Uma breve prosa com o outro lado
— Não vai me oferecer um copo dessa bebida? — sussurrou ele mesmo em seu próprio ouvido, enquanto já enchia uma enorme taça com a cerveja…

Conversa de bar, arte por Rui de Paula.
Uma breve prosa com o outro lado
— Não vai me oferecer um copo dessa bebida? — sussurrou ele mesmo em seu próprio ouvido, enquanto já enchia uma enorme taça com a cerveja que estava sob a mesa.
A bebida subiu ao topo da taça refletindo em volta o mais intenso amarelo daquele bar, nascido das luzes de velas que encaravam o copo.
O velho fixou os olhos em seu reflexo na garrafa e em seguida olhou para o outro velho a sua frente, que por sinal era ele próprio. Chegou a pensar ter visto seu reflexo duas vezes, talvez teria se esquecido do que aconteceu antes, se contentado com esse pensamento e retornado ao seu caloroso romance com a cerveja de sua garrafa. Mas o sorriso do velho era verdadeiro, verdadeiro o suficiente para que ele soubesse que nem em sua mais profunda alucinação seria criativo o bastante para criar aquele sorriso.
— Desse lado faz um frio daqueles, devo dizer. Um pouco de álcool sempre aquece quem precisa, não é? — dizia o senhor após dar um gole cheio da cerveja de sua taça.
— O que você pensa que está fazendo aqui, hein?! — Disse com dificuldade o homem que agora tentava entender como estava conversando com si próprio.
— Esperando você finalizar sua bebida, não é óbvio? É claro que eu não ia deixar de vir aqui te ajudar. Afinal, o tempo precisa passar. E isso, meu caro eu, posso lhe garantir que passa. O tempo é algo interessante, não acha? muitas vezes mal compreendido também. Ele traz a vida e busca a morte. Cria, molda e consome todas as coisas. Muitas vezes pensamos ter que esperar o tempo chegar com o que precisamos, mas esquecemos que ele está ali o tempo todo. Fluindo como a água de um riacho, trazendo o que vem levando o que vai.
A taça agora estava na metade. O amarelo não tinha mais todo seu glamour, mas comparado com outros presentes no bar, aquele ainda tinha todo charme que lhe era merecido.
— Se veio para beber, então digo que bebamos. Beber comigo não deve ser lá das piores coisas a se fazer, imagino. De onde da minha cabeça você saiu? Estou assim tão ruim?
— Eu ainda não cheguei, mas sempre te acompanhei. Você um dia também há de chegar aqui. E quando estiver aqui, caso queira me ver é só olhar para o outro lado.
O senhor acabava de dar seu último gole na cerveja, deixando nela apenas um imenso vazio colorido com o laranja do vidro da garrafa. Depois disso tentou entender o que o outro havia dito, mas não chegou muito longe. Então decidiu não dar muita atenção aos devaneios de um bêbado.
A taça também por fim estava vazia, não havia mais sinal do vislumbrante amarelo que antes encantava os olhares de qualquer um naquele bar, isso é claro, se não houvesse apenas dois homens ali.
— Antes que eu parta, pode me dizer a quem devo a honra de ter compartilhado minha bebida? — Disse o velho quando sentiu que o bar estava fúnebre o bastante para não querer uma próxima rodada, ou antes que tivesse que dar cerveja a mais um dele mesmo.
— Eu sou você a partir do momento que sair por aquela porta — falou o senhor enquanto se preparava para buscar uma outra garrafa de cerveja.
O velho então caminhou até a porta, intrigado com a conversa que teve, questionando se um bom sono resolveria tudo aquilo.
Por fim saiu pela porta. A luz de um farol iluminou seu caminho, então o velho olhou para o outro lado. De repente lá fora começou a fazer um grande frio, e o velho pensou em como uma boa cerveja poderia resolver.
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