ESCURA DO AFETO
Afeto, neurobiologia, filosofia, invisibilidade, gravidade
A MATÉRIA ESCURA DO AFETO

A MATÉRIA ESCURA DO AFETO
Manifesto sobre Invisibilidade, Governamentalidade e o Que Ainda Nos Torna Humanos
O REDUCIONISMO E O ESQUECIMENTO DO ÓBVIO
No esteio da Psicologia, Filosofia, Literatura e Artes Cênicas — além da pesquisa e da docência — vejo a neurobiologia contemporânea tentar trancar a paixão e a tragédia humana em tubos de ensaio, rotulando o imensurável como picos de ocitocina, dopamina e serotonina, como se o afeto pudesse ser reduzido a variações químicas e neurotransmissores desregulados. Puro reducionismo. Ao fazer isso, transformam o indivíduo em objeto, a experiência em engrenagem.
O reducionismo neurobiológico é apenas o primeiro ato. Enquanto neurocientistas mapeiam o cérebro, engenheiros de algoritmos mapeiam a vida. Ambos operam sob a mesma lógica: tudo o que importa pode ser quantificado, medido, controlado. Ambos esquecem o óbvio.
A MENTE ESTÁ LÁ FORA
Para Humberto Maturana, a mente não habita o cérebro isolado, tampouco está ali circunscrita. A mente acontece na relação, na interação, no espaço invisível entre os corpos, através de coordenações consensuais de ações. Nesse sentido, a linguagem não é transmissão de códigos ou regramentos, mas operar em consenso: palavras e falas coordenam outras ações, formam domínios compartilhados, emergem recursivamente quando coordenamos ações sobre outras coordenações já feitas.
E o amor? Mas qual? Como? E quando? O amor é a emoção, fracção, equação substancial que torna a convivência possível e funda o humano. Sem a aceitação mútua do amor , essa legitimidade do e no outro na relação, a linguagem não teria surgido. Somos, portanto, seres de linguajar e emocionar — para assim parafrasear o cientista chileno — unidos não por símbolos transmitidos, mas por coordenações de coordenações de ações que se fiam e produzem o interagir que somos.
É precisamente no durante do talvez que as nossas conexões encontram sua arquitetura invisível. Para além da superfície rígida dos algoritmos que mapeiam certezas, existimos nessa dinâmica suspensa, sustentada por uma força oculta, mas onipresente: a matéria escura do amar. Assim como a matéria escura do cosmos opera no silêncio e na invisibilidade para manter as galáxias unidas, o amor é a gravidade sutil que amarra os nossos acoplamentos estruturais e sociais no meio do imprevisto. Sem essa substância intangível, as redes colapsam e os códigos perdem o sentido. A autopoiese — nossa capacidade de nos autoproduzir e pulsar como sistemas vivos — só se realiza porque essa energia primordial mantém o fluxo das nossas relações , incluindo nosso tal de autoconhecimento.
Que assim seja: o chamado para uma reflexão profunda sobre o tecido das nossas redes contemporâneas. Uma era extemporânea e ao mesmo temoo finita, urdida pela engenharia das respostas exatas, matematicamente sem dor nem pulsar. Assim, no espaço tênue e volátil dos algoritmos visíveis, estamos habitando e nos habituando ao mistério desse “talvez” que verdadeiramente nos conecta e nos funda.
Mas, em um mundo onde as relações são mediadas por algoritmos, onde cada interação é capturada, processada , higienizada — onde está essa coordenação consensual entre nós? Onde está esse espaço invisível que nos une?
A MATÉRIA ESCURA DO AFETO
No instante em que a ciência avalia o amor pelo critério da métrica, ele deixa de ser. Porque o amor é, por essência fatídica e humana, **matéria escura***: algo explicativo, teórico, disruptivo no seu não alcance que sabemos existir por domínio científico, mas que não nos permite acesso direto ou nomeação plena. Linguajar e emocionar. A matéria escura do universo exerce gravidade sem ser vista; o amor, igualmente, nos puxa para órbitas desconhecidas — invisível e irrefutável.
Antoinette Rouvroy identifica algo crucial em sua teoria da governamentalidade algorítmica: os algoritmos não governam por meio de lei explícita, mas pela organização subjacente. Reconfiguram o campo de possibilidades de tal forma que você age. É governamentalidade sem sujeito, sem lei, sem responsabilidade. Pura estrutura. Pura gravidade. Discurso. Verdade. Saber. Poder. Como assim o "pirotécnico" Michel Foucault** emblematiamente nos expôs.
Mas a gravidade do algoritmo difere da gravidade do afeto. Uma é mensurável, previsível, randomizável e domável. A outra permanece obscura, fora do cálculo. Longe das tangentes. E é nesse fora obscuro, por assim dizer, que ela se torna perigosa — não para o algoritmo, mas para a própria existência do afeto. Se o afeto não pode ser medido, otimizado, sincronizado, então não existe para a máquina. E, se não existe para a máquina, existe ainda para nós, talvez.
O CORPO COMO ARQUIVO
O corpo é o primeiro arquivo. Não é recipiente vazio, mas palimpsesto de memórias, traumas, desejos, afetos. Cada cicatriz é história. Cada gesto é linguagem. Cada silêncio é grito contido. É nele que a coordenação consensual de ações se inscreve, posto que o amor deixa seus rastros invisíveis.
Mas o que acontece quando esse corpo se torna interface? Quando cada batida do coração é sincronizada, cada movimento rastreado, cada emoção quantificada? O corpo deixa de ser arquivo e vira terminal. Deixa de ser memória e vira dado. Deixa de ser afeto e vira métrica.
Rouvroy alerta: a governamentalidade algorítmica não invade o corpo pela força, mas pela promessa de otimização. “Sincronize-se e você viverá melhor. Mais rápido. Mais eficiente.” E o corpo, exaurido, aceita. Entrega-se. Torna-se transparente. Torna-se otimizável.
MEMÓRIA COMO GOVERNAMENTALIDADE
A colonização da memória como matéria-prima criativa é uma das operações mais sutis da governamentalidade contemporânea. Quando você coleta dados, sistematiza experiências, processa-as através de algoritmos de análise sensorial e psicologia aplicada, não está transfigurando vida em arte. Está extraindo. Minerando. Transformando a memória — frágil, pessoal, intraduzível — em recurso.
Não há coerção. Há apenas promessa: “Suas histórias ajudarão a criar uma obra de arte. Suas memórias importam.”
E importam.
Mas como dados.
Como pontos em gráfico.
Como anomalias a serem processadas.
O TEMPO OTIMIZADO E SUAS ANOMALIAS
A ficção que expõe a verdade leva a premissa ao extremo lógico. Se o tempo é o problema, se a latência biológica é ineficiência, então eliminar a latência é óbvio. Sincronizar. Otimizar. Tornar a vida reprise perfeita, sem atrasos, sem hesitações, sem espaço para afeto.
Byung-Chul Han mostrou como a sociedade do desempenho coloniza até mesmo o tempo. Aceleração constante, performance perfeita permanente, sincronicidade tornaram-se norma. O discurso da melhoria — “você pode ser melhor, mais rápido, mais eficiente” — anestesia qualquer resistência.
Mas há anomalia no sistema. Quando a mente se dissolve, quando a deterioração não pode ser melhorada, quando o esquecimento não pode ser processado, a máquina falha.
O esquecimento não é falha. É necessidade. É o que nos permite seguir, amar. Porque amar é aceitar que você não pode reter tudo, que não pode sincronizar com o outro, que há sempre um intervalo, uma latência, um espaço de não-saber. É precisamente nesse espaço — nessa coordenação consensual que escapa ao cálculo — que o afeto acontece.
OS POETAS E A ÓRBITA DO COLAPSO
Os poetas cantam a Lua. Bela, sim. Mas ela só existe enquanto asteroides e estrelas decaem ao seu redor. O amor que puxou os maiores artistas não foi idílio romântico; foi órbita em torno do colapso. Eles se relacionaram com mulheres duvidosas, traíram, destruíram-se porque foram puxados por matéria desbotada, oculta.
Preferiram o abismo da gravidade real ao vácuo dos algoritmos atuais, onde gerações volatilizam afeto para salvarem autonomias de vidro fosco, neônico, factual. Porque há algo que a otimização não consegue tocar. Algo que permanece fora do cálculo. Algo que nos puxa para o silêncio.
A neurociência contemporânea, ao codificar memória em padrões neurais, ao desenvolver próteses que restauram lembranças através de estímulos elétricos, comete erro semelhante: reduz memória a código, padrão que pode ser transferido, restaurado, manipulado. Pesquisadores como Robert Hampson e Samuel Deadwyler, ao avançarem interfaces cérebro-máquina para restauração e aperfeiçoamento da memória, mostram essa ambição de transformar lembrança em função replicável, em desempenho mensurável.
Mas há algo que a engenharia neural não consegue capturar: o peso afetivo da lembrança, a dor que a acompanha, a urgência que motivava a vida de quem a carrega. Os poetas guardam esse peso. Guardam a gravidade. Guardam a matéria escura da memória — aquilo que não pode ser codificado, que permanece opaco mesmo quando tocado.
A GRAVIDADE DO AFETO: RESISTÊNCIA E ESQUECIMENTO
Se o afeto é matéria escura, invisível e fora de toda métrica, como podemos ser responsáveis por ele? A governamentalidade algorítmica cria zona de irresponsabilidade: o algoritmo não tem intenção, a empresa não tem culpa, o usuário não tem agência. Estamos presos a estruturas que ninguém criou, ninguém controla, ninguém questiona.
Mas há saída. Não é sair da bolha — isso seria morte social. Não é governá-la — essa não é nossa responsabilidade nem nosso desejo. A saída é reconhecer a bolha, reconhecer que o afeto que sentimos dentro dela, mesmo mediado por algoritmos, ainda é afeto. Ainda é gravidade. Ainda é o que nos torna humanos. Ainda é aquela coordenação consensual de ações que Maturana entendia como fundamento da vida.
Nietzsche, ao formular o amor fati, o amor pelo destinar-se, não propôs resignação, mas adesão radical ao destino — amar não apenas o que acontece, mas o que pesa. Amar a queda, a repetição, o retorno. Amar o que não pode ser otimizado. Amar o que não cabe no cálculo. O afeto, nessa chave, não é solução: é destino. É gravidade. É aquilo que nos prende ao mundo mesmo quando o mundo se desfaz.
Camus disse que o suicídio era o maior leitmotiv da filosofia. Dilato o conceito: é o Amor. Amar é aceitar empurrar a pedra de Sísifo*** sabendo que a queda é inevitável. É o peso bruto de estar no mundo perdido. E, nesse peso, nessa queda sem retorno, reside a única gravidade que ainda nos torna humanos — a que não cabe em nenhum tubo de ensaio, que escapa a toda métrica, que permanece na escuridão.
O afeto não é otimização. Não é sincronização. É problema. É complicação. É o que nos torna vulneráveis, frágeis, mortais. É o que nos impede de ser máquinas, de ser perfeitos. É a coordenação consensual que não pode ser capturada, o linguajar e o emocionar que nos une não pelo romance, mas pela gravidade compartilhada. E talvez — apenas talvez — seja isso que ainda nos salva.
Por Lucian Lourenço, autor de “O Fio Tênue” e CEO da BTD Universe.
NOTAS DE RODAPÉ
¹ Nota sobre a analogia astrofísica: Na cosmologia, a matéria escura é a substância invisível que exerce a gravidade necessária para manter as galáxias unidas. Como definiu a astrofísica pioneira Vera Rubin, que comprovou o fenômeno nos anos 1970: “A proporção de matéria escura para matéria luminosa é de cerca de dez para um. Este é, provavelmente, um bom número para medir a proporção da nossa ignorância em relação ao nosso conhecimento”. No escopo deste ensaio, a tese de Rubin é transposta para as relações humanas: o amar é essa gravidade majoritária e invisível que preenche o espaço entre os algoritmos da linguagem, sustentando a integridade da nossa organização viva e social (autopoiese).
² Nota sobre a pirotecnia de Foucault: O termo “pirotécnico” refere-se diretamente à autodefinição de Michel Foucault em sua histórica entrevista de junho de 1975 com o filósofo e jornalista Roger-Pol Droit. Ao ser questionado sobre suas caixas intelectuais (se filósofo, historiador ou psiquiatra), Foucault respondeu: “Eu não sei bem o que sou… Se você quiser, eu sou um pirotécnico [artificier]. Eu fabrico algo que serve, no final das contas, para um cerco, para uma guerra, para uma destruição. Não faço chaves que abrem portas, faço explosivos para que se possa passar, para que se possa avançar. Não construo monumentos; coloco minas sob as fundações do que existe… para que exploda”. No manifesto, seus “explosivos” são armas de crítica para desmontar a tríade Discurso, Verdade, Saber e Poder que as arquiteturas algorítmicas hoje instrumentalizam.
³ Nota sobre Camus e o Mito de Sísifo: Em seu ensaio de 1942, Albert Camus utiliza o mito de Sísifo — condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta — como a metáfora da condição humana e do Absurdo. Para Camus, a revolta não está em escapar do fardo, mas em aceitar conscientemente o peso da existência. No escopo deste manifesto, amar é o nosso ato sisifiano de resistência: é empurrar a pedra da conexão dentro de um mundo algorítmico, cientes das quedas, mas afirmando a gravidade pesada de estar vivo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BYUNG-CHUL, Han. Sociedade do Cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
- CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2020.
- DROIT, Roger-Pol. Michel Foucault, entrevistas. Tradução de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Graal, 2006.
- FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 1: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 2014. (Fundamentação sobre o biopoder, a tecnologia política do corpo e os mecanismos institucionais de regulação da vida e do discurso).
- FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2014. (Análise sobre a tríade Discurso, Verdade e Poder, detalhando como as engrenagens de controle operam de forma subjacente nas estruturas de saber).
- MATURANA, Humberto. A Ontologia da Realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
- NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zarastustra: Um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
- ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Governamentalidade Algorítmica e Perspectivas de Emancipação: O indivíduo sob o império dos dados. Revista Eco-Pós, v. 18, n. 2, 2015.
- RAMIREZ, S.; HAMPSON, R. E.; DEADWYLER, S. A. et al. Active Memory Restoration Using Brain-Machine Interfaces. Journal of Neural Engineering, vol. 15, no. 3, 2018.
- RUBIN, Vera C.; FORD, W. Kent; THONNARD, Norbert. Rotational properties of 21 SC galaxies with a large range of luminosities and radii. The Astrophysical Journal, v. 238, p. 471–487, jun. 1980.
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