Neoplatonismo e Otto Rahn.
Platão, Proclus e Otto Rahn. Quais as semelhanças entre esses pensadores?
Neoplatonismo e Otto Rahn.
Platão, Proclus e Otto Rahn. Quais as semelhanças entre esses pensadores?

Fotografia de Otto Rahn
Tanto Platão, quanto Proclus, quanto Otto Rahn, são pagãos. Ainda que este último, no seu pensamento jovem, era um entusiasta do catarismo, podendo assim se denominar de ‘’neocátaro’’. Mas é precisamente sobre o paganismo de tais autores que irei trabalhar no texto: primeiro, a teoria metafísica-teológica da hênades de Proclus, depois disso, o simbolismo do Sol em Platão e Proclus e, secundariamente (mas não de forma menos importante) os des-cobrimentos filológicos-arqueológicos que Otto Rahn trouxe a nós. Para assim, podermos pensar num ‘’neoplatonismo luciferiano’’.
Neoplatonismo: as hênadas (ou hênades) em Proclus.
Proclus, ao contrário de seu mestre Platão, acreditava que havia um termo intermediário entre as Formas Universais — as Ideias platônicas — e os entes que estão em potência para com elas. Isto é, Proclus elaborou um sistema onde os entes participantes das Ideias (entes separáveis e divisíveis) não participam diretamente da Forma Universal (inseparável e indivísivel). Os entes participariam de maneira indireta das Formas: através de substratos intermediários, emanados, que são ao mesmo tempo transcendentes e imanentes: transcendentes por serem emanados, imanentes por constituírem em algum aspecto os entes que são partícipes. Tal sistema resolveria também um problema famoso na filosofia que fora exposto no diálogo platônico Parmênides, tal problema que, argumenta contra a teoria da Ideias platônicas e seu universalismo radical: que ‘’faz’’ os entes serem partícipes diretos das Formas.
Importante mencionar aqui o τὸ ἐν (muitas das vezes traduzido como Uno )— que recebe um trato especial com Plotino — que seria causa primária, transcendente ao ser e ao não-ser, que está fora de qualquer dualidade. E, em Iamblichus, temos um τὸ ἐν, um Uno, inefável, e um Uno-Ser (Aiôn); esse primeiro sendo o Uno transcedente ao Ser e esse segundo sendo o Uno à nível de ser.
E é precisamente o substrato participável emanado pelo Uno que são as hênadas, simplíssimas. E são essas hênadas os chamados deuses que, diferentemente dos entes participáveis, dos outros substratos plurais, não estão abaixo do Uno, mas sim, ao seu entorno.

É importante esclarecer que, para Proclus, esse Uno, essa Divindade, não é um Deus, pois antecede à individualidade, não podendo ser nem pessoa nem indivíduo (como são os deuses). Portanto, descartamos um teísmo de divindades menores
Essas hênadas, esses deuses, podem operar na essência de outros, daí Zeus-Hera, Zeus-Apolo, Zeus-Poseidon, etc: todos os deuses contém virtualmente em si, todos os outros; Mas, cada deus é uma unidade absoluta, com cada deus diferenciando-se, desse modo, de todos os outros. E, as hênadas sendo os termos intermediários de participação do Ser no Uno, são ao mesmo tempo supraessencias (transcendentes e emanadas pelo Uno) e essencias (imanentes e ligadas ao Ser), isto é, os aspectos inferiores dos deuses são seres, enquanto os superiores são hyperousios (além do Ser e do não-ser, assim como o Uno). Daí que cada Deus, em certa medida, representa algo na realidade.
E ainda, segundo Proclus, todas as esferas da realidade possuem uma classe de hênadas correspondentes; logo, existe um Deus da Inteligência (νοῦς), da Psiquê (Ψυχή), do Kosmos (κόσμος), etc. Mas, para ser mais específico, Proclus dividiu as hênadas em duas tríades, sendo a primeira a tríade henadológica fabricadora de essências — tríade responsável pela geração de hiperurânio (o mundo das Formas e Ideias, que começam como unidades sem alteridades no Uno-Ser [Aiôn] e culminam completamente pluralizadas no Intelecto [Nôus]) — e a tríade fabricadora do mundo, que corresponde à atividade demiúrgica da formação do mundo a partir das essências criadas pela primeira tríade, afinal, o mundo corpóreo é criado a partir da descida das Formas rumo à matéria, quando a Alma, agindo como intermediária entre o mundo intelectivo e a matéria, transmite os logoi (proporções aritméticas impostas pelo Demiurgo) das Formas à matéria.
Agora, já explicado um pouco sobre as hênadas, podemos ater-nos mais longamente ao Uno e sobre sua simbologia: de Platão à Proclus.
O Simbolismo do Sol: De Platão à Proclus.
Em Platão.

Ilustração que representa a alegoria da caverna de Platão
Platão em seu Livro VII de A República expõe, logo após a analogia do sol e a analogia da linha dividida, a tão conhecida alegoria da caverna (ou mito da caverna). Que é apresentada num diálogo entre Sócrates e Glauco:
[…] Sócrates — Agora, imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco– Estou vendo.
Sócrates– Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco- Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco — É bem possível.
Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco — Sim, por Zeus!
Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco — Assim terá de ser.
Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco — Muito mais verdadeiras.
Sócrates — E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco — Com toda a certeza.
Sócrates — E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco — Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates — Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco — Concordo.
Sócrates — Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco — É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates — Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco — Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates — E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco — Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates — Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco — Por certo que sim.
Sócrates — E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco — Sem nenhuma dúvida.
Sócrates — Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha ideia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco — Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão. A República. Livro VII)
Na alegoria, o Sol representa a Ideia do Bem (toú agathoú idéa), já citada anteriormente n’A República como sendo o conhecimento máximo (megiston mathema), que, nas palavras de Platão:
Quando vista, deve nos levar à conclusão de que esta é de fato a causa de todas as coisas, de tudo que tem de correto (orthós) e belo (kálos), dando à luz no mundo visível para a luz, e mestra da luz, a si mesma no mundo inteligível fonte autêntica da verdade (aletheia) e razão (nous), e qualquer um que agir sabiamente em particular ou público deve tomar vista disso (A República, livro VII, sessão 517)
E, o Bem (ἀγαθόν), seria, portanto, a causa de todas as Ideias, o Supremo: o Uno. E Proclus, discípulo de Platão e grande neoplatônico, também trabalha com simbolismo(s) do Sol, vamos investigar.
Em Proclus.
O que Platão chama de Bem (agathoú), Proclus chama de Valor — Valor que é uma da três identidades principais do Divino. Até agora chamamos o Divino de Uno, sendo que, na verdade, τὸ ἐν (Uno) é uma das identidades do Divino, sendo o Valor (o ‘’Sol’’), a União (Uno) e a Causa Primária (a Existência) as outras identidades principais. Sendo assim, o ‘Sol’ em Proclus também é do cárater do Supremo. Proclus dedica um Hino solene ao Sol:
1. Ao Sol Ouve, ó rei d’ ígnea mente, Titã d’ áureas rédeas; ouve, ó dador da luz; tu deténs, ó senhor, as chaves da fonte da vida e, alto, tu vertes às ordens materiais rica e harmônica fluente. 5 Ouve pois, tu que estás no assento central do éter e, em posse do luzente disco, o imo do cosmo, tu ocupas tudo co’ um saber que aviva os entes. Envolvem os planetas a tua tocha eterna, e, eternos, em danças contínuas, incessantes, 10 aos homens gotas enviam que vida geram. Sob as carruagens vossas que regressam, todos os frutos brotam, assim fixam as Sazões. Os elementos colidiam num fragor que cessou quando tu vieste de estirpe inefável. 15 Por ti as Musas vêm em coro inelutável. De novo o fio do fado desfiam, forçoso, se tu bem queres; domas tudo e à força reges. De vosso elo surgiu Febo, o rei da canção aos deuses obsequente; co’ a cítara inspirada 20 seu canto acalma a ampla onda da brutal criação. Do êxtase teu que ampara e bons dons nos outorga brota o Peã, que, então, designa a sua saúde, preenchendo co’ harmonia indolor o ancho cosmo. Cantam por ti qual de Dioniso ilustre pai; 25 no abismo da matéria qual Átis Evoé; com cantos louvam-te outros qual belo Adônis. Do açoite lépido teu temem a bravata os numes funestos aos homens, irascíveis, munindo nossas míseras almas de males, 30 para que no abisso troante da vida elas sempre padeçam, tombadas sob o jugo do corpo, ao que olvidam do altivo pai a nédia corte. Então, sumo deus, d’ ígnea honra, fasto nume, imagem do deus criador, elator das almas, 35 ouve-me e, as falhas todas, purga-as tu de mim, recebe-me a plangente súplica, e das nódoas nefastas me afasta e protege-me das Penas, abranda o ágil fito da vedora Justiça. E sempre, com vosso favor que afasta o mal, 40 garante pura e próspera luz à minha alma, dispersa as destruidoras e virosas brumas, dá ao corpo benfazeja saúde e vigor, à glória leva-me e, qual fixaram os avitos, que zelem-me com dons as bem comadas Musas. 45 Dá-me, ó senhor, se quiseres, firme bonança por minha amável piedade; tudo aperfeiçoas de pronto, pois tu tens infinda e grave força. Se algum revés vier ter conosco pelas tramas dos giros astrais, fata obra de seus eixos 50 espirais, bane-o com o grande fulgor teu. (Os Hinos de Proclus, tradução de Pedro Barbieri)
Poderíamos fazer uma analogia do Sol, também, com a relação de participação da metafísica procleana, onde o Divino inefável, sendo Sol, permanece transcendentemente e indivisivelmente em si mesmo, mas emana ad intra raios solares que são ao mesmo tempo transcendentes, na medida que saem do Sol, e imanentes, na medida que chegam à Terra.
Há ainda aquela identificação do Sol com o demiurgo encósmico (aquele que serve como uma ponte entre o Intelecto e a matéria) e que contém a matéria dentro de si para impor ordem a ela. Não atoa, é o Sol que nos trás luz, é a luz do Sol que torna possível reconhecermos as distinções reais e formais das coisas, é a luz do Sol que capacita a nós fazermos distinções virtuais e puramente racionais, é o Sol que nos revela a essência divina.
Agora, impossível mesmo é dissociar Apolo, filho de Zeus, do simbolismo do Sol. Que, nas palavras de Proclus, ‘’de seu elo saiu Febo (Apolo).’’ Um autor que trabalha extensamente sobre esse tema é Otto Rahn que, por sua vez, o identifica como Lúcifer. Vamos dar uma olhada.
Otto Rahn: Lúcifer-Apolo, A-mor, Thule e Sangue Puro.
Otto Rahn (1904–1939) foi um oficial das SS e estudioso da tradição cátara e do mistério do Graal. Mas antes de começarmos a discursar sobre a obra de Rahn própriamente, é mister fazer uma distinção que permeia toda sua literatura: Lúcifer não é Satanás, nem o Diabo. Rahn reitera que são entidades distintas, sendo que sua identificação/equalização foi feita pelos judeus e ‘’papistas’’ para difamar Lúcifer, dado que — nem mesmo Rahn — rejeita o caráter maligno do Diabo. Para Rahn, Lúcifer é Lucibel, o portador da Luz, Abellio, Belenos, Baldur, Apolo… figura imaculadamente pura e iluminosa. E, portanto, todo ‘portador de Luz’ é um Lúcifer. Lúcifer é o que, hoje adormecido, iluminou o passado e iluminará o despertar da Europa. A ‘Corte de Lúcifer’ (nome-título da principal obre de Rahn tardio, e principal trabalho que usarei como referência) são os europeus que partilham a mesma mística e estão imbuídos do mesmo ideal, entroncados no mesmo sangue: unidos por uma comunidade da Minne (o Amor Cortês dos Trovadores), com as marcas da conexão mística com o clã e com a natureza, cujo deus tinha sido ‘’brilhante, luz e cavalheiresco’’ (Müller, 1997, p. 441, tradução nossa). Todos portadores de luz, todo seres despertos em demanda do Graal. Graal este que é de natureza tripla: é o livro do conhecimento, a taça simbólica que encerra o conhecimento e, ao mesmo tempo, pedra, suporte material, na qual esse conhecimento está gravado. O Graal-pedra seria uma esmeralda de cento e quarenta e quatro faces (doze vezes doze, perfeição da perfeição) ou cento e quarenta e quatro lâminas gravadas numa esmeralda. A esmeralda seria o diadema de Lúcifer caído na terra que simboliza a tericeira visão. No pog do Montségur.
E, para Rahn, foram os exércitos de Satanás — e não os de Lúcifer — , que atacaram o Montségur para se apoderarem do Graal caído da coroa de Lúcifer, do portador de Luz, guardado pelos Puros: os cátaros.
Mas, antes de prosseguirmos, faz-se mister também a definição do conceito de Minne que Rahn tanto utiliza:
Mani corresponde ao alemão Minne e ao termo gótico muito próximo, Munni, ou seja, aquilo a que chamamos ‘’memória’’, ‘’recordação’’. A palavra Minne nunca significou ‘’amor’’ no sentido corrente, mas ‘’memória de Amor’’. Em sânscrito, essa palavra tinha o mesmo sentido e também designava a pedra legendária que iluminava o mundo e dissipava as trevas, domínio do erro. (Otto Rahn, A Corte de Lúcifer)
Assim, a palavra Minne, significa a ‘’memória de Amor’’, o A-mor. Uma vez que penso, componho e interpreto pelos meus antepassados, eu próprio sou um Minnesängers. Um poeta que tem no pensamento a prática da Gaja Scienza.

Deus Apolo
Para Rahn, o deus Amor (Minne) era Lúcifer (Apolo) em sua forma mais elevada. Sua verdadeira pátria era a região do pólo no extremo Norte (Norte que, segundo Rahn, era sagrado para os Cátaros, enquanto o Sul, era a morada de Satanás), na terra do povo bem aventurada dos hiperbóreos: ‘’na última ilha, no extremo norte, no limite extremo das terras habitados, na Última Thule, a Thule extrema.’’
E, ainda, segundo Rahn, os ‘’papistas’’ (diga-se: católicos), apoiaram o teocentrismo como uma forma de negar o ator principal do Universo: Lúcifer-Apolo-Sol. E, segundo ele:
Não tiveram outro remédio senão reconhecer que a Terra gira à volta do Sol, e que isso mesmo é uma prova da existência de Deus. Nem Roma pode deter o curso do mundo! (Otto Rahn, A Corte de Lúcifer)
E continua:
Há mais de dois mil anos, ‘’homens antigos’’ como Heráclito e Pytheas — o Pytheas de Marselha que partiu em demanda do Norte — já sabiam que a terra gira à volta do Sol. Eles próprios ensinavam que ‘’giramos à volta do Sol para o servir!’’… Mil anos mais tarde, outro astrônomo, o célebre Ptolomeu, afirmava: ‘’Não, tudo gira à nossa volta!’’ — A tese de Ptolomeu agradou mais a Roma, a Roma papista. (Otto Rahn, A Corte de Lúcifer)
Para Rahn, é precisamente a suástica que marca esse símbolo imemorial do Sol e da salvação.
Em sua outra obra, Cruzada contra o Graal: a tragédia do catarismo, Rahn reforça a importância da homogeneidade racial:
‘’Na origem a raça é indissociável de poder dos deuses, aos quais os seus membros estão intimamente ligados. Este vínculo espiritual condiciona os laços de sangue e, em princípio, confere a um povo a suprema aspiração de se constituir como uma unidade.’’ (RAHN, 2002, p. 228–229)
Mas voltando à ‘Corte de Lúcifer’… segundo Rahn, na Grécia antiga não era adorado deuses personalizados — mas sim, ‘’potências’’ e ‘’forças’’ (interpretação parecida com a de Nietzsche) — que governam os três mundos: subterrâneo, terrestre e celeste. ‘’Um Pai de tudo, uma Mãe suprema.’’ E, ainda, segundo ele:
O politeísmo dos povos pagãos deve ser visto a outro luz. Foi mal interpretado ou, como creio, foi-lhe dada deliberadamente uma falsa interpretação! (Otto Rahn, A Corte de Lúcifer)
Essa nova luz, talvez, possa ser pensanda dentro da metafísica neoplatônica, e é isso que iremos esboçar à seguir.
O Neoplatonismo Lúciferiano: Uma nova luz proclo-racial ao paganismo.
Para pensarmos num Neoplatonismo Lúciferiano, poderíamos partir da associação da Minne — isto é, recordar, rememorar — ao ato de estímulo mnemônico do Intelecto (nôus): é o Intelecto que contém o Mundo das Formas, não-desperto pela sua anexação na matéria, sendo re-memorado pela anamnese (ἀνάμνησις), pela Minne! O Minnesänger é aquele que, em suas transmigrações, voltará a sua origem. Aqueles que pensa pelo(s) antepassado(s) pensa na sua origem, não à nível biológico, mas pneumático: na reminscência, no pensar nas origens, é a re-memoração das Formas Inteligíveis. E, aquele que já é conhecido no céu (esteve nas origens e retornou a ela), poderá ter acesso ao Graal: a pedra caída da Coroa de Lúcifer.
Lúcifer: Apolo Hiperbóreo. Que, assim como as outras hênades, é simplíssimo e, em seu aspecto imanente — aquele que faz do ‘ser’ partícipe de sua Natureza — representa as potências e as forças dos Aryas. Pois, na origem, como diz Rahn, a raça é indissociável do poder do deuses, aos quais os seus membros estão intimamente ligados. Daí que quanto mais puro (isto é, quanto maior o vínculo espíritual do humano com os deuses) mais Valor ele terá: ‘’mais do Bem-Sol’’. Assim, quanto mais puro, mais unido e mais harmonizado no todo se estará e, assim, a aspiração de se constituir como uma unidade se efetiva.
O Demiurgo, aquele exposto no diálogo Timeu de Platão, anuncia e exibe no Sol a grandiosidade de Lúcifer-Apolo, o visitante de Thule: permitindo aos humanos reforçarem seus laços raciais e re-memorem sua ancestralidade e, assim, retornarem ao Bem.
E é com a Cruz Gamada (Hakenkreuz), simbolizadora da forças de Apolo Hiperbóreo, que a Horda Furiosa de Odin-Wotan virá e Lúcifer irá iluminar novamente a Alma do Mundo.
[…] Desde então, continuo marchando, quando tantos outros abandonaram a Grande Marcha. Porque pertenço à Wildes Heer, à Horda Furiosa, ao Último Batalhão do Führer, que retornará com Ele, em glória e triunfo, ao finalizar este terrível tempo do Kali-Yuga, desta Época Mais Escura. (Miguel Serrano, O Último Avatar, p.38)

A Perseguição Selvagem (Franz Von Stuck, 1889)
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