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Göbekli Tepe: A Redescoberta da Nossa História

Em 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt fez uma descoberta que abalaria os alicerces da arqueologia tradicional. Durante suas…

Odilio Noronha in O Alquimista de Si Mesmo · 2024-10-29 00:07 · 1 claps · 12.1 min read
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Göbekli Tepe: A Redescoberta da Nossa História

Em 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt fez uma descoberta que abalaria os alicerces da arqueologia tradicional. Durante suas explorações em sítios neolíticos no sudeste da Turquia, Schmidt avistou um bloco de calcário surgindo de uma encosta em um lugar que os habitantes locais chamavam de Göbekli Tepe, que significa “Monte Umbigudo”. Ao começar as escavações, ele e sua equipe não tinham ideia de que estavam desenterrando um dos sítios mais antigos e misteriosos da história humana, datando de 11.700 anos — um período que antecede o surgimento da agricultura e da civilização urbana. Este achado contradizia diretamente as crenças de que as sociedades dessa época eram compostas exclusivamente por nômades caçadores-coletores.

Göbekli Tepe não era apenas um simples aglomerado de pedras. O que foi descoberto no local revelou um complexo monumental de grandes pilares de pedra esculpidos e dispostos em formações circulares, alguns com até 5 metros de altura e pesando mais de 10 toneladas. Estes pilares eram adornados com intricados relevos de animais, como raposas, javalis, cobras, escorpiões e até figuras humanas, mostrando uma habilidade artística altamente sofisticada para o período. Mais impressionante ainda, o alinhamento das estruturas indicava um conhecimento astronômico avançado, algo que não se esperava de uma sociedade da Idade da Pedra.

A Contradição da Linha do Tempo

As primeiras civilizações organizadas, como a suméria, surgiram cerca de 6.000 anos atrás, já bem após o início do cultivo agrícola no Crescente Fértil da Mesopotâmia. A arqueologia tradicional nos diz que, antes disso, os humanos viviam em pequenos grupos nômades, dependentes da caça e da coleta. Eles não tinham as habilidades necessárias para construir estruturas permanentes de pedra, muito menos monumentos complexos que exigiam planejamento, organização de trabalho e conhecimentos em matemática e astronomia. No entanto, Göbekli Tepe, que foi construído 6.000 anos antes das primeiras cidades sumérias, contraria essa narrativa.

As partes mais antigas de Göbekli Tepe datam de 12 mil anos atrás, coincidindo com o fim da última era glacial, um período conhecido como o “Younger Dryas”, caracterizado por mudanças climáticas extremas. O que surpreendeu ainda mais os arqueólogos foi que, ao longo das escavações, eles descobriram que os recintos de Göbekli Tepe não foram construídos de uma só vez, mas sim ao longo de aproximadamente 1.000 anos. Isso indicava que a área havia sido ocupada por um longo período, desafiando ainda mais a ideia de que os humanos daquele tempo viviam em grupos itinerantes e desorganizados.

O Surgimento da Agricultura

23 O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.

Não por acaso, Göbekli Tepe foi erguido em um período que coincide com o surgimento da agricultura. Cerca de 12.000 anos atrás, no início do período neolítico, a prática agrícola começou a se desenvolver, marcando uma das transições mais importantes da história humana. Durante essa época, as sociedades começaram a abandonar o estilo de vida nômade, estabelecendo-se em comunidades fixas e cultivando a terra. Curiosamente, as primeiras agricultoras foram mulheres, que detinham o conhecimento sobre as propriedades das plantas e sua reprodução. Este domínio da agricultura foi um dos processos constitutivos das primeiras civilizações e talvez tenha desempenhado um papel fundamental no surgimento de centros como Göbekli Tepe, onde rituais e cultos provavelmente estavam conectados à fertilidade da terra e às forças cósmicas.

Göbekli Tepe e a Precessão dos Equinócios

A precessão dos equinócios é um movimento lento e gradual do eixo da Terra que leva aproximadamente 25.920 anos para completar um ciclo completo. Esse movimento altera a posição das constelações vistas da Terra durante diferentes épocas do ano e foi observado por várias civilizações antigas, que o associaram a mudanças cósmicas e espirituais.

Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta de Göbekli Tepe é o momento de sua construção. O sítio foi erguido no início de um novo ciclo de eras, segundo a precessão dos equinócios. Este ciclo, que dura cerca de 25.920 anos, é dividido em quatro grandes Aeons, sendo que cada Aeon é composto por três eras astrológicas, com cada uma delas durando aproximadamente 2.160 anos. A construção de Göbekli Tepe coincide com o início do primeiro Aeon, conhecido como o Aeon da Mãe, que abrange as três primeiras eras da precessão, 6480 anos.

O Aeon da Mãe, associado à deusa Isis (representação da Deusa Mãe), é um período marcado por uma profunda conexão com a natureza e pelo domínio do simbólico e do intuitivo. A linguagem, predominantemente falada e menos escrita, permitia que as comunicações se desdobrassem em expressões simbólicas, manifestando o respeito ao divino feminino e à coletividade. Esse período, refletido em sítios como Göbekli Tepe, revela um mundo onde a veneração pela figura materna era evidente nas esculturas e relevos, que trazem imagens de uma Deusa ou figura feminina arquetípica. Essas representações sugerem uma sociedade orientada por valores de afeto, respeito à natureza e integração com os ciclos da vida, resgatando uma dimensão de harmonia entre o humano e o sagrado.

Quando comparamos o Aeon da Mãe com o ciclo posterior, o Aeon do Pai, percebemos uma mudança clara nas dinâmicas culturais, espirituais e sociais. No Aeon do Pai, valores como a racionalidade, o julgamento e a estrutura hierárquica ganham força, enquanto a expressão simbólica é gradualmente substituída pelo conhecimento codificado e registrado. A linguagem se torna escrita e categorizada, com uma ênfase no controle e na ordem social, e as sociedades passam a se organizar em estruturas cada vez mais rígidas e institucionalizadas. Essa mudança na forma de expressão reflete o distanciamento dos aspectos intuitivos e relacionais, criando uma sociedade onde a razão e o controle sobrepõem-se à conexão com o entorno natural e com as necessidades emocionais e afetivas.

Contudo, quando um dos arquétipos é suprimido — como vemos hoje, com a gradual perda de reverência à Deusa — surgem desequilíbrios profundos nas estruturas sociais e psíquicas. A falta do princípio feminino leva a uma sociedade super mecanizada, super politizada e super militarizada, onde o pensamento racional, o julgamento e o controle tornam-se os fatores dominantes. As necessidades de relacionamento, afeto, carinho e respeito pela natureza são negligenciadas, criando um cenário de desequilíbrio, onde a harmonia interior e exterior se torna escassa. Esse desprezo pelo arquétipo da Mãe transforma as relações em meras buscas por prazer, desconectadas do amor e do respeito mútuo, evidenciando uma fragmentação da experiência humana.

A transição entre esses Aeons marca, portanto, não apenas mudanças culturais, mas também uma evolução nas linguagens, nas organizações sociais e nas relações humanas. Em uma sociedade equilibrada, a integração entre os princípios do Pai e da Mãe é fundamental para que razão e intuição, controle e afeto coexistam em harmonia. Ao suprir a presença de ambos os arquétipos, não apenas se restaura o equilíbrio no mundo exterior, mas também se cultiva a integração psíquica e espiritual dentro de cada indivíduo, permitindo uma existência mais completa, conectada e consciente.

As Estruturas Monumentais e o Alinhamento com Sírius

Göbekli Tepe não foi construído ao acaso. Suas quatro estruturas principais, que cobrem cerca de 9.290 metros quadrados, estão orientadas em direção à estrela Sírius, a mais brilhante no céu noturno. Esta estrela desempenhou um papel significativo em várias culturas antigas, mas o alinhamento dessas estruturas com Sírius, 12.000 anos atrás, sugere uma compreensão da astronomia muito anterior a qualquer registro conhecido. O movimento de Sírius ao longo de um ciclo de 100 anos parece ter sido cuidadosamente seguido pelos construtores de Göbekli Tepe, que criaram novos recintos à medida que o alinhamento da estrela mudava no céu.

A precisão do alinhamento sugere uma sofisticação tecnológica, matemática e astronômica que desafia o entendimento convencional da capacidade humana na Idade da Pedra. Além disso, o processo de construção desses monumentos teria exigido uma vasta divisão de trabalho, incluindo funções como planejamento comunitário, gestão de recursos e organização social. Os arqueólogos também encontraram evidências de habilidades avançadas de engenharia, necessárias para erguer pilares gigantescos em um terreno difícil, algo que demandaria uma cooperação em massa e um nível de organização que os caçadores-coletores supostamente não possuíam.

Um Aviso nas Pedras

13 E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. 14 E o céu retirou-se como um livro que se enrola; e todos os montes e ilhas foram removidos do seu lugar. 15 E os reis da terra, e os grandes, e os ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo servo, e todo livre se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas 16 e diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos do rosto daquele que está assentado sobre o trono e da ira do Cordeiro, 17 porque é vindo o grande Dia da sua ira; e quem poderá subsistir?

Os pilares esculpidos de Göbekli Tepe apresentam relevos que narram uma história enigmática. Entre os achados mais intrigantes está o Pilar 43, conhecido como “Pedra do Abutre”, que parece contar a história de um evento catastrófico, talvez um impacto de cometa que teria causado grandes inundações e mudanças climáticas drásticas. Pesquisadores sugerem que as gravuras em Göbekli Tepe podem marcar a data de um impacto catastrófico causado por fragmentos de um cometa que atingiram a Terra há quase 13.000 anos, por volta de 10.850 a.C. Camadas de sedimentos de várias partes do mundo, datadas desse período, contêm altos níveis de irídio, platina e outros elementos raros, geralmente associados a objetos extraterrestres. Além disso, partículas esféricas minúsculas e nanodiamantes encontrados nessas camadas de sedimento indicam impactos de alta temperatura, compatíveis com uma colisão de cometa ou asteroide. Outro indício significativo é a presença de espessas camadas de microcarvão em regiões como os lagos Akgol e Van, na Turquia, sugerindo que incêndios generalizados de biomassa, possivelmente causados pelo impacto, devastaram grandes áreas. Esses dados reforçam a hipótese de que o Pilar 43 narra um evento catastrófico global, conectando os símbolos esculpidos aos ciclos cósmicos e à destruição da vida na Terra naquele período.

Além de um evento isolado, o Pilar 43 também parece narrar o encerramento de um ciclo maior, o fim de um ciclo cósmico de 26.000 anos — o tempo completo da precessão dos equinócios — que teria culminado em uma série de eventos destrutivos, resultando no colapso de civilizações antigas. Segundo essa perspectiva, a “Pedra do Abutre” seria uma representação simbólica do fim de uma era, quando grandes catástrofes moldaram a face do planeta e extinguiram civilizações anteriores.

A “Pedra do Abutre” apresenta asterismos — padrões de estrelas semelhantes a constelações — , incluindo a constelação de Escorpião. No topo da gravura, há um sol posicionado em uma das asas do abutre, sugerindo que ele estava sendo usado como uma referência astronômica para datar o evento. Ao aprofundar-se na análise astronômica das constelações representadas no pilar, os estudiosos propõem que o abutre pode estar associado à constelação de Sagitário. Isso se reforça com a verificação de que a última vez que o Sol cruzou a asa do abutre — no contexto de Sagitário — foi há cerca de 11.000 anos. Esse detalhe possibilita a compreensão de que o Pilar 43 também pode ser interpretado como um mapa do firmamento, com a constelação de Sagitário simbolizando uma posição astronômica chave na antiguidade.

Essa representação celeste também pode simbolizar o fim de um ciclo de 26.000 anos, ligado à precessão dos equinócios, indicando o ponto de reinício das civilizações humanas após um colapso anterior.

5 E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. 6 Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. 7 E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.

A gravura no Pilar 43 é considerada uma representação do início do Younger Dryas, um período de resfriamento abrupto que durou cerca de 1.000 anos e coincidiu com a datação da construção de Göbekli Tepe. Além disso, há uma figura humana sem cabeça, simbolizando morte e destruição, e uma cobra que parece emergir do sul, possivelmente representando tsunamis ou outras formas de catástrofe natural, em parte devido ao degelo, com o posicionamento das civilizações sempre proximo a água. Esses símbolos reforçam a ideia de que o Pilar 43 narra a conclusão de um ciclo de destruição e renascimento, sugerindo que o conhecimento dos ciclos cósmicos era parte integrante da sabedoria dos construtores de Göbekli Tepe.

Esse pilar, em particular, traz uma escultura que mostra o riacho meteorítico com uma duração de 27 dias, emanando das direções das constelações de Aquário e Peixes. A associação entre este pilar e a corrente de meteoros Taurid reforça a hipótese de que os construtores de Göbekli Tepe tinham um profundo conhecimento astronômico e registravam eventos cósmicos significativos, que poderiam ter impactado diretamente a sua vida e sua visão do mundo.

Tecnologia Avançada e Astronomia

Göbekli Tepe foi construído muito antes de outras maravilhas arquitetônicas da antiguidade, como as pirâmides do Egito ou Stonehenge. Isso levanta uma questão intrigante: de onde esses primeiros construtores obtiveram o conhecimento necessário para erguer essas estruturas complexas? A arqueologia tradicional sustenta que a agricultura e as cidades vieram primeiro, seguidas pelo desenvolvimento de tecnologias como a construção de monumentos e o conhecimento astronômico. No entanto, Göbekli Tepe inverte essa narrativa.

Alguns arqueólogos e estudiosos especulam que a construção de Göbekli Tepe foi possibilitada por uma civilização anterior, que teria transmitido seu conhecimento a grupos de caçadores-coletores mais primitivos após um grande cataclismo. Esta teoria sugere que uma civilização avançada existiu antes do fim da última era glacial, ensinando técnicas de engenharia, matemática e astronomia aos humanos que viviam na região. Esses conhecimentos teriam sido usados para construir Göbekli Tepe e, posteriormente, transmitidos ao longo dos milênios.

O novo estudo, publicado na revista Time and Mind pelo Dr. Martin Sweatman, engenheiro da Universidade de Edimburgo, revela que as inscrições em forma de V encontradas no pilar de pedra em Göbekli Tepe podem representar dias em um calendário solar. Esse calendário, de acordo com Sweatman, consistia em 12 meses lunares e 11 dias adicionais, acompanhando de perto as fases do sol, da lua e das constelações. O calendário antecede todos os sistemas conhecidos desse tipo por milhares de anos, um V usado ao redor do pescoço de uma figura semelhante a um pássaro, pode representar a constelação do solstício de verão na época.

O Enigma das Estruturas Enterradas

Uma das questões mais intrigantes sobre Göbekli Tepe é o fato de que, aproximadamente 10.000 anos atrás, o sítio foi deliberadamente enterrado. Isso não foi obra da natureza, mas sim de seus próprios construtores, que preencheram os recintos com pedras e detritos, antes de cobri-los com camadas de terra. Os arqueólogos ainda estão divididos sobre os motivos por trás desse ato. Uma teoria sugere que o enterro foi uma tentativa de preservar o local para as gerações futuras, protegendo-o de possíveis invasões ou catástrofes naturais. Outra teoria propõe que os construtores enterraram Göbekli Tepe para escondê-lo, talvez como parte de um ritual religioso ou em resposta a uma ameaça iminente.

As escavações até agora revelaram apenas 5% do sítio, e imagens de radar indicam que há pelo menos mais 15 a 20 estruturas adicionais enterradas sob a terra, contendo mais de 200 pilares de pedra. Göbekli Tepe pode ser apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior, um centro religioso e astronômico que pode ter desempenhado um papel fundamental na transmissão de conhecimento entre diferentes culturas.

Karahan Tepe e Tas Tepeler: Mais Evidências de uma Civilização Perdida?

A apenas 40 milhas de distância de Göbekli Tepe, as escavações de outro sítio, Karahan Tepe, começaram em 2019. Embora menor e mais recente que Göbekli Tepe, Karahan Tepe oferece evidências de uma sociedade organizada, com residências, áreas de armazenamento e ferramentas que indicam uma economia mais diversificada. O local sugere que Göbekli Tepe pode ter sido um centro religioso, culto ou a forma de passar uma mensagem, enquanto Karahan Tepe funcionava como um assentamento residencial ou comercial. Em 2021, o governo turco anunciou a descoberta de pelo menos 11 colinas adicionais com estruturas semelhantes, formando um anel ao redor de Göbekli Tepe. Esses locais, conhecidos como Tas Tepeler, indicam que essa região pode ter sido o coração de uma metrópole antiga.

Conclusão

Göbekli Tepe representa um mistério que desafia as concepções convencionais sobre o desenvolvimento da civilização. Ao unir conhecimento astronômico avançado, habilidades arquitetônicas e a provável conexão com o surgimento da agricultura, esse sítio nos revela uma sociedade muito mais sofisticada do que se imaginava existir na Idade da Pedra. Seja um local de culto, um observatório astronômico ou um centro espiritual, Göbekli Tepe simboliza a enigmática transição da humanidade, tanto em termos materiais quanto espirituais. A cada nova descoberta, somos levados a repensar nossas origens e o legado que as civilizações antigas deixaram para o mundo moderno.


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